Aconselhamento com pessoas portadoras de deficincia
Ira Mller





Aconselhamento com pessoas
portadoras de deficincia



Experincia de um grupo na comunidade







Editora Sinodal, 1999
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(WorldAssociation    ofChristian     Communication        -        WACC)
CIP - BRASIL CATALOGAO NA PUBLICAO
Bibliotecria responsvel: Rosemarie B. dos Santos
CRB 10/797

M958a Mller, Ira
Aconselhamento com pessoas portadoras de deficincia: experincia de  um
grupo na comunidade Ira Miller. - So Leopoldo: Sinodal, 1999. 140p.

ISBN 8 5-233-0585-8

1. Religio.
2. Teologia Prtica.
1. Ttulo.

CDU24



O  livro  Aconselhamento  com  pessoas  portadoras  de  deficincia    -
Experincia de um grupo na  comunidade  abre  uma  nova  perspectiva  de
trabalho junto com pessoas portadoras de deficincia.

Em qualquer fase da vida, o surgimento de uma deficincia traz  mudanas
significativas na vida das pessoas, e o  sofrimento  decorrente  precisa
ser elaborado. O apoio  recebido  por  pessoas  que  passaram  ou  esto
passando por situaes semelhantes  fundamental  para  a  superao  da
crise.

Ogrupo  de  aconselhamento    uma  possibilidade  de   reavaliao    e
reorganizao da vida. Nele so revistos valores e conceitos em  relao
 prpria pessoa, sua insero na sociedade bem  como  sua  relao  com
Deus.

Acomunidade pode e deve ser um local de acolhimento destas  necessidades
e possibilidades de transformao. A comunidade deve ser  um  corpo  que
valoriza a diversidade e aprende com ela.

Que esta experincia seja motivao para outros grupos na busca  de  uma
sociedade inclusiva.


Vera Beatris Walber

INTRODUO

Esta histria no  minha. Recebi-a de uma amiga,  num  papel  amarelado
pelo tempo, sem a identificao do autor  ou  autora.  Tentei  descobrir
quem a escreveu, mas ningum soube me responder. Conta o seguinte:

Uma mulher caminhava por um Centro de Lojas quando viu  uma  loja  nova.
Resolveu entrar. Levou um grande susto, pois  Deus  "em  pessoa"  estava
atendendo atrs do balco.

-Podes pedir o que quiseres, disse o bondoso Deus.

Depois de pensar  um  momento,  completamente  feliz  com  a  esplndida
oportunidade de realizar seus sonhos, ela se  virou  sorridente  para  o
Altssimo e disse:

-Quero paz, dinheiro, sade e capacidade de ser compreendida... E  quero
ir para o cu quando morrer...

Nesse momento, percebeu que estava  sendo  egosta  e  resolveu  incluir
outras pessoas no seu pedido:

-E quero que tudo isso tambm seja concedido aos meus amigos.

Deus virou-se, abriu alguns potes que estavam atrs dele,  tirou  vrias
sementes com a mo e as estendeu para a mulher dizendo:

-Aqui esto as sementes, aqui ns no vendemos os frutos. Vai e planta o
que tu desejas que acontea.

Tive paralisia infantil aos seis meses de vida. Toda a  minha  vida  foi
determinada por esse fato. Porm, mais determinante ainda foram o  amor,
a dedicao e o estimulo que recebi de minha famlia para que eu pudesse
viver bem com a minha deficincia. Eu sempre sonhei com  um  mundo  mais
prtico, acessivel e acolhedor para as  pessoas  com  deficincia,  pois
senti na pele e no corao (e continuo sentindo) todas  as  dificuldades
de um mundo sem adaptaes para facilitar nossa vida  e  os  efeitos  do
preconceito,  que  nos  coloca,  muitas  vezes,    margem  da  corrente
principal da vida.

Acredito que, como todo mundo, tenho em minhas mos muitas sementes para
plantar, sementes carregadas  de  meus  sonhos.  E  sempre    tempo  de
lanar... Este livro quer ser  uma  semente  que  traga  frutos  de  uma
convivncia mais igualitria e comprometida com a transformao.

Ele conta a experincia  de  um  grupo  de  aconselhamento  com  pessoas
portadoras de deficincia.  o resultado da pesquisa  realizada  durante
meu curso de Mestrado em Teologia. No    uma  palavra  final,  mas  um
convite para refletir sobre vrios aspectos  da  vida  das  pessoas  que
portam  alguma  deficincia  e,  principalmente,  para  realar  que   a
experincia de um grupo  de  auto-ajuda  pode  ser  transformadora,  com
efeitos tanto na vida de quem  participa  ativamente  dele,  quanto  das
pessoas indiretamente ligadas ao grupo.

Aexperincia aqui relatada mostrou-nos a importncia  da  construo  do
grupo onde pessoas antes  to  diferentes  e  de  certa  forma  isoladas
comeam a sentir-se amigas e  irmanadas  por  objetivos  comuns.  Tentei
tambm andar por caminhos novos com textos  bblicos  muito  conhecidos,
isto , resolvi olhar com olhos de quem tem uma deficincia para  textos
que antes s tinham sido  interpretados  por  pessoas  sem  deficincia.
Acredito que cheguei a resultados novos e desafiadores. Este  grupo  que
deu vida  minha pesquisa viver neste ano seu quarto ano de existncia.
Muita coisa se modificou, pessoas novas comearam a participar e  outras
que participaram da experincia inicial no esto mais presentes, mas  
um grupo que continua semeando o direito de ser pessoa.

Agora, distante geogrfica e temporaLmente da experincia com  o  grupo,
vejo claramente como Deus nos manteve e nos guiou.

Quero agradecer a World  Association  of  Christian  Communication  e  
Editora Sinodal que, juntas,  viabilizaram  a  publicao  deste  livro,
preenchendo um vazio literrio que existe nessa rea.

Desejo ainda estender um abrao de gratido a todas as  pessoas  que  se
envolveram neste projeto, desde seu inicio at sua publicao.


Iara Mller

Definies e terminologias 11

Estatistcas, tipologia e causas da deficincia 14

Aspectos histricos da deficiencia 16

A deficincia no mundo primitivo 18

A deficincia nas culturas antigas 19

A deficincia na Idade Mdia 20

A deficincia na poca do Renascimento at o sculo XIX 20

A deficincia na histria do Brasil 22

Sentimentos e reaes em relao  deficincia 24

Sentimentos da famlia 24

Sentimentos de mes e pais 25

Reaes de irmos e irmas 26

Perodos de crise 27

O ajustamento da famlia 28

Sentimentos da pessoa com deficincia 30

Da sua auto-imagem e adaptao 31

Da sexualidade 33

Da elaborao da deficincia 34

Envolvimento dos profissionais de sade 39

Estigma das pessoas com deficincia 41

Influncia da mdia na formao de opiniao 44

Trabalho na vida das pessoas com deficincia 47

Postura da Igreja frente  deficincia 49

Concluso 51

Notas 52

II A trada de  sustentao  terica  do  aconselhamento  em  grupo  com
pessoas portadoras de deficincia 55

O corpo imperfeito integral como fundamento bblico-teolgico 56

1 Corintios 12.20-26 56 O sentido de curar-se 60

Lucas13.10-17 62 O grupo como um cadinho de transformao 66

Comunidade teraputica como espao para o aconselhamento 71

Concluso 75

Notas 76

III A experincia do aconselhamento em grupo com pessoas  portadoras  de
deficincia em uma comunidade eclesial

        Organizao e funcionamento do grupo de aconselhamento 79

Primeiras providncias 80

Participantes 82

Funcionamento do grupo 85

Local de reunio 88

Transporte 89

Clima e coeso grupal 91

Liderana 92

Evoluo 95

Anlise dos processos que ocorreram no grupo de aconselhamento e seus

         efeitos na comunidade eolesial 98

Processos ocorridos nas sesses do grupo de aconselhamento 99

        Dacatarse 99

De como o grupo confrontou e desafiou 103

De como o grupo animou 108

Da descoberta da importncia do grupo 111

Da resistncia 113

Da trajetria de um participante 116

Da conscientizao sobre o que  deficincia 119

Da f dos participantes 120

Efeitos do grupo de aconselhamento na comunidade eolesial 123

        Convivncia com outros membros da comunidade 123

Convivncia com membros voluntrios do sistema de transporte 124

Da impresso sobre o grupo 124

De como se sentiram ao fazer o transporte 125

        Da contribuio do grupo para a comunidade 126

        Concluso 127

Notas 128

Concluso 131

Bibliografia 135

I A PESSOA COM DEFICINCIA NO CONTEXTO SOCIAL


A falta de informaes, o desconhecimento  sobre  determinados  assuntos
gera o preconceito. Perpetuam-se atitudes preconceituosas em relao aos
portadores de deficincia, fortalecendo esteretipos  que  dificultam  a
sua integrao em qualquer contexto:  as  pessoas  com  deficincia  so
revoltadas, no podem trabalhar, so vitimas, so incapazes,  sofredoras
ou heroinas. Este conjunto de idias, baseado em observao  sem  nenhum
envolvimento  com  a  pessoa,  delineia  o  lugar  dos  portadores    de
deficincia na sociedade: na margem, muitas vezes  isolados,  num  lugar
que encarcera a pessoa e suas possibilidades.

Alm disso, existe um fosso profundo entre a necessidade da  pessoa  com
deficincia e o contexto social  em  que  est  inserida,  como  se  no
estivesse ali, pois  algumas  de  suas  necessidades  mais  bsicas  no
encontram  resposta,  como  por  exemplo:  andar,  pois  existem  muitas
barreiras arquitetnicas; trabalhar, pois no h acesso  formao e nem
mercado de trabalho; relacionar-se, pois h muito  preconceito,  gerando
isolamento; reabilitar-se, pois nem  todos  tm  acesso  ao  sistema  de
sade.

 necessrio, ento, um movimento em direo  quebra de preconceitos  e
esteretipos atravs da informao. A informao ainda  a melhor  forma
de combater o preconceito e de acabar com os tabus. Faz-se necessrio um
desmascaramento de defesas e barreiras sociais para  que  a  pessoa  com
deficincia possa  ser  incorporada    vivncia  cotidiana.  Este    o
propsito deste captulo. Iluminar espaos e facetas da vida das pessoas
com deficincia ensombrecidas por falta  de  conhecimento  e  informao
correta sobre o assunto.



Definies e terminologias

"Aleijados",  "invlidos",  "defeituosos   incapazes",    "deficientes",
"pessoas  com  necessidades    especiais",    "pessoas    diferentemente
capacitadas", "portadores de deficincia" so  terminologias  que  foram
surgindo  em  diferentes  pocas  e  que,  ao  mesmo  tempo,    cunharam
definies. E impossvel nomear estas pessoas sem  as  estar  definindo.
Mas como defini-las? Por um lado, nome-las  pode  encobrir  o  fenmeno
real de possuir uma deficincia. Por outro lado,  nome-las  pode  selar
seu destino para sempre.

As pessoas com  deficincias  constituem  uma  parcela  considervel  da
populao mundial. No so um grupo homogneo, pois  existem  diferentes
deficincias em diferentes reas (fsica, mental,  sensorial)  e  graus,
alm de possurem a sua singularidade pessoal. Compartilham, no entanto,
um ponto comum: so diferentes  do  convencionado  "normal",  revelando,
assim, que  difcil a escolha das palavras  certas  para  definies  e
terminologias.

A "Declarao dos  Direitos  das  Pessoas  Deficientes"  define-as  como
"qualquer  pessoa  incapaz  de  assegurar  por  si  mesma,   total    ou
parcialmeflte, as necessidades de uma vida individual ou social  normal,
em decorrncia de uma deficincia congnita ou no, em suas  capacidades
fsicas ou mentais."

Coloca-se ai uma polaridade: num lado, imagina-se um cego que  no  teve
formao, no consegue trabalho e, conseqentemente, no assegura por si
mesmo suas necessidades. Este  considerado deficiente. Outro cego,  que
teve formao,  advogado, trabalha  e  se  mantm,  no    considerado
deficiente.

Esta definio est baseada  na  capacidade  da  pessoa  e  no  na  sua
condio fsica, mental ou sensorial. Percebe-se  que  as  definies  e
terminologiaS so muito imprecisas, volteis, muitas  vezes,  suscitando
mais ambigidade no assunto. De uma forma bem abrangente,  opta-se  hoje
por considerar pessoa portadora de deficincia aquele ser que nasceu com
ou adquiriu um dficit ou dano mental, fsico ou sensorial,  o  que  no
impede que seja respeitado como cidado e cidad, com plenos direitos  e
deveres ao exercer sua cidadania dentro dos limites que lhe  impe  este
seu dficit ou dano.

Aterminologia adequada   uma  questo  de  valores  culturais  que  vo
mudando de poca em poca, de acordo com as mudanas sociais e as formas
organizatriaS que a sociedade vai adquirindo ou  delineando.  E  tambm
uma questo de contexto. Para avaliar o grau  de  uma  deficincia  numa
pessoa  fundamental avaliar tambm as exigncias que  o  seu  meio  lhe
impe, isto , at que ponto ela  capaz de satisfazer tais  exigncias,
at que ponto suas possibilidades esto longe do  nvel  normal  daquele
contexto. "Se uma determinada condio  considerada uma deficincia  ou
no, variar como meio onde a pessoa vive, com a sua situao pessoal na
poca, e a atitude da sociedade em relao a ela".2 Um  menino  com  uma
deficincia  mental  leve,  num  contexto  rural  simples,  pode  passar
despercebido e ser integrado, o que no aconteceria num contexto urbano,
onde as exigncias so outras (por exemplo, video games e fliperamas).

Sendo assim, a expresso "pessoa portadora de  deficincia",  ou  ainda,
"pessoa com deficincia", usada atualmente e que , de certa forma,  uma
contraposio  a  "deficiente",  "incapacitado"  e   outras,    delineia
vantagens em



relao s expresses mais antigas. A expresso d mobilidade    pessoa
atingida, dando-lhe um aspecto dinmico, de quem tem  vida  normal,  que
atua, separando a pessoa de sua deficincia,  o  que  a  torna  sujeito.
Tem-se, ento, mais uma descrio da pessoa, da forma como ela atua,  do
que  um  juzo  de  valor.  A  pessoa    um  todo,  integrado  com  sua
deficincia, e no um ser incompleto ou doente.  Estas  duas  expresses
sero usadas alternadamente neste trabalho.

 diferente dizer: Pedro  invlido ou deficiente, de dizer:  Pedro  tem
deficincia. Da primeira fala imagina-se que Pedro no atua,  nada  pode
fazer, no d opinio, no trabalha, no tem  relaes  afetivas,    um
coitado. Ele   sua  invalidez,  no  sobrou  nada,    o  contrrio  de
eficiente. A segunda fala transmite: - Ah! Tem uma deficincia. Deve ser
uma pessoa como as outras, mas com certas dificuldades  para  trabalhar,
ter filhos, sair de casa. No  somente a sua deficincia.

Importa ainda frisar que a deficincia no  uma doena.  Deficincia  e
doena podem  ter  vrios  pontos  de  convergncia,  como  preconceito,
necessidade de atendimento profissional,  reabilitao,  necessidade  de
recursos financeiros. No  entanto,  as  deficincias  no  so  doenas,
embora ocorram casos onde h simultaneidade. No geral,  as  pessoas  com
deficincia podem tanto gozar de  boa  sade,  como  ter  debilidades  e
doenas comuns, independentes da deficincia.

A questo da terminologia para as pessoas com  deficincia    decisiva,
como o  para as mulheres,  meninos  e  meninas  de  rua,  negros,  para
qualquer grupo diferenciado. De tempos  em  tempos,  a  terminologia  se
altera, porque os termos vo se tornando inadequados e adquirem inteno
depreciativa. Note-se o uso crescente da expresso "seu apae"  entre  os
adolescentes, para designar algum que  cometeu  uma  gafe  ou  bobagem.
Segundo Leo Buscaglia, ningum nasce deficiente, mas  fabricado.  "  a
sociedade, na maior parte das vezes, que definir a deficincia como uma
incapacidade, e  o  individuo  que  sofrer  as  conseqncias  de  tal
definio."



Estatsticas, tipologia e causas da deficincia

Embora a medicina acene bravamente com novidades na rea  da  preveno,
tratamentos, posologia, intervenes cirrgicas e reabilitao, cresce o
nmero de  pessoas  com  deficincia.  Cresce  assustadora-  mente.  Sem
dvida, uma das primeiras causas est no aumento  da  pobreza,  paralelo
aos sucessos e descobertas da medicina. Sabe-se que 75% das pessoas  com
deficincia vivem no Terceiro Mundo. Este percentual to elevado deve-se
s condies scio-econmicas precrias.  A  deficincia    tambm,  em
larga escala, uma questo poltica, de poltica de sade, de poltica de
trabalho, de administrao voltada mais para os lucros  do  que  para  o
bem-estar.

As ltimas estatsticas oficiais, realizadas  em  1981,  durante  o  Ano
Internacional  das  Pessoas  Deficientes,   revelaram    um    resultado
assustador: 10% da populao mundial tm alguma deficincia,  segundo  a
Organizao Mundial de Sade.5

No Brasil, estima-se que a percentagem seja a  mesma,  no  mnimo,  pois
sabe-se que a incidncia maior  em  pases  empobrecidos,  e  o  nmero
tende a aumentar. Os ltimos nmeros eram de 13 milhes de  pessoas  com
deficincia. Hoje, as entidades que lidam  nesta  rea  j  estimam  que
sejam 16 milhes, aumentando de 10% para  13%  ou  at  15%,  em  alguns
locais, a percentagem de pessoas atingidas.

No existe exatamente um grupo de risco, nem sexo,  nem  classe  social,
nem uma idade com maiores possibilidades de adquirir uma deficincia.  O
que existe so pessoas que vivem em condies mais precrias  devida,  o
que as aproxima mais das deficincias. No  entanto,  nenhum  grupo  est
salvaguardado de adquirir uma deficincia.

Existem trs tipos bsicos de  deficincia:  a  fsica,  a  mental  e  a
sensorial, que se divide em duas: a auditiva e a  visual.  H  casos  de
pessoas em que os trs tipos acontecem simultaneamente.Aesta deficincia
designa-se deficincia mltipla, sendo que pode  variar  muito  de  caso
para caso em graus de incapacidade.

As deficincias esto assim distribudas:



50% de pessoas com deficincia mental

20% de pessoas com deficincia fsica

15% de pessoas com deficincia auditiva

5% de pessoas com deficincia visual

10% de pessoas com deficincias mltiplas


No  possvel esquematizar uma tipologia muito exata, porque  o  quadro
final da deficincia depende do tipo de diagnstico que  foi  feito,  da
apidez ou lentido do atendimento mdico e da eficcia da  reabilitao.
Podem existir duas pessoas, na mesma idade, que tiveram a mesma oena na
mesma poca, por exemplo, plio  ou  meningite,  e  que,  conforme  enha
ocorrido o processo do diagnstico  reabilitao, hoje  se  enconam  em
situaes fsicas completamente diferentes.

Oambiente em que vivem as pessoas  atingidas  e  as  disponibilidades  e
recursos so fatores de grande influncia na  reabilitao.  Tambm  no
possvel precisar bem onde termina uma e comea outra  deficincia,  so
eandros limtrofes, difceis para  a  medicina  esclarecer.    possvel
traar quadro geral bem amplo: as  deficincias  fsicas  podem  ser  de
origem ngnita, por amputaes ou seqelas e podem caracterizar-se  como
traplegia (quatro membros atingidos), paraplegia (dois membros  atingis)
ou hemiplegia (um s lado do corpo atingido).

As deficincias mentais possuem variados  graus  e  podem  ser  de  igem
congnita ou por seqelas; as deficincias  sensoriais  so  visuais  ou
ditivas, parciais ou totais, e podem ter as mesmas causas citadas.

As causas  destas  deficincias  so  as  mais  variadas  possveis.  Ao
aproximar-se de apenas  um  dos  casos  acima  citados,  seria  possivel
verificar que se ramifica em centenas de casos diferentes, com  origens,
s vezes, ainda desconhecidas, com diagnstico incerto. As  deficincias
manifestam- de  formas  to  diversas  de  pessoa  para  pessoa,  que  
impossvel arrolar todas. Cada  individuo  tem  uma  histria  nica  de
doena ou  acidente,  de  diagnstico,  de  tratamento,  reabilitao  e
adaptao  nova condio.

No entanto,  possvel dar um quadro geral  de  causas  mais  comuns  da
deficincia: problemas genticos, erros metablicos, automedicao,  uso
de agrotxicos, acidente de trabalho, acidente de trnsito, acidente com
minas,  violncia,  falta  de  preveno,  sistema  de  sade    falido,
atendimento mdico geral precrio, assistncia inadequada   gestante  e
ao  recm-nascido,  cirurgias  realizadas  sem   escrpulos,    pssimas
condies de saneamento fome,  uso  de  drogas,  exposio  ao  Raio  X,
acidentes em geral, como quedas e  mergulhos  em  guas  rasas,  doenas
como: rubola, toxoplasmose,



sfilis,  encefalite,  tracoma,  hipertenso,  doena   nas    artrias,
epilepsia, hansenase, diabete, poliomielite, meningite, sarampo.

Vislumbra-se, aps  estes  dados,  a  importncia  de  uma  poltica  de
preveno, pois as causas no so  apenas  uma  questo  de  sade,  mas
tambm  uma  questo  social.  Segundo  a  Coordenadoria  Nacional  para
Integrao da Pessoa Portadora de Deficincia (CORDE), a ausncia de uma
poltica de preveno acarreta gastos em torno de 12.452 dlares por ano
para a manuteno de uma pessoa com deficincia, enquanto que os  gastos
com a preveno so de 20 dlares (dados editados em 1994) .~

OTeste  do  Pezinho  revela  a  existncia  de  doenas  que  podem  ser
diagnosticadas  precocemente  e,  se  tratadas  a  tempo,  podem  evitar
deficincias mentais irreversveis nas crianas. Este  teste  existe  no
Brasil desde 1968, no entanto, ainda no faz parte do  servio  gratuito
do  Estado  e  nem  ocorre,  como  deveria  ocorrer,  na   rotina    das
maternidades.

Espantoso  saber que muitas destas deficincias poderiam ser  evitadas,
s vezes, com medidas simples, como a vacinao ou informao. Porm, h
uma  lacuna  enorme  na  poltica  social  de  preveno  de  doenas  e
acidentes, permitindo que mais pessoas adquiram ou nasam com algum tipo
de deficincia.

As questes de organizao social no so estanques, independentes, pelo
contrrio, esto todas relacionadas e enredadas. Pensar em preveno  de
deficincias,  no  tratamento  e  reabilitao  para  as  pessoas    com
deficincia    necessariamente  tambm  pensar  nos   mecanismos    que
circunscrevem  todas  as  pessoas,    significapeflsarfluma    sociedade
satisfatriaparatOdOs.



Aspectos histricos da deficincia

Embora no haja espao para  tratar  este  assunto  com  a  profundidade
merecida,   extremamente  importante  o  conhecimento  da  histria  da
deficincia para a  melhor  compreenso  do  atual  modo  de  definir  a
deficincia e o conseqente  manejo  com  as  pessoas  com  deficincia.
Preconceito gera preconceito. Preconceitos no nascem do  abstrato,  mas
crescem e se fixam atravs  de  experincias  vividas  no  cotidiano  da
histria.  Se  hoje  as  pessoas  com  deficincia  ainda    esto    em
instituies,  porque houve um processo na histria  que  as  isolou  e
confinou.  Se  a  integrao  comeou,    porque  fatos  e  pessoas  se
movimentaram, criando uma situao favorvel para tal.

Ahistria da deficincia ocorreu dentro da histria da humanidade e est
condicionada a ela e a todos  os  acontecimentos  polticos,  sociais  e
econmicos.  Para  a  compreenso  de  qualquer  situao,  no  s   da
deficincia,   necessrio  que  se  tenha  essa  viso  histrica  como
evoluo, pois o que



tece hoje  resultado da soma de muitos fatores. Entender  uma  situao
ricamente significa afirmar que no est pr-condicionada por sua reza a
ser assim, mas que  resultado de uma complicada teia de acontecimentos,
resultado de aes historicamente localizveis ou tambm,  resultado  de
passividade, e que no precisa permanecer assim como est.

Perguntas inquietadoras podem ser respondidas, como  por  exemplo:  Como
foi possvel a pessoas adultas e crianas  com  deficincia  viverem  em
pocas bem remotas? Como eram tratadas e como sobreviviam?  Qual  era  a
atitude frente a estas pessoas no meio  em  que  viviam?  Qual  era  sua
funo  no  grupo?  O  que  ocorreu  para  que  houvesse  aceitao    e
convivncia? Como esdas pessoas foram adquirindo respeito?

Estas respostas podem jogar novas  luzes  no  viver  atual,  na  bagagem
cultural  trazida  pelos  sculos  e  ajudar  a   rever    os    padres
preconceituosos de comportamento dos grupos  e  at  pessoais,  ntimos,
velados que muitos trazem em relao a pessoas com deficincia.

De certa forma,  possvel dizer  que  houve  um  avano  no  manejo  da
sociedade com as pessoas que possuem alguma deficincia, mesmo que ainda
hoje se  encontrem  pessoas  com  deficincia  abandonadas,  vivendo  em
condies miserveis, o que no sucedia em tribos j extintas como a dos
Ps Negros, onde a pessoa com deficincia  era  de  responsabilidade  da
famlia  e  jamais  era  descuidada  ou  abandonada,  mesmo  que    isso
representasse  sacrifcios.  Em  todo  caso,    possvel  atribuir   um
progresso na maneira de encarar questo, pelo menos do  ponto  de  vista
moral moderno.

A grosso modo,  possvel mapear a histria da deficincia  na  histria
da humanidade, seguindo o seguinte percurso: do extermnio  integrao,
passando entre estas duas fases pelas fases da exposio e em seguida do
gueto ou confinamento em instituies.  correto que  isso  no  ocorreu
nem ocorre de forma  linear,  pois  hoje  ainda  co-existem  e  convivem
diferentes posturas que direcionam prticas polticas e pblicas  tambm
diversas.

Enquanto grupos lutam por direitos e cidadania  plena,  algumas  pessoas
com deficincia ainda se  expem  com  sua  deficincia,  vendendobalas,
apelando para a caridade,  ou  fazendo  exibies,  deixando  as  pernas
jogadas nas costas ou se arrastando no cho, angariando alguns  trocados
aps o show, ou ainda, de culos escuros, sanfona no colo,  "espremendo"
uma melodia, nas rodovirias ou esquinas, cegos,  espera de esmolas  de
compadecidos. Sabe-se que o fazem por necessidade, como  trabalho,  mas,
com certeza, atitudes que no ajudam na construo de uma  outra  imagem
da pessoa com deficincia.

Quanto  histria da deficincia, existe uma obra bastante  completa  de
Otto Marques da Silva,A Epopia Ignorada, j referida acima. Nesta obra,
o autor parte da situao das pessoas com  deficincia  na  histria  do
mundo primitivo, avana para a situao nas culturas antigas  (egpcios,
hebreus,  gregos  e  romanos),  atravessa  o  cristianismo,  o   Imprio
Bizantino e a Idade Mdia, desembocando no  Renascimento  at  o  sculo
XIX.  um texto de inestimvel importncia, do  qual  se  quer  resgatar
alguns conhecimentos neste momento.



A deficincia no mundo primitivo

  impossvel  supor  que  em  tempos  muito  remotos    no    houvesse
deficincias, pois as situaes que eram  enfrentadas  para  garantir  a
sobrevivncia, sem dvida, causavam ferimentos, perda de  membros,  e  a
falta total de recursos nos  primeiros  tempos  deveria  concorrer  para
grandes deficincias. Sempre houve males ncapacitantes, que  podem  ser
diagnosticados,  hoje,  em   ossos    de    antepassados,    descobertos
recentemente:  amputaes  em  vrios  membros,  artrites,    cegueiras,
malformaes, surdez, cncer,  queimaduras, paralisia cerebral,  doenas
mentais, esclerose mltipla, fraturas, paralisias, fissuras,  hanseniase
e problemas de coluna.

Atravs de desenhos encontrados em cavernas, de mos com falta de dedos,
por exemplo, em vasos decorados com homens deformados, corcundas, coxos,
amputados, h sinais de pessoas adultas  com  deficincia,  atravessando
avida daquela poca com suas limitaes." Viver era um  desafio  para  o
povo primitivo. Como desenvolvimento  da linguagem e da idia de um  ser
superior  (ou  vrios),  surge  tambm  a  considerao  pelas   pessoas
acidentadas e adoentadas. O que mais tornava os individuos incapacitados
para viverem em sua poca eram acidentes que ocorriam em  atividades  de
caa,  como  fraturas  e  patadas,  pesca,  ciladas  de  grupos   rivais
(pedradas, flechadas), lutas,  queimaduras, quedas,  feridas,  espinhos,
garras e presas de animais caados. Provavelmente, j  existiam  pessoas
mais idosas atingidas anteriormente, que ficavam nas   cavernas,  e  que
podiam, com sua experincia, tratar dos recm-acidentados.12

Isso denota que estas pessoas foram integradas s outras, do  contrrio,
seus ossos no seriam encontrados  por  estudiosos  na  caverna  com  os
demais ossos. Apaleopatologia,  cincia  que  se  dedica  a  estudar  as
doenas em ossos de animais e  pessoas  de  todas  as  pocas,  descobre
cadavez mais, nos ossos analisados, que havia patologias incapacitantes.
Provavelmente crianas nascidas com deficincias visveis ou aparentando
fraqueza extrema eram eliminadas, primeiro porque no havia condies de
sobrevivncia,  principalmente na obteno de  alimentos  adequados,  ou
no tinham mobilidade para cuidar de si mesmas  em  hora  de  perigo,  e
tambm, porque de alguma forma foi-se  vinculando a deficincia com maus
espritos e castigo das divindades.

Se estas pessoas foram retratadas em desenhos  no  fundo  das  cavernas,
emvasos, se seus ossos com deformidades foram encontrados junto aos.




outros mais jovens e normais, h indcio, tnue mas lgico, de que, seja
qual for o motivo, utilidade ou superstio, as pessoas com  deficincia
tinham algum valor  no grupo social de ento.

No entanto, a maioria dos povos primitivos exterminava suas  crianas  e
adultos com deficincia.  Eram  enterrados  vivos  (tribo  dos  Ajores),
abandonados (Dene,  Jukini),  asfixiados,  afogados  e  queimados  vivos
(Navajos), mortos apauladas (Ojibwa). Os  ndios  da  tribo  Slvia,  da
selva amaznica, "davam a morte  aos  diferentes,  por  acreditarem  que
estes estavam tomados por espritos malignos.



A deficincia nas culturas antigas

AAntigidade  um perodo muito longo e com marcantes acontecimentos  em
torno da deficincia. Os egpcios,  pelos  seus  registros  em  papiros,
demonstram ter buscado  a cura de quaisquer males, e as  obras  de  arte
retratam que as pessoas com deficincia  que  tinham  condies  fsicas
viveram uma vida normal, inclusive com famlia   (esposa-esposo-filhos),
apesar de ver a deficincia como conseqncia de maus espritos.

Acontribuio importante dos hebreus est nas leis criadas para manter o
povo unido, nas  quais  no  faltavam  prescries  acerca  da  sade  e
castigos corporais como amputaes e vazamento de olhos.

























Os  gregos  com  seu  Olimpo  retratam  tambm  figuras   mticas    com
deficincias:  dipo-cego,  Filomela-muda,  Licurgo-cego,    Fineu-cego,
Tirsiascego, ninfa  Eco-muda,  ninfa  Lara-muda,  Hefestos-deficincias
mltiplas,20 confirmando a funo do mito de interpretar e revelar  para
a humanidade como ela  e age, como um espelho. O mundo  mitolgico, com
suas deficincias, reflete o mundo real, como  avida, a aceitao e  as
dificuldades das pessoas com deficincia.

Ainda quanto aos gregos, no se pode  esquecer  que  suas  leis  previam
claramente  assistncia  s  pessoas   com    deficincia.    Hipcrates
debruou-se  longamente,  entre  outros  estudos,  sobre  descries   e
anlises de males incapacitantes e medidas preventivas de deficincia em
crianas pequenas. Existem informaes de  que  homens  com  deficincia
tornavam-se seleiros, sapateiros, ferreiros.

Os romanos, com seu Direito, negaram qualquer direito  vida  de  algum
que nascesse  com  alguma  anomalia.  O  pai  deveria  matar  a  criana
imediatamente. Mesmo com estalei,  o infanticdio no foi praticado  por
todos.  Muitas  crianas  nascidas  doentes  ou  com  deficincia   eram
colocadas em cestos e abandonadas no rio Tigre. Pessoas que   viviam  de
esmolas as salvavam e criavam para mais  tarde  servirem  como  meio  de
explorao, aumentando assim o sentimento de culpa dos romanos.  Sabe-se
1 ainda que aconteceram automutilaes para dispensa do servio militar.
Somente mais tarde, um pouco antes do nascimento de Cristo  e  na  poca
contempornea a. Cristo,  os sbios  Ccero  e  Sneca  ressaltaram  que
poderia haver virtudes em corpos deformados.

22

A deficincia na Idade Mdia

Na Idade Mdia e muito antes j, a grande causadora  de  deficincias  e
conseqente discriminao, alm de  pnico,  foi  a  lepra.  As  pessoas
contaminadas eram destinadas  segregao e nunca ao tratamento.

Na Europa havia 19.000 abrigos, todos com a funo nica de  separar  os
leprosos  da  vida  normal  para  evitar  contaminao,  sem    qualquer
assistncia.  Crianas  nascidas  diferentes  eram  mortas  ou  cresciam
separadas das demais e eram ridicularizadas. Quando cresciam, serviam de
espetculo  de  riso  na  diverso  de  castelos  de  senhores  feudais.
Acreditava-se que traziam sorte e afastavam  demnios.  Nessa  poca,  a
deficincia obteve maior conotao diablica e vexatria. Havia a  idia
de que a mente no poderia ser s, se o corpo fosse marcado. Isso tambm
influenciou  a  Igreja  a  no  aceitar  pessoas  com  deficincia    ao
sacerdcio, alm das prescries do Antigo Testamento.


A deficincia na poca do Renascimento at o sculo XIX  era das trevas
seguiu-se a das luzes. Com o desmoronamento  do  poder  e  da  soberania
clerical e com o surgimento do chamado mundo  cientfico,  a  Renascena
contribuiu para tirar as pessoas da  ignorncia,  da  superstio  e  do
domnio feudal. Muitos esforos foram empreendidos para melhora da  vida
em todos os sentidos, pois houve  interesse  em  relao  aos  problemas
vividos pelas pessoas que estavam na margem.

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No sculo XV Paracelso e Cardano trouxeram a questo da deficincia para
o mbito cincia, para a medicina, tirando-a da esfera somente  moral  e
teolgica.  Neste  sculo  houve  tambm,  pela  primeira  vez,  avanos
relacionado deficincia da audio e surdez.

A  arte  renascentista  retrata  vrias  pessoas  com  deficincia,  ora
situao miservel, como viviam na sua maioria, fazendo parte do  proble
social, ora em situao privilegiada (obras  encomendadas).  Foi  tambm
nesse perodo que se iniciou a especializao mdica em ossos.26

Embora o humanismo valorizasse cada pessoa, na prtica  a  situao  dos
marginalizados ainda era difcil. Tanto que surgiu a mendicncia or zada
(confraria  de  miserveis),  na  qual  os  doentes  e  portadores    de
deficincia tiveram aspecto relevante.  Principalmente  na  Frana,  mas
tambm os pases, houve uma grande malha organizacional dos  miserveis,
com Is prprias, taxas fixas a pagar e falsos portadores de deficincia,
com o Ito de angariar fundos. Isso obrigou os  pases  a  organizarem  a
pobreza, ido escritrios para cadastraniento.27 No entanto, crianas com
deficinriental, mesmo nos meios intelectuais  mais  altos,  continuavam
sendo bS como no-humanas.

Em meados do sculo XVII, a deficincia deixa de  ser  vista  como  lema
individual. Algumas pessoas tentam solucionar problemas prticos Domoo
para portadores de deficincia fsica. Surge a primeira  cadeiraidas.  A
assistncia organizacional dos cegos surgiu no final do sculo E.

Nos primeiros anos do sculo XIX, surge a ortopedia,  que  defendia  que
pessoas com deficincia fsica  deveriam  receber  cuidados  e  servios
especiais para poder continuar suas vidas com suas vontades e dignidade,
igual a outras pessoas. A partir da segunda metade do sculo XIX,  surge
um fato fundamental: A pessoa com deficincia  vista como potencial  de
trabalho tambm. Em 1884,  Bismarck,  chanceler  alemo,  cria  leis  de
proteo ao acidentado  de  trabalho.  Logo  aps,  em  1889,  surge  em
Cleveland, Estados  Unidos,  o  primeiro  centro  de  reabilitao  para
pessoas com deficincia como um todo e no  apenas  em  relao  ao  seu
dficit.

Aps as duas guerras mundiais que assolaram o mundo, apesar das  ildades
econmicas e sociais, houve esforos  para  reabilitar  e  encampessoas
acidentadas e mutiladas para uma vida de trabalho. Estas de deficincias
causadas pelas guerras atrairam sempre a ateno  do  lo,  e  foi  nesta
poca de ps-guerra que foram se definindo preocupaes seu  ajustamento
psicossocial.28 Este rpido passeio  pela  histria  da  deficincia  no
caminho da  idade,  desde  os  momentos  mais  primitivos  at  os  mais
recentes, te detectar uma certa ambivalncia de sentimentos em relao 
ncia com dois plos bem claros: ou a pessoa com  deficincia  era  vista
inaidapresenade deuses, isto , da esfera supra-humana, ou era    vista
mal da presena de demnios, ou seja, da esfera infra-humana.

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Havia eito pela sapincia do cego e a repulsa pelas  deformaes.  Estes
entos sempre moveram as pessoas a terem pena ou temerem  o  namento  com
pessoas com alguma deficincia. Em nenhuma poca, as s  com  deficincia
foram vistas como pessoas em primeiro lugar, e, em o lugar, como pessoas
que portam alguma deficincia. Dificilmente vistas como  pessoas  com  o
mesmo direito  auto-realizao, mesmo u ritmo prprio,  sua  maneira  e
seus  prprios meios. A deficincia na histria do Brasil No  Brasil,  a
histria da deficincia  contada a partir de 1981 geralmente, pois  foi
o ano que a Organizao  das  Naes  Unidas  (ONU)  declarou  como  Ano
Internacional  das Pessoas Deficientes (AIPD).  Dificilmente  encontram-
se registros sobre a deficincia antes desta poca. Porm, Otto  Marques
em sua Epopia Ignorada  tambm  traz    novos  fatos  advindos  de  uma
pesquisa longa e profunda da realidade das pessoas com deficincia antes
de 1981 .

Oautor informa que a maioria das notcias sobre pessoas com  deficincia
est diluda em documentos e comentrios relacionados a doentes e pobres
de um modo geral no Brasil. Os males incapacitantes nos  primeiros  anos
do Brasil descoberto teriam sido atribuidos a um inseto chamado  chigua,
que se infiltrava nas unhas dos ps  e mos e afetava as juntas do corpo
e at ocasionava a perda dos ps.

Acegueira noturna foi um mal assustador dos sculos XVI  e  XVII,  tendo
como principal causa a alimentao sem vitamina A.  Os  escravos  negros
foram portadores de deficincias  fsicas  advindas,  muitas  vezes,  de
castigos sofridos e desastres em engenhos. Eles tambm eram  vitimas  de
raquitismo, beribri e  escorbuto,  males  que  denotam  carncias    na
alimentao.  Entre  os  indgenas  s  foram  encontradas  deficincias
traumticas, nenhuma de nascimento ou hereditariedade, o  que  demonstra
que a prtica de sacrifcio de crianas  com  anomalias  ao  nascer  era
natural. Havia, no entanto, paralticos, coxos, cegos e muitos surdos.

Em 1835,o Deputado Cornlio F. Frana redigiu  um  projeto  de  lei  que
previa a criao de classes para cegos e surdos em  escolas.  O  projeto
nem foi discutido no plenrio, provavelmente por motivos polticos,  mas
chamou a ateno da sociedade e das famlias de cegos e surdos para esta
possibilidade. De um modo geral, a pessoa com  deficincia era  problema
do seu grupo familiar e no do Estado ou da sociedade.  No  entanto,  as
tendncias europias foram chegando ao  Brasil  e,  com  o  esprito  de
renovao e modernizao, Dom  Pedro  II  criou  trs  organizaes:  1)
Imperial  Instituto  de  Meninos  Cegos  -   1854,2)    Instituto    dos
Surdos-Mudos, porvoltade 1887 e 3)    Asilo  dos  Invlidos  da  Ptria,
porvolta de 1869 e desativado em 1976.

Podem-se notar tambm na histria da deficincia no Brasil, de forma bem
distinta, as trs fases do percurso da deficincia: do extermnio (entre
ndios), da  segregao  ou  asilismo  (institutos  e  abrigos),  at  a
integrao (a partir de 1981). Quer-se, no  entanto,  ainda  frisar  que
este percurso nao ocorreu de forma linear, pois enquanto  se discutia  e
discute uma poltica de integrao no trabalho, na sociedade,  ainda  se
constroem casas-lares, asilos para alojar as  pessoas  com  deficincia,
demonstrando  que a fase do assistencialismo ou asilismo est  em  pleno
vigor.  E  Apartirde  1981,  oAIPD,  e1983,  o  incio  da  Dcada    de
Solidariedade com os Portadores de  Deficincia,  as  informaes  sobre
legislaes comeam a ser multiplicadas,  e tambm acontece  aDeclarao
dos Direitos das Pessoas com Deficincia. O tema  do  Ano  Internacional
era Participao Plena e Igualdade.

Em termos de organizao, no Brasil ela comeou somente em 1980 de forma
mais concreta, com vistas ao AIPD.  Embora  j  existissem  organizaes
municipais e estaduais,  a  articulao  nacional  iniciou  em  1980  no
Congresso  de  Pessoas  Portadoras  de  Deficincia,  a  fim  de  traar
estratgias ecriarum organismo nacional para o sucesso  e eficincia  do
AIPD.At esse momento, a concepo era de  entidades  para  pessoas  com
deficincia, nas quais fossem apenas representadas. A partir do  impulso
da ONU,  surge a noo de entidade sde portadores de deficincia.

O  grupo  comeou  realmente  a  se  organizar,  no  sentido  de   obter
representatividade, de resgatar para si a palavra e a defesa da  prpria
cidadania junto  sociedade, junto s autoridades.

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Hoje,  as  entidades  brasileiras   esto    filiadas    a    movimentos
internacionais como Disabled Peoples International,  Unio  Mundial  dos
Cegos, Federao Mundial dos Surdos, e tambm  nacionalmente  federadas:
Apaes,  Ostomizados,  Portadores  de  Deficincia   Fsica,    Autistas,
Portadores da Sndrome de Talidomida e outros. A CORDE  -  Coordenadoria
Nacional para a Integrao da Pessoa Portadora de Deficincia - o rgo
oficial do governo, embutido no  Ministrio  do  Bem-Estar  Social  para
assuntos deste grupo,  que tem se preocupado  em  veicular  informaes,
prevenir deficincias e integrar as pessoas em todos os  sentidos.  Este
rgo compilou e distribuiu gratuita- mente,  em 1994, a lei N2 7.853/89
e o Decreto N 914/93 sobre os Direitos das Pessoas com Deficincia.

Opercurso da deficincia na histria  praticamente igual  em  todas  as
naes. Houve fases de extermnio, de tolerar a  deficincia  desde  que
confinada, e a fase atual,  da luta de grupos em integrar a  pessoa  com
deficincia em todos os sentidos.

Beneficiando-se (ou ajudando a promover?) de toda  uma  reavaliao  dos
direitos humanos e na esteira que inclui a mulher, a criana, o ndio, o
negro, o idoso...  a pessoa portadora de deficincia pde comear a  ser
olhada, e a olhar para si mesma, de forma menos maniquesta:  nem  heri
nem vtima, nem deus nem demnio, nem  melhor nem pior,  nem  superhomem
nem animal. Pessoa.

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Sentimentos e reaes em relao  deficincia

Muitos sentimentos sucedem-se ao tomar conhecimento de  uma  deficincia
ou ao entrar em contato com ela. A deficincia  uma  destas  realidades
das quais no se pode  fugir  e  que  causam  diferentes  sentimentos  e
reaes, como outros segmentos estigmatizados da  sociedade:  meninos  e
meninas de rua, portadores do vrus HIV, pessoas  sem-teto...

Quando nasce uma criana com deficincia ou  ocorre  algum  acidente  ou
doena, deixando algum com uma deficincia, todos sofrem.  uma  quebra
tremenda na rotina da   vida  organizada,  de  planos.  Sofre  a  pessoa
atingida, sofre a famlia, sofre o grupo mais prximo   famlia.  Todos
tm reaes, as  mais  diversas,  tambm  os  profissionais.      sobre
sentimentos e reaes que se quer refletir agora, tendo  como  base,  em
muitos momentos, minhas prprias experincias.


Sentimentos da famlia

Onascimento de uma criana com deficincia ou  o  acontecimento  de  uma
deficincia em uma  pessoa,  em  qualquer  idade,  acarreta  na  famlia
sucessivos  sentimentos  distintos.    As  primeiras  reaes  so    de
incredulidade:  Como?  No    bem  normal?  Vai  viver  e  morrer  numa
cadeira-de-rodas? No houve troca de exames? Erro  de  diagnstico?  No
acredito!  incredulidade segue-se a busca  por culpados: Por qu?  Onde
falhamos? O que fizemos de errado? Ser castigo? Por que justamente eu'?
At a aceitao do fato, dos novos limites  um tempo longo,   doloroso,
tomado por dvidas, medos,  sentimentos  de  culpa,  horror  do  futuro.
Algumas pessoas abandonam a f que tinham, perguntando pelo  sentido  de
um Deus que permite  tal acontecimento. Outras  agarram-se  na  sua  f,
como tbua de salvao, como nico fator de ajuda para suportar tal dor.

Adeficincia nunca  desejvel. As pessoas nem imaginam que, algum  dia,
podero sofrer algumaleso que as incapacite para coisas comuns como  se
vestir, beber, levantar    da  cama,  danar...  Mulheres  grvidas  tm
intimamente suspeitas veladas em torno da sade de  seus  bebs,  mas  a
maioria no as verbaliza e nem toma iniciativa para  se  prevenir.  Para
as pessoas que sofrem  um  acidente  na  vida  adulta,  a  ruptura  e  a
dificuldade de adaptao ainda so maiores. imentos de mes e pais

A maioria dos casais tem certas expectativas a respeito do seu beb s de
nascer. E quando se tornam pais e mes, vem seus filhos ou suas s  como
extenso de si mesmos, do que tm de melhor e mais bonito. jam, de certa
forma, que a criana seja um reflexo deles e sentem-se trangidos  quando
isso no acontece.

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O nascimento de crianas, geralmente,  um momento  feliz,  festivo,  de
planos para o futuro, de se vangloriar. Quando  nasce  uma  criana  com
deficincia,  como se todas as luzes se apagassem e no houvesse motivo
celebrar, pois a dor  enorme. Aps a incredulidade, suspeitas  e  busca
ulpados, segue-se, em muitos casos, a necessidade de um  isolamento  dos
no qual se esforam para absorver e digerir o fato, chegando ao  pranto,
mento. Isto representa um passo para a aceitao, pois, no  choro  e  na
sofrem pela perda da criana esperada e preparam-se para viver com a  a
com limites, mas que tambm pode ser amada, afagada e estimulada.

Oque d amparo aos pais, nestes momentos, so  os  aspectos  normais  o
descobrindo na criana. Ela no  s a sua deficincia. Segue-se  a  uma
longa peregrinao em  busca de tudo que estiver ao seu  alcance:  icos,
especialistas, cirurgias, organizaes,  seitas,  religies,  curandeio,
cirurgias espiritas. O que antes lhes era estranho, agora no  ousam  de
tentar.

Os pais tambm se estressam e se frustram com os servios  com  os  svo
tendo  contato.  Notam  como  no  h  servio  especializado,    algum
aconselh-los, como h falta  de infra-estrutura e, muitas vezes, o  seu
parece ser caso nico e especial. Quanto mais grave a deficincia, tanto
dificil  encontrar parmetros de comparao e  informaes  que  rem  a
direo a seguir.

Com toda essa agitao, correria,  noites  maldormidas,  instala-se  uma
rganizao da rotina domstica. Em muitos momentos,  a  famlia  precisa
lio concreto de outros familiares ou amigos para ajudar em pequenas  as,
mas que garantem uma estrutura de lar estvel. H um grande aste  devido
a tudo isso.  Podem    ocorrer  srias  perturbaes  no  relacionamento
familiar, principalmente com outros irmos e entre o casal.

Quando ocorrem separaes de casais que tm  um  filho  com  deficincia
provavelmente as relaes j estavam instveis e  a  deficincia  foi  o
vante. De um modo geral,  a  deficincia em si no  o nico motivo  das
aes. A deficincia da criana pode ser um problema  a  mais.  Conforme
mary Shakespeare,

foram apurados indices de divrcio e de separao mais elevados  que  os
normais, mas verifica-se usualmente que a criana no foi a nica causa.
Esses casamentos  j estavam em perigo e a criana deficiente provocou a



tenso extra que precipitou o colapso.  Quando  as  famlias  permanecem
unidas, os pais j estavam casados h pelo menos cinco anos e a  criana
tinha sido planejada  e desejada.

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Ter uma criana com deficincia afeta  a  relao  dos  pais,  mas  pode
tambm ser um fator de amadurecimento e crescimento, pois eles  se  vem
diante de decises a serem  tomadas  em  conjunto,  decises  que  podem
determinar avida de seu filho ou filha  para  sempre,  carregando  nesta
esteira os outros irmos e o casal, o que os leva a    uma  cumplicidade
positiva. Ainda no existem  pesquisas  sobre  separaes  em  casos  de
casais, quando um deles sofre a deficincia.  evidente que a relao  
afetada, pois  ser  necessria  uma    transformao  tanto  na  rotina
familiar, quanto na relao afetiva e ntima do casal (ajustamento).  No
entanto,  bem provvel que se possa comparar ao caso  de  casais    que
tenham um filho  portador  de  deficincia,  onde  a  relao  sofre  um
colapso, se antes da deficincia j estava fragilizada. H casos, porm,
em que a relao sobrevive  ao baque da deficincia, ajusta-se aos novos
limites e consegue  ser  duradoura.  Tambm  h  casos  de  pessoas  com
deficincia congnita ou adquirida nos primeiros anos  de  vida  que  se
casam e se separam ou no devido  deficincia. Nota-se,  ento,  que  
muito relativa esta questo da deficincia ser o motivo da separao.


Reaes de irmos e irms

Os irmos ou irms tambm sentem o reflexo do nascimento de uma  criana
com deficincia. Alguns podem ser  negligenciados,    preciso  primeiro
atender a criana com  deficincia. Outros podem ser pressionados  a  se
sobressair em tudo, por uma necessidade dos  pais  de  ter  algum  para
contrabalanar com as impossibilidades  da  criana    com  deficincia.
Outros ainda  so  limitados  a  fazer  companhia  para  a  criana  com
deficincia, no lhe sendo permitidas atividades que aquela criana  no
consegue  fazer, como por exemplo, correr, subir em  rvores,  andar  de
bicicleta, como foi a minha experincia.

Muitos irmos constrangem-se em convidar amigos  para  sua  casa  e  at
podem vir a sentir-se culpados se foram eles que insistiram para ter  um
irmo ou irm. Tambm  pode acontecer que, devido aos  altos  custos  de
internaes, tratamentos, reabilitao da  criana  com  deficincia,  o
irmo seja privado de algum bem material  e  de    tempo  para  lazer  e
recreao com os pais.

A atitude do pai e da  me  em  relao    criana  com  deficincia  
determinante, pois os irmos adotam, em grande parte, a  atitude  deles:
de aceitao ou rejeio,   de  vergonha  ou  abertura  para  encarar  o
assunto. No s o irmo ou a irm adotam a atitude do pai e da me,  mas
a famlia em geral e o circulo de amigos. modos de crise

Existem certos perodos na vida das  pessoas  com  deficincia  que  gem
maior cuidado e reflexo pela famlia,  alm  de  provocar  tenses  que
precisam ser trabalhadas abertamente entre todos os membros: a itrada na
escola, a, adolescncia e a sada de casa, seja por trabalho,  casamento
ou outro motivo. No havendo sensibilidade e preocupao mi estas fases,
pode acontecer que os mais acariciados  sonhos  e  ideais  desta  pessoa
sejam massacrados. A  entrada  para  a  escola    determinante  para  a
experincia de sua aceitao por um grupo. Refere-se aqui a uma  criana
com deficincia fsica, integrando-se numa escola de ensino regular. Pai
e me tm temores de sobra nesta poca, pois vivem  por  antecipao  os
impedimentos e a rejeio que talvez nem venham a ocorrer com seu  filho
portador de deficincia.

Imaginam e antecipam acontecimentos em que a criana  estar  sempre  em
desvantagem em  relao  aos  colegas.  Nunca  esgotam  recomendaes  
professora e sempre lembram  de  muitos  detalhes  importantes  sobre  a
deficincia, os quais a professora nem consegue absorver.  o filho que,
devagarinho, vai baixando a ansiedade dos seus pais, ao  integrar-se  ao
po,  fazendo  os  colegas  perceberem  seus  limites,  mas  tambm  suas
sibilidades.

Geralmente so  crianas  comunicativas,  sensveis  aos  problemas  dos
outros, acessiveis e tendem a, parecer o mais normal possvel, tentando,
s s, at disfarar sua deficincia.  transmitido  para  elas  que  so
ultrainteligentes, numa tentativa de compensar a deficincia, criando um
mito em odeias, o qual  geralmente    desmistificado    ao  avanar  os
estudos.

        So poucas as escolas que esperam alunos com  deficincia.  Elas
no so adaptadas arquitetonicamente,  muito  menos  quanto  a  questes
gerais da deficincia, perpetuando compreenses errneas a esse respeito
e recebem seus alunos de forma inadequada. Na maioria das vezes, o aluno
e a sua lia tm que se adaptar  escola,  alm  de  inform-la  sobre  a
melhor forma de ao.

        Numa turma de vinte e duas crianas sem deficincia  e  uma  com
deficincia, deve-se partir do princpio de que tudo pode  ser  adaptado
nas iades e que no se deve deixar de correr, pular ou fazer outro  jogo
que criana em cadeira-de-rodas, por exemplo, no possa participar,  mas
e criar uma funo ou posio no mesmo jogo que seja  compatvel  com  a
deficincia.

        Outro perodo que  requer  bastante  cautela  e  compreenso  no
ambiente  familiar    o  da  adolescncia.    um  perodo  conflitivo,
conturbado, de um mar-se com o grupo  e separar-se dos  pais,  de  busca
por solidificao da personalidade. Perodo em que a aparncia fsica, a
beleza do corpo valem muito.

 a poca do jovem namorar, ser assediado e assediar, ser conquistado  e
conquistar.  uma poca de profundas tristezas, recolhimento  ao  quarto
em certos momentos,  busca    por  isolamento  e  de  um  sentimento  de
incompreenso. E um momento de crise, de uma situao crtica previsivel
que, em alguns individuos,  mais aguda  e  longa  e,  em  outros,  mais
amena.

A deficincia  num  adolescente    um  agravante  no  seu  processo  de
infelicidade. Ele necessita afirmar-se diante de um grupo que valoriza t
aspecto ao qual no consegue  corresponder totalmente: aparncia fsica.
Ningum com essa idade namora outro algum com  um  "defeito"!  Surge  o
drama: "Todos namoram, todos ficam e ningum me quer!" Os  motivos  para
ficarem recolhidos na tristeza so  maiores.    um  perodo  de  muitas
lgrimas e pensamentos suicidas. Para o adolescente com deficincia como
se para todos ele fosse somente a sua deficincia. Assim como  para  uma
jovem que vai a uma festa lindamente vestida e  penteada,  mas  tem  uma
espinha no rosto: do seu ponto de vista, todos s vem a sua espinha.

Em muitos momentos, o que faz o adolescente com deficincia sobreviver a
este perodo  sonhar com um tempo  futuro,  no  qual  as  coisas  sero
diferentes e ele ser amado. A  famlia  deve  tentar  compreender  esta
profunda tristeza, no minimiz-la nem  ridiculariz-la,  e  mostrar-lhe
outros pontos positivos, suas outras possibilidades e estar  disposta  a
assimilar suas raivas e revoltas, suas variaes de humor, como a de  um
outro adolescente, mas permitir que ojovem se encastele, isolado com seu
sofrimento. Igualmente doloroso para a famlia   a  saida  de  casa  da
pessoa com deficincia, seja por trabalho, estudo,  casamento  ou  outro
motivo. Principalmente para aquela  pessoa    que  mais  se  dedicou  ao
individuo, geralmente a me,  uma  situao  difcil  e  ambgua:  fica
feliz e, ao mesmo tempo, sent abandonada por aquele a quem  disps  todo
o seu tempo e o seu ser.  possto que  esta  pessoa  venha  a  sentir-se
intil, sem ter mais o que fazer, pergun do pelo sentido de  tudo.  Esta
etapa precisa ser muito bem preparada, que as pessoas que ficam  no  se
sintam abandonadas e traidas, e para q

o individuo que sai no se sinta culpado. Em todo caso, a  famlia    o
espao das primeiras experincias, onde  a  pessoa  com  deficincia  se
prepara para enfrentar o mundo.


O ajustamento da famlia

Com o passar do tempo, tanto a famlia em que  nasceu  uma  criana  com
deficincia, quanto a famlia em que um  de  seus  membros  adultos  foi
atingido por uma deficincia, vo se dar conta de que   necessria  uma
reorganizao do seu funcionamento anterior que vise no  s  atender  a
criana ou o adulto com deficincia, mas tambm resguardar as atividades
dos outros membros que  lhes  so  importantes.  Sem  isso,  o  ambiente
familiar no tem quali

Uma s pessoa da famlia dedicar-se de tempo integral  pessoa  atingida
cria um ambiente carregado e falso, acarretando um desgaste emocional  e
fsico muito grande.  A  superproteo  e  o  "viver  s  em  funo  do
atingido" trazem frustraes tambm para  a  pessoa  atingida,  alm  de
tolher suas possibilidades de  escolha  e  de  experimentar  seus  novos
limites. O ideal seria um rodzio de auxiliares e no s o pai e a  me,
como  o mais comum. E obvio que, nos primeiros  anos  de  vida  de  uma
criana com deficincia e nos primeiros tempos de  uma  deficincia  num
individuo adulto,  ecessrio um maior empreendimento de  tempo,  mas  a
situao ideal  tornso mais independentes possvel.

Dar  luz uma  criana  com  deficincia  ou  tornar-se  um  adulto  com
deficincia  algo repentino, na maioria das vezes, sem aviso prvio nem
tempo para preparao. No existe servio de aconselhamento e ajuda  nos
hospitais nem fora deles. Tudo o que os  pais  ou  a  famlia  do  recm
portador de deficincia fazem baseia-se no mtodo do ensaio e  erro,  na
sua busca angustiada. O ajustamento  um processo que depende do  adulto
ou  da  criana  atingida  e  de  sua  famlia.  Muitos  buscam    ajuda
psicoteraputica para lidar com  todos  estes  sentimentos,  outros  no
podem.

Ajustamento  a palavra-chave,  o estado que todas as pessoas  volvidas
precisam alcanar para poderviver bem com a deficincia: tanto  a  essoa
com deficincia quanto a sua famlia. No  um caminho fcil, muito pelo
contrrio,  rduo, cheio de dvidas,  perguntas,  incertezas,  erros  e
acertos, medos, culpas, rejeies, choro e desespero, mas tambm de boas
surpresas. Somente o ajustamento, seja ele emocional, espiritual, fsico
e xual, far com que as pessoas com deficincia readquiram (ou adquiram)
esperana e foras necessrias para chegar  alegria  e  auto-realizao
como o e como quetm.

Todavia, sem este ajustamento, atendncia   o  isolamento.  Esconder  a
pessoa  ou  a  criana  com  deficincia  dentro  de  casa   impede    o
desenvolvimento possibilidades que, com certeza, existem. A  questo  do
isolamento e da cluso das pessoas com deficincia  muito  sria.  Pode
ser uma fase ouse  stalar  para  sempre  na  famlia,  concorrendo  para
sentimentos  de  vergonha  e  autodestruio.  Todas  as  pessoas    com
deficincia deveriam ter  o  direito  de  nhecer  e  enfrentar  os  seus
limites, cabendo  famlia o papel determinante statarefa.

Se o grupo familiar enfrentou outras crises antes da deficincia e soube
aduramente discutir, dividir tarefas, escutar a situao de cada  um,  
ovvel que tambm ser capaz de enfrentar o novo problema.  Se  buscaram
solues conjuntas, conseguiro adequar-se  nova situao,  redefinindo
us papis. O mais importante de tudo    perceber  que  cada  membro  da
famlia tem seus direitos individuais, pois, antes de serem  membros  de
uma famlia com algum com uma deficincia, so pessoas. Todos devem ter
o espao para reclamar, lastimar, viabilizar possibilidades abertamente,
pois

s assim todos iro se beneficiar. No existem frmulas prontas  para  o
ajustamento. Isto s  ser  descoberto  atravs  da  rotina,  nos  novos
aprendizados, na busca, nas frustraes.

O sentimento da famlia em relao a cada membro ir variar  e  ter  um
efeito colossal  sobre  toda  a  famlia.  Se  esses  sentimentos  forem
internalizad os, podero levar   culpa,  ansiedade  e  sentimentos  de
impotncia. Por outro lado, se for criado uma espcie de  frum  no  lar
para que se possam expressar os sentimentos sem  medo    de  censura  ou
rejeio,  essa  prtica  pode  resultar  em  relacionamentos  novos   e
criativos e em solues positivas para todos.

38

Sentimentos da pessoa com deficincia  Partindo  da  minha  experincia,
pretendo aqui relatar aspectos davida que perfazem a  histria  de  quem
possui  uma  deficincia.  No  importa  se  a  pessoa  nasceu  com  uma
deficincia ou a adquiriu na infncia, na adolescncia ou mesmo na  vida
adulta. Acerta altura da vida, ela vai ter que encarar esta  deficincia
e tudo o que ela  determina:  seus  limites,  suas  possibilidades,  sua
auto-aceitao ou auto-rejeio.

Sem passar  por  esse  duro,  mas  eficaz,  trabalho  de  escavao  das
fundaes da deficincia, a pessoa no vai se libertar nem crescer  rumo
 sua auto-realizao,     sua  maneira  e  por  seus  prprios  meios,
paraviver conforme deseja.

 importante que a pessoa com deficincia tambm se permita  errar,  ser
fraca  e  se  desesperar,  quebrando  com  as  idias  de   conformismo,
inteligncia privilegiada e eterna satisfao que a  rondam  e  que  lhe
foram transmitidas no intuito de compensar  a  sua  limitao.  Impe-se
romper a crislida da acomodao, davitimao, do "eu no  posso",  para
que haja um crescimento e amadurecimento at o  ponto  de  perguntar-se:
"Posso ou no posso ser feliz com a minha deficincia ou  apesar  dela?"
Duas atitudes so possveis como resposta: ou a pessoa  com  deficincia
se insere sofrendo, mas amadurecendo no contexto  social,  pois  nada  a
aguarda de braos abertos  e, muito menos, se adapta to logo ela estale
os dedos; ou ela continua na manuteno de trincheiras que  a  protegem,
porm estancam suas possibilidades de vida,  num processo de ostracismo.

Estas duas maneiras de projetara vida no so  especficas  das  pessoas
com deficincia. Podem ocorrertambm, por  exemplo,  com  desempregados,
recm-divorciados, pessoas  que repentinamente enviuvaram ou  adoeceram,
pessoas que se vem,  inesperada  e  obrigatoriamente,  frente  a  outra
maneira de viver da que at ento tinham experimentado.

        a o Da sua auto-imagem e adaptao iza- "T  cansada  de  ser  a
superdeficiente. S muito tarde descobri que era
                normal, que no era superinteligente, mas as pessoas  te
obrigam a ser fora de eito srie. Me faz  bem  me  sentir  normal  entre
outras pessoas com deficincia." Isso 710S, foi dito certa vez  por  uma
pediatra, que tem seqelas de poliomielite,  com deficincia. sar ltar A
verdade  que, em torno das pessoas com deficincia, so criados

38

muitos mitos, nos quais at elas acabam acreditando e sofrem muito ao se
deparar com a realidade em  certos  casos.  Existem  mitos  de  que  so
inteligentssimas, que so admiradas por todos, que  se  sairo  bem  em
qualquer trabalho que se ajuste    sua  deficincia.  Porm,  podem  se
alegrar  muito  em  descobrir  possibilidades  que  estes  mitos  haviam
tolhido: que  uda possvel ser independente, auto-realizar-se, ter vida
sexual.se anica H uma ambigidade de sentimentos em relao s pessoas
com esta deficincia    por  causa  destes  mitos:  ou  as  pessoas  no
conseguem imaginar sua que h alegria e significado na vida das  pessoas
com deficincia, ou superva- lorizam-nas  nos seus feitos,  colocando-as
num  pedestal,  justamente  porque  sua  atitude  contrasta  com  aquela
expectativa baixa que as pessoas tm dela.  das  idias  falsas  que  se
tornam obstculos, que tentam moldar a vida da pessoa  com  deficincia,
criando sentimentos contraditrios quanto    maneira  que  gostaria  de
viver. So idias falsas: "Voc no pode demonstrar a
        sua limitao, mas deve tentar camufl-la";  "as  pessoas  devem
tratar voc como antes"; "voc deve fazer as mesmas coisas  e  da  mesma
forma como os outros fazem ou, pelo menos, da  maneira  mais  semelhante
possvel"; "sua rfliti- famlia e seus amigos  no  precisam  manifestar
suas sensaes em relao , .a da sua deficincia";  "seu  mdico  sabe
sempre o que  melhor para voc". ento feliz   imperativo que a  pessoa
com deficincia descubra que , em primeiro lugar, uma pessoa  igual  s
outras e, em segundo Lugar, que  possui  uma    deficincia,  que  impe
certas limitaes. Do contrrio, ela internaliza sua s, se limitao, de
acordo com a imagem que os outros vo lhe transmitindo sobre de si mesma
e se  coloca  em  posio  sempre  inferior.  ida,  Ao  desenvolver  sua
auto-imagem, a pessoa com deficincia sofre influncias muito fortes  do
olhar e da atitude dos outros.  So  influncias  dolorosas  que  agiro
incisivamente sobre sua auto-estima. Principalmente  na  infncia  e  na
adolescncia, ela tem de lidar  com  algumas  experincias  negativas  e
situaes muito depreciativas para sua auto-imagem, com  aira  apelidos:
aleijadinho, mula-manca, renguinho, ou perguntas malformuladas "O que h
contigo?" "Tu s aleijado?" "Tu tens a perna podre?" "Tu no podes...?",
alm de conviver com o desconforto e as dores fsicas, relaciona das com
a deficincia. Por terem sido  muitas  vezes  crianas  superprotegidas,
isoladas, lastimadas, cria-se uma situao psicolgica muito  inadequada
para a formao  de  sua  auto-estima.  Elas  necessitariam  muito  mais
orientao para um enfrentamento construtivo.

Adeficincia em si no  o problema maior,  um impedimento com  o  qual
aprendem a lidar e a  conviver,  mas  os  efeitos  secundrios  que  sua
deficincia lhes impe,  isto  ,  a  leitura  social  que    feita  da
deficincia como Limitao e incapacidade,   que    o  problema.  Mais
adiante ser tratada a questo do estigma.

Nas relaes interpessoais ocorre,  com  freqncia,  a  necessidade  de
disfarar ou atenuar a visibilidade da deficincia, a fim de evitar mais
experincias negativas e frustraes, pois cada pessoa  com  deficincia
pode relatar numerosas  situaes  de  rejeio  franca  ou  disfarada,
devido ao contato visual com a sua limitao  (quando    vo  a  lugares
pblicos com roupas curtas ounapraia). No  entanto,    um  logro  muito
grande e destrutivo  que  cria  maior  medo  e  ansiedade  em  situaes
similares  futuras.    Muitas  vezes,  cabe    pessoa  com  deficincia
descobrir meios de instruir  as  pessoas  sobre  a  sua  situao,  seus
sentimentos e faz-las ver que  mais do que a sua  deficincia.

Ningum nasce com sentimentos de inferioridade, nem  auto-estima  baixa.
Todos nascem abertos para as possibilidades e experincias que tero. As
pessoas com deficincia  aprendem, muitas vezes, que  so  inferiores  e
no aprendem a se gostar, devido a atitudes da famlia, dos conhecidos e
do contexto social.  a atitude destes que,    muitas  vezes,  contribui
para que as pessoas com deficincia tentem desempenhar as  suas  funes
da maneira mais normal possvel, agredindo-se, colocando sua  sade    e
seu corpo em perigo, com o objetivo de serem  aceitas.  Se  o  ideal  da
pessoa com deficincia  o desempenho das pessoas sem  deficincia,  at
suas vitrias sero  como que derrotas, se comparadas aos  outros.  Isto
aprofunda o sentimento de desvalorizao.

Pode-se concluir que essa resposta social negativa    uma  conseqncia
tanto das emoes evocadas pela  aparnciafisica,  quanto  pela  maneira
como a prpria pessoa com deficincia assimila os rtulos  que  lhe  so
colocados, assumindo-se como incapaz. Ela deve se dar conta de  que,  se
no consegue agir e reagir como as outras  pessoas, deve ser ela  mesma,
dentro de suas condies, da melhor maneira possvel.

A essa necessidade de adaptar-se que se impe s pessoas com deficincia
para serem melhor aceitas no seu contexto social Ligia A. Amaral40 chama
de "Leitos de Procusto" (trs leitos esperam pela pessoa  ao  inserir-se
no seu contexto). No primeiro leito, a pessoa deveria tentar neutralizar
no mximo a sua diferena, tudo deveria se aproximar ao mximo  possvel
do esttico, comportamental e emocionalmente usual, habitual. No segundo
leito, a pessoa com deficincia deveria  ter  o  tamanho  de  um  heri,
alcanando tudo  o  que  deseja  com  sacrifcio  visvel.  Deveria  ser
elogivel  para  a  sua    situao.  Naverdade,  elogivel,  porque  as
expectativas em  relao  a  ela  so  baixssimas.  Um  terceiro  leito
exigiria da pessoa o papel de vitima  Infeliz,  incapaz,  isolada,    em
constante sofrimento, impotente e s assim merecedora de  auxlio  e  de
espao.

Existem, todavia, outras formas da pessoa com deficincia inserir-se  no
contexto e a autora sugere a seguinte rota:

a possibilidade de conviver com a  des-semelhana;  a  no  cobrana  de
adequao  a  moldes  pr  -estabelecidos,  (...);  a   existncia    da
alternativa  do  deficiente  ser  uma  pessoa    comum,    malgrado    a
especificidade das limitaes impostas pela deficincia;  o  resgate  da
potncia, sem que seja super ou infra equacionada, como  na  onipotncia
ou impotncia; o oferecimento de oportunidades (e de sua fruio) de ter
aparncia, aprendizagem e desempenho compatveis com  as  possibilidades
reais; o favorecimento de acesso a mltiplas experincias.

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a sexualidade

Ligados a tudo isso esto os sentimentos, as dvidas e as possibilidades
quanto  sexualidade de  uma  pessoa  com  deficincia.  A  maioria  das
pessoas no acredita que  uma pessoa com deficincia possa ter  relaes
sexuais  e  muito  menos  possibilitar  prazer  sexual  ao  parceiro  ou
parceira, uanto mais ter filhos ou filhas. A idia   de  que,  para  ter
direito ao sexo e   felicidade,    preciso  no  ter  deficincia  foi
introjetada por milhares de essoas. Tambm para a pessoa com deficincia
 necessrio  um processo de descoberta de  suas  possibilidades  at  o
ponto de abalar as falsas  certezas  de  que  sexo    s  para  pessoas
normais.

Um estudo feito em So Paulo

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sobre a sexualidade na opinio das pessoas com  deficincia  revela  que
aparentemente no h relao  entre  o  preconceito  das  pessoas    com
deficincia e sua postura frente  sexualidade.  Na  mesma  pesquisa,  a
maioria respondeu que a maior dificuldade para ter uma relao sexual  
expor sua deficincia.

Se o sexo ainda  tabu, apesar da revoluo sexual, pode-se imaginar que
a  sexualidade  das  pessoas  com  deficincia  ainda    encoberta  por
tlriosidade. No entanto, essas pessoas tm  o  mesmo  direito  ao  sexo,
porque eus corpos no perderam a capacidade de faz-lo,  embora,  muitas
vezes, acontea de uma  maneira  totalmente  diferente  da  que  estavam
acostumados e considerada normal.

A deficincia no limita a capacdade de amar.  "No  ia  deixar  de  me
atrair por garotas, por pessoas, me  apaixonar,  amar,  por  estar  numa
cadeira de rodas.Apesar de o meu fisico no  sermais  deum  DonJuan,  eu
continuo vivo e funes sexuais  tambm  continuam  funcionando",  disse
numa entrevista pblica,  no  Def-Rio  (Encontros  Internacionais  sobre
Deficincia), o escritor Marcelo Rubens Paiva, lesado medular. Este   o
primeiro passo para sair da impossibilidade  sexual, para as descobertas
de maneiras e adaptaes para umavida  sexual  feliz.  Hoje  os  lesados
medulares j podem ter filhos.  s uma questo de  descobrir  a  melhor
maneira para atingir tal objetivo. O que no podem querer   fazer  sexo
como antes da leso.

A paralisia, a perda dos movimentos do corpo ensina  muita  coisa,  como
por exemplo, a quebra de padres culturais dos homens que deles  exigiam
a iniciativa no ato sexual, a ereo e  ejaculao  como  ponto  alto  e
condio sine qua non. Para pessoas com outras deficincias, que  no  a
leso medular, a sexualidade pode ser ainda mais fcil de se realizar. A
deficincia no impede o relacionamento sexual e, atravs do dilogo,  
possvel descobrir a melhor maneira de efetiv-lo.  No  existem  regras
quanto  melhor maneira e vai depender do tipo da deficincia e do  tipo
de exigncias sexuais dos parceiros.

A sexualidade  um tpico muito amplo. Cada pessoa tem  seus  valores  e
experincias no tocante ao sexo, ditados, quase sempre, pela normalidade
social. Quando se tem uma deficincia, a tendncia  levar estes padres
inalterados para dentro  das  relaes,  mesmo  quando  precisariam  ser
capazes de fazer adaptaes  ao  seu  estilo  devida.  Muitas  vezes,  a
dificuldade sexual no est na deficincia em si, na  seqela,  mas  nos
problemas adicionais causados por reaes  deficincia.

Muitos sofrimentos psicolgicos, conseqentes de circunstncias  ligadas
  deficincia,  ficam  inconscientes  e,  s    vezes,    inacessveis,
tornando-se um grande empecilho para chegar ao ajustamento  e  aceitao
da sua condio.  importante para  as  pessoas  com  deficincia  terem
acesso  terapia ou participar de grupos, nos quais possam elaborar suas
crises  de  forma  menos  solitria  e  mais   solidria,    ajustar-se,
libertar-se de falsos conceitos e crescer rumo    sua  realizao  como
outros seres humanos.

Nesse  sentido,    importante  conhecer  as  reaes  emocionais  e  os
processos  psicolgicos  que  ajudam  as  pessoas  com  deficincia    a
elaborarem a superao da deficincia e viverem bem com seus limites.


Da elaborao da deficincia

Existe um estudo muito interessante que demonstra as fases  pelas  quais
passa uma pessoa, desde o acontecimento de algo  inusitado  em  suavida,
como uma deficincia por exemplo, passando pela elaborao da crise  at
o ajuste  nova situao. O estudo no se apoiou  somente  em  casos  de
deficincia, embora aqui esta seja a referncia, o  prisma  sob  o  qual
ser lido o  processo  de  ajustamento.    um  trabalho  realizado  num
contexto de Primeiro Mundo, mas que pode ser tranqilamente  reconhecido
na realidade de outros pases, pois o ser humano possui  caracteristicas
semelhantes frente s suas rdas pessoais.

Trata-se do estudo de 524 autobiografias feito pela Dra. Erika huchardt.

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Atravs  do  conhecimento  das  diferentes  biografias,  a  autora   foi
percebendo que as pessoas em crise passavam  por  semelhantes  estgios,
mesmo tendo diferentes fatores desencadeantes da crise, de forma que foi
possvel elaborar uma sistematizao  destes  estgios  ou  fases.  Para
tornar mais compreensivo o desenvolvimento destas fases, a autora usa  a
figura de uma pirmide em espiral para ilustrar a dinmica e a  fluncia
do  processo,  tambm  a  superposio  de  uma  fase  sobre  a   outra,
demonstrando estarem interligadas no processo de elaborao da crise,  e
no estanques e sem fluxo. Esta  imagem  tambm  proporciona  uma  viso
tanto de degraus entre ia fase e outra, quanto de fases paralelas que se
comunicam. Observe-se o enho:

O que    que,  afinal,  estaria  havendo...?  Com  base  nesta  teoria,
apresentar-se- a seguir, especificamente, a elaborao da crise de  uma
pessoa com deficincia.

Aprimeira fase  a da incerteza. O individuo toma conhecimento  da  nova
situao, sem entend-la, nem  conhec-la  em  detalhes.    um  choque.
Desorganiza a sua vida,  destri seus planos. V-se colocado  diante  do
desconhecido, cheio de temor profundo, beirando o pnico. Parece-lhe que
o fato no  bem real, no consegue admiti-lo. Surge a negao. Ele  tem
uma certeza velada da deficincia, mas no  a  aceita.  A  negao,  at
certo ponto,  uma defesa til, pois alivia o peso da realidade, defende
do choque diante da perda e defende de um colapso total de personalidade
frente  dor esmagadora. A incerteza  um perodo de tempo que a  pessoa
necessita para  integrar os fatos novos e, nesse caso, a negao, se no
for extrema, pode ser adaptadora.

Geralmente, notcias sobre o nascimento de um beb  com  deficincia  ou
sobre as conseqncias de um acidente  so  dadas  no  hospital,  o  que
contribui para uma sensao  mais estranha e solitria, pois se encontra
em ambiente muito diferente do lar,  merc de profissionais que, muitas
vezes, no informam completamente e de forma  acessvel o fato, e sem  a
presena das pessoas  mais  prximas  que  pudessem  ser  apoio  naquele
momento.

Pressentindo que algo est  muito  mal  e  percebendo  as  atitudes  dos
mdicos e familiares que j sabem mais  ou  menos  o  que  se  passa,  o
individuo passa para a segunda  fase.

 a certeza. A realidade se impe, estando o  individuo  pronto  ou  no
para conhec-la. A vontade  de continuar negando para poder suportar  e
continuarvivendo. Racionalmente  o individuo entende a sua  deficincia,
mas emocionalmente no a aceita. Somente quando ele estiver aberto  para
falar sobre o acontecido, estar apto a descobrir  o que realmente h.

No  uma situao fcil, pois, de imediato, envolve a  postura  que  os
acompanhantes ou familiares tm frente a outras pessoas com  deficincia
e o fato de aceit-la  ou no. Ocorrem sentimentos intersubjetivos, isto
, entre a pessoa atingida, os que ali esto com ela  e  os  sentimentos
anteriores em relao a deficincias e limitaes.

A forma como  o  paciente  e  sua  famlia  so  informados    bastante
decisiva.  Se    feita  compressa,  com  evasivas,  simplesmente   como
informao,  pode  causar  grande  desespero.    O  ideal  seria  que  o
profissional (ou profissionais) dedicasse o tempo  que  a  famlia  e  o
individuo necessitam para sanar dvidas, ver possibilidades, discutir os
primeiros passos a serem tomados  dali  para  frente.  Neste  momento  
testada a capacidade  comunicativo-teraputica  do  mdico  em  primeiro
lugar, mas tambm dos familiares  que iro acompanhar de perto a  pessoa
recm-portadora  de  deficincia  e  sua  postura  e  fora  frente    a
situaes-limite. A terceira fase  a da agresso.  neste  momento  que
aquilo que passava s pela mente comea a passar pelo corao. A  pessoa
consegue entender tudo o que lhe aconteceu.    Tem  uma  idia  de  suas
perdas e danos. Acredita que vai sucumbir. Desencadeia-se  uma  sucesso
de atitudes hostis frente a si e s pessoas que  a  acompanham.  Tudo  
alvo e motivo para sua agresso. Volta-se  contra  tudo  e  todos.    a
vlvula de escape para descarregar seus sentimentos.  Sente-se  isolada,
abandonada pela sorte,  pela  vida,  pelas  pessoas.  E  como  se  todas
estivessem contra ela.

Sua segurana est extremamente abalada. A agresso pode exteriorizar-se
atravs de hostilidade, dio, ressentimento, fria,  ridicularizao  de
tudo o que at ento    acreditava,  manobras  controladoras,  sarcasmo,
olhares de  raiva,  pranto,  agresso  verbal  e  at  fisica.  A  raiva
reprimida pode causar somatizao, depresso e at  suicdio, quando no
h um acompanhamento adequado da parte dos profissionais e da famlia.

 necessrio que a equipe mdica e os familiares reconheam a raiva e  a
agresso como processo  de  sobrevivncia  do  paciente,  que  encorajem
expresses verbais dos  sentimentos, a  fim  de  no  se  revestirem  de
tentativas  de  sabotagem  a  qualquer  tratamento  ou  reabilitao.  A
agresso  uma resposta aos sentimentos de  inutilidade,    ao  medo  de
perder o controle sobre sua vida,   ansiedade  e  solido.  No    uma
atitude contra as pessoas que esto ali e lhe querem bem, mas  contra  o
dano, a perda  que a pessoa sofreu. Aqui  necessrio aprender a dirigir
a energia agressiva para resolver problemas, planejar metas e  conseguir
trabalhar por elas.

A agressividade move para a ao. A  pessoa  quer  agora  encontrar  uma
sada.  Entra  na  quarta  fase,  a  danegociao.  Comea  ajogar  para
conseguir solues. Dispara entre  a  busca  mdica  especializada  e  o
milagre. Quer sair de sua impotncia recm-instalada. Gastos imensos so
feitos nesta fase. Tudo vale: promessas, peregrinao,  doao de  bens,
qualquer coisa, desde que o diagnstico se modifique. A pessoa  atingida
e sua famlia  tentam  de  tudo,  compram  esperanas  falsas,  desfazem
moralmente  expectativas que frustraram, a  f  original    veladamente
deixada de lado em busca de outras solues, antes at  recriminadas  em
outros.

H um grande descontrole de emoes, oscilando entre as novas esperanas
e frustraes. Em muitos casos, a religio contribui para que  a  pessoa
tenha sentimentos  sobre o papel da deficincia em sua  vida.  Pode  ser
vista como punio ou  como  um  sofrimento  escolhido  por  Deus,  para
imprimir um novo sentido  vida. Tambm a  isso  a  equipe  mdica  e  a
famlia devem ser sensveis.

Falhando todo o tipo de barganhas e negociaes feitas abertamente ou em
secreto, esgotando os recursos  mdicos,  falhando  as  promessas  e  os
milagres, instala-se  uma grande desesperana e  mudez.    um  silncio
encobridor,  uma  mudez  profunda.  Desespero  e  resignao  alojam-se,
levando a pessoa  depresso,  quinta  fase  da  espiral.  Uma  tristeza
profunda a invade r todos os poros. Por onde ela olha  esto  perdas  de
coisas de que ela realmente ficou privada,  sejam  suas  pernas,  olhos,
emprego ,ho bbies, mobilide, independncia, e futuras perdas diretamente
ligadas  deficincia. As trist esas frgeis contra a dor  da  aceitao
so abandonadas e o verdadeiro pacto da perda  sentido  e  encarado.  A
pessoa reflete sobre  o  seu  toconceito,  seu  estilo  de  vida  e  seu
desempenho pessoal perdidos. Tem pouca  energia  e  interesse  pelo  que
ainda deve ser feito em termos de tratamento  e  reabilitao,  logo  se
cansa,  pessimista quanto ao que lhe em sobre exerccios,  queixa-se  e
rumina suas perdas pessoais.

Tudo perde o sentido, o prejuzo sofrido ocupatodo o seu  ser,  despede-
das falsas esperanas. A depresso  varia,  como  as  outras  fases,  em
intensidade e durao para cada pessoa, de acordo com sua personalidade,
recursos financeiros, possibilidades de  reabilitao  e  acompanhamento
teraputico e envolvimento positivo da  famlia  e  amigos.  A  tristeza
severa  e  profunda    uma  experincia   pesada,    necessria    para
conscientizar internante a  parte  exterior,  a  deficincia  em  si,  e
completar o processo da transio da nova imagem de si mesmo.

Este sofrimento todo contm o  embrio  da  transformao,  do  encontro
fisico mesma.  sinal de que a  pessoa  est  viva  e  no  se  resignou
totalmente  s  perdas  sofridas.  Necessita  deixar  para  trs  o  que
realmente  perdido e comear a reconhecer o que sobrou para passar para
a sexta e da espiral: aaceitao.

Se at aqui ela se debateu aXltamente, agora no tem mais resistncia e
e buscar novas experincias. Comea devagar a  reconhecer  que  ainda  
um, que tem querer,  alguns desejos, que no est s e que pode usar  o
que foi atingido do seu corpo para um novo existir.   hora  de  ordenar
uma nova histria, com tonalidades bastante diferentes da anterior,  mas
sua histria. A pessoa, com sua deficincia,  comea  a  mobilizar  seus
prprios xrsos para ser  feliz.  No    s  consolo,  mas  um  controle
inicial da nova ao, contribuindo  para  a  convivncia  com  as  novas
limitaes e busca novos limites.

Ela assume o inevitvel imposto, no como resignao, e sim, porque liou
as suas capacidades de ver o mundo, a vida. Percebe que    possvel  de
outra maneira (nunca imaginada) da at ento vivida. Muita  dor    ;ada
nesta fase, e novas experincias acontecem: comea  a  sair  de  casa  e
vertir na cadeira-de-rodas, aprende a dirigir, consegue trabalhar, amar,
ar os outros, mesmo sem perceber.

        Da aceitao  um passo para aao, penltima fase. Aceitando  a
sua forma de ser, a pessoa se libera para agir. No se preocupa mais com
o  que  perdeu,  mas  com  o  que  tem  de  manter  (com   fisioterapia,
tratamentos, cios ou remdios), e muito  mais  ainda  com  o  que  pode
fazer. estrutura valores, assume compromissos, quer autonomia. As foras
antes usadas para desfazer a  tragdia  agora  so  canalizadas  para  a
auto-realizao, soluo de problemas  e conflitos antes camuflados. Tem
suas limitaes conscientes, mas no se debate mais em sofrimento frente
a elas. Sabe sobreviver com as impossibilidades, buscando  alternativas.
No exige mais impossvel  de  si,  sabe  o  que  lhe  convm  quanto  
deficincia, denotando sim que soube se ajustar a nova situao.

Embarca na ltima fase, a  da  solidariedade.  Uma  generalizao  seria
erro, mas muitas pessoas vo trabalhar na preveno do que  as  atingiu.
So  batalhadoras  na  rea  da   preveno,    fazem    contatos    com
recm-atingidos na tentativa  de  estar  ao  lado  e  demonstrar  que  
possvel sobreviver, e is,viver bem com suas limitaes.  Participam  de
associaes como Apaes, ostornizados, das  vitimas  de  talidomida,,  de
federaes  de  cegos,  surdos,  portadores  de   deficincia    fisica,
amputados, grupos de paralisados cerebrais, a  de  lesados  medulares  e
outros. Integram-se ao contexto social, adequadamte, como  participantes
ativos.

 obvio que nem todas as pessoas  com  deficincia  vo  fazer  o  mesmo
trajeto  na  pirmide  em  espiral.  Algumas  pessoas  no  chegam    ao
ajustamento, segundo  Erika  Schuchardt,    um  tero  das  pessoas  das
autobiografias somente alcanou a fase da solidariedade, muitas ficam na
fase da agresso. pessoas com deficincia no passam somente  uma    vez
por cada fase, mas podem, ao longo da vida, viver vrias  situaes  que
as fazem flutuar  ao  longo  da  pirmide  ,  mesmo  jtendo  chegado  
integrao e ao ajustamento.

E comum as pessoas com deficincia voltarem  fase da incerteza, pois os
diagnstcos da medicina vo mudando,  conforme  as  novas  descobertas.
Muitas  tambm  voltam    agresso    quando  se  deparam  com    novos
impedimentos limitantes  ou  sofrem  alguma  piora  nas  suas  condies
fisicas, ligadas  justamente    deficincia,  precisando  de  uma  nova
adequao. "A figura de que esta difcil aprendizagem se prolongar pela
vida inteira, mesmo depois de o atingido conseguir aceitar  a  sua  vida
cerceada por limitaes digna de ser vivida."

47


klvimento dos  profissionais  de  sade  Equipes  mdicas,  enfermeiros,
auxiliares   de    enfermagem,    fisioterapeuiatras,    fonoaudilogos,
psiclogos, pedagogos,  terapeutas  ocupacionais,  assistentes  sociais,
todos,  de certa forma, se vem envolvidos com a  ncia  e  deles  tambm
depende muito  o  bem-estar  da  pessoa  com  ncia,  principalmente  nos
primeiros tempos de vida com a nova limita orno paciente em um hospital,
a  pessoa  com  deficincia  experimenta  ptura  forte:  no  pode  mais
influenciar o ambiente, espera-se que  cumpra  as  ordens  mdicas,  que
confie na equipe que toma importantes decises sobre sua sade,  vida  e
at futuro. Fica separada da famlia, dos amigos, do seu lar e de outros
ambientes que freqentava. Est  merc dos outros  como  nunca  esteve.
Esbarra-se aqui no tema da alteridade de certa forma, pois esto  frente
a frente   dois  mundos:  o  dos  usurios  dos  servios  (pessoas  com
deficincia) e o dos profissionais dos servios.

Apessoa com deficincia tambm mobiliza sentimentos nestas pessoas. Afim
de  no  iniciar  um  servio  de  atendimento  cheio  de  preconceitos,
expectativas baixas, o   universo  afetivo-emocional  dos  profissionais
frente  deficincia tambm precisa ser elaborado para se  tentar  fugir
de mecanismos como ansiedade, rejeio, superproteo  e  a  negao  do
paciente.

Pouco ou nada  feito nesse sentido durante a formao do  profissional.
Aprende tudo tecnicamente sobre deficincias, mas nada  sobre  o  que  a
deficincia significa  para a pessoa que a tem. A equipe precisa assumir
a  responsabilidade  pelos  pacientes  e,  ao  mesmo  tempo,  lidar  com
conflitos referentes  sua prpria sensao de  dependncia e  o  desejo
de cuidados e afeto, bem como sua  postura  frente  a  situaes-limite.
Podem surgir medos e ansiedades que sobrecarregam a  equipe.  Inclusive,
se o paciente no mostra melhoras, a equipe pode sentir-se fracassada  e
com culpas aponto de rejeit-lo.

Os mdicos so ensinados a valorizar a neutralidade emocional e a manter
a  maior  distncia  possvel  do  paciente  para  melhor  conseguir   a
neutralidade. Como afirma Dr. Bernie Siegle em seu livro Amor,  Medicina
e Milagre: "No recebi uma nica aula sobre cura e carinho,  como  falar
aos pacientes ou por que ser mdico".

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O envolvimento, segundo esta forma mais prxima de encarar  o  paciente,
pode sermuito exaustivo,  ficando  impossvel  manter  o  equilbrio  do
desempenho profissional. Na  verdade,  este  envolvimento  neutro    um
absurdo, mais real seria um interesse que  permitisse  a  expresso  dos
sentimentos, sem prejudicar a capacidade de sugerir e tomar decises.

O que Leo Buscaglia diz dos terapeutas  pode  ser  aplicado  a  qualquer
profissional de um modo geral:

Freqentemente os terapeutas se esquecem que sua funo  de guias e no
de deuses. Esquecem-se de que eles tambm, com sua sofisticao, riqueza
de conhecimentos, tcnicas e mtodos sutis, nada mais so do  que  seres
humanos.

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Ao invs do profissional ser emocionalmente neutro,  deveria  saber  que
seu desvelo  um dos componentes da  cura  e  que  a  idia  de  ser  um
profissional baseado em sua autoridade, impede a viso  do  profissional
como parceiro teraputico.

Geralmente, os profissionais trabalham isolados uns dos outros. O mdico
no sabe o que o fonoaudilogo est fazendo, este, por sua vez, no sabe
o que faz o fisiatra, que no sabe como a famlia  tem  agido.  O  ideal
seria uma perspectiva multidisciplinar do paciente e no o esfacelamento
da pessoa em partes atingidas. Muitas pessoas  com  deficincia  relatam
que, por diversas vezes, eram vistas s como pernas ou msculos,  e  no
como seres completos. Para os profissionais, a pessoa com deficincia  
s o seu Impedimento e pode largar tudo para resolver  tal  problema,  a
qualquer hora, e riao uma pessoa que tem vida afetiva, com  compromissos
e interesses.

Descobri que era inteira quando,  num  bilhete,  uma  amiga  escreveu  o
seguinte para me consolar aps ouvir um desabafo  meu:  Voc  no    s
pernas! Foi ali que me dei   conta  de  que  foi  isso  que  os  mdicos
conseguiram fazer de mim: s as minhas pernas, fracas,  feias  e  sempre
necessitadas de melhora.

A declarao acima  uma pequena parte da histria  que  uma  professora
com seqelas de plio relatou num  encontro  de  pessoas  portadoras  de
deficincia.  igual a  milhares de  outras  histrias  de  consultas  e
diagnsticos. E uma terrvel armadilha para as pessoas  com  deficincia
considerarem somente a sua  deficincia  e  no  um  ser  completo.  Ela
continua contando:

Muitas vezes me aconteceu de estar  no  consultrio  do  mdico  e  este
dedicar toda a sua ateno s s minhas  seqelas  e  radiografias.  Meu
rosto  nem  era  fixado  ao  dar    informaes  precisas   do    quadro
sseo-muscular com seus desvios, e minha vida no era levada  em  conta.
Que eu tivesse medos, compromissos, perguntas e dvidas diante   de  uma
cirurgia, nem entrava em cogitao.

No s as pessoas com  deficincia,  mas  toda  pessoa-paciente  deveria
poder  dividira  responsabilidade  de  suavida,  participar,  enfim,  do
processo retomada de  decises  e  do  tratamento  com  seu  mdico.  Os
profissionais que estimularem estas atitudes determinaro a qualidade da
relao mdico-paciente.


Estigma das pessoas com deficincia

Dentro de cada cultura existe  um  conjunto  de  valores  que  define  o
indivduo normal.  Na  cultura  atual,  estes  valores  incluem  padres
estticos voltados para corpos  esculturalmente formados, e quem foge  a
estes padres desvia-se da normalidade.  muito difcil para as  pessoas
confrontaem-se com algum que tem uma deficincia    e  que  no  esteja
enquadrada no padro normal de beleza.

A  pessoa  com  deficincia  remete  as  pessoas  sem   deficincia    
possibilidade delas prprias sofrerem um acidente e ficarem  lesadas  ou
de terem um filho ou filha com srias limitaes.  melhor  evitar  tudo
isso, olhar de soslaio, virar-se e olhar a pessoa quando ela j  passou,
evitar contato e ficar fazendo elucubraes  fantasiosas  sobre  a  vida
daquela pessoa diferente. As pessoas so  carregadas  de  curiosidade  e
preconceitos.

A deficincia, de certa forma, choca e ameaa por representar aquilo que
foge  ao  esperado,  ao  esttico,  ao  eficiente,  ao  normal.    Estes
sentimentos geram discriminao concreta nas  relaes  interpessoais  e
so mediadas pelos esteretipos (que apessoavtima, herona, assexuada,
incapaz  para  o  trabalho,  revoltada),  que   funcionam    como    uma
cortnavelada nas  relaes  das  pessoas  com  e  sem  deficincia.  Os
esteretipos, por sua vez, so fruto do desconhecimento da realidade, do
cotidiano e das possibilidades  das pessoas com deficincia.

Chama-se tudo isso de estigma. No entanto, estigmatizadas so  todas  as
pessoas que, de alguma  maneira,  no  conseguem  se  enquadrar  nem  se
ajustar numa certa concepo de  sociedade  e  no  s  as  pessoas  com
deficincia. Rosemary Shakespeare, referindo-se aos estudos de  Goffmann
(1963) sobre estigma, descreve:

oestigma se vincula a qualquer pessoa que no  se  ajusta    sociedade,
seja um mutilado ou doente mental, um membro de qualquer minoria  racial
ou tnica, ou algum  com um ferrete social como ter estado na priso.

As pessoas com deficincia sofrem menos com a deficincia em si,  sofrem
menos com sua limitao, pois se adaptam a ela, do que  com  o  estigma,
que as isola.   impossvel  entrar  profundamente  nos  meandros  desta
questo de estigma, mas quer-se pelo menos relatar o ponto de  vista  de
Erving Goffmann em seu livro EstgmaY.

O autor se refere a individuos que, de uma forma ou outra, esto  sob  a
incidncia de um estigma, isto , aquela pessoa que sofre um  efeito  de
descrdito muito grande por no estar habilitada para a aceitao social
plena.

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Ele  considera  estigmatizadas  as  seguintes   pessoas:    rfos    em
instituies,  homossexuais,  divorciados,  analfabetos,    prostitutas,
pobres, ex-prisioneiros, drogados, suicidas,  negros,  ciganos,  judeus,
pais solteiros, pessoas muito feias, anes, pessoas estreis, impotentes
ou frgidas, com desfigurao facial, com  deficincia  fisica,  doentes
mentais, pessoas  com  vasos  capilares  dilatados  no  rosto  indicando
alcoolismo, epilpticos e diabticos.

Segundo o autor,  a sociedade que estabelece os critrios para  definir
o que  normal e no estigmatizado e vice-versa.  O  estigma  de  algum
confirma a normalidade de outrem.

53

Em si, o estigma no  um juzo de valor isolado, mas depende  de  certo
contexto e certas concepes sociais para se evidenciar. O autor  define
duas dimenses de estigmatizado: a) o desacreditado - aquele que  assume
sua  caracterstica  distintiva,  ou  seja,  a  deficincia,  o    rosto
desfigurado, o divrcio, a diabete, que sabe  que  todos  sabem,  que  
evidente, e b) o desacreditvel - aquele que no demonstra, no  primeiro
contato,  a  sua  caracterstica  distintiva,  no     instantaneamente
perceptvel e, por isso, passvel de ser escondida.

Por definio,  claro, acreditamos que algum com um estigma  no  seja
completamente  humano.  Com  base  nisso,  fazemos  vrios   tipos    de
discriminaes, atravs das  quais  efetivamente,  e  muitas  vezes  sem
pensar, reduzimos suas chances de vida.

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Geralmente os feedbacks dos estigmatizados no  so  saudveis,  criando
isolamento, depresso, hostilidade, ansiedade e confuso.

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 Quando estigmatizados e normais  esto  frente  a  frente,  ocorre  uma
reao sempre angustiada, segundo o autor,

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e, nesse momento, os dois sentiro as causas e efeitos do estigma,  pois
todos que se relacionam    com  o  estigmatizado,  sejam  familiares  ou
amigos, sofrem um pouco do descrdito do estigmatizado. Em  torno  desse
tema, o autor revela que h manipulao de informaes. Tanto  da  parte
do estigmatizado quanto  da  sociedade.  s  vezes,  a  manipulao  das
informaes transmitidas  voluntria da pessoa que tem a caracterstica
distintiva para se fazer aceita e isso est intmamente ligado    forma
como enfrenta a contingncia.

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Se est adaptada, a pessoa estigmatizada ter um tipo de transmisso  de
informaes, se no est adaptada ainda rita esconder e ser outro o seu
meio de comunicar-se. H a expectativa de um  perfil  quanto  a  pessoas
estigmatizadas, quanto ao modo  que  devem  agir,  e  a  manipulao  do
estigma  conseqncia disso.

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todo caso, a manipulao do estigma est diretamente ligada ao  fato  de
se conhecer ou no pessoalmente o individuo  estigmatizado  e  este  vai
usar tcnicas, a fim de manipular informaes cruciais sobre si,

60

a fim de reduzir tenses para facilitar a sua interao.

O autor percebe que  difcil ser estigmatizado.  Muitos  preferem,  por
exemplo, esconder sua caracterstica distintiva, pois quem  normal est
sujeito a gratificaes e benesses.

62

Existem normas e modelos quanto   aceitao  e  beleza  que  se  tornam
ideais, porm perante estes quase todo mundo fracassa em  algum  perodo
de sua vida.

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Em  resumo,  o  autor  coloca  que,  tanto  caractersticas  distintivas
severas, quanto caractersticas distintivas insignificantes  so  sempre
confrontadas com normas de identidade e padres e que, por isso,  ocorre
a manipulao do estigma como caracterstica da sociedade.

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 de se concordar com Erving Goffmann que o estigma  se  estabelece  nas
relaes interpessoas, surgindo do profundo desconhecimento da situao
do estigmatizado, o que pode confirmar o que at aqui  se  tem  relatado
sobre as pessoas com deficincia. O autor demonstra  conhecer  de  forma
bem intima suas implicaes, problemas, constrangimentos, mas  parte  de
pressupostos hoje j atenuados: que essas  pessoas  so  infelizes,  sem
campo de trabalho, agressivas. Deve-se ter em mente que   uma  obra  de
1963.  Quanto  ao  uso  da  palavra  manipulao,  tambm    necessrio
refletir. A idia descrita  correta, mas o termo manipulao est  hoje
pejorativamente carregado e o manejo das informaes , de fato, real  e
necessrio.  Oautor  refere-se  aos  individuos  estigmatizados  somente
quanto  sua parte distintiva, que causa o estigma. Os  outros  aspectos
no foram considerados, tais como formao  e profisso, famlia.  como
se, para quem l, nenhum estigmatizado pudesse tervida normal, trabalho,
casa, lazer. Ou seja, o aspecto distintivo parece contaminar   toda  sua
identidade. No entanto, na  vida  existem  vrios  momentos  em  que  h
conexo  de  papis,  ou  seja,  a  pessoa  pode  exercer  o  papel   de
estigmatizada em alguns momentos e de normal em  outros.  A  pessoa  com
deficinciavai ter que lidar com este estigma no seu dia-a-dia.  Aprende
ou no a refletir a melhor maneira de informar sobre a sua situao   no
confronto com outras pessoas. Algumas  pessoas  com  deficincia  tentam
demonstrar que superam sua deficincia, por exemplo, fazendo tarefas que
normalmente pessoas sem deficincia conseguem facilmente.   Outras,  sem
ter tido a chance  de  refletir  sobre  sua  situao,  sem  ter  podido
elaborar essa crise de ter uma deficincia, manejam de  forma  agressiva
as situaes  ligadas ao seu estigma.

E h ainda aquelas pessoas que, por necessidade ou por no ter aprendido
outro expediente, vo aprofundar o estigma, assumindo o perfil esperado:
pessoa infeliz,  incapaz, vitima.

O ideal  informar a situao real da deficincia de acordo com o  grupo
social que est em contato no momento. Falar dos limites de sua atuao,
sua necessidade  de  ajuda e sua capacidade para trabalhar e  de  tratar
do assunto.

Contudo, deixar recair sobre as pessoas  com  deficincia  a  funo  de
lidar com o estigma e informar a sua normalidade numa  situao  em  que
estejam reunidas pessoas com e sem deficincia  tarefa sobremodo  rdua
e que algumas preferem evitar. Por  isso  cabe  tambm  s  pessoas  sem
deficincia refletir sobre qual seria a melhor  maneira de se relacionar
com a pessoa com uma deficincia,  qual  a  melhor  atitude  frente  aos
limites, como pode perguntar, ajudar, expressar-se a  fim  de  criar  um
relacionamento interpessoal com fluxo de ambas as partes.


Influncia da mda na formao de opinio

A  mdia  perpetua  as  atitudes  preconceituosas    e    as    leituras
estereotipadas  da  deficincia,  acomearpor  desenhos  animados   para
crianas em tenra idade, nos quais o   "bem"  sempre    bonito,  forte,
inteligente, o que faz  com  que  sempre  vena.  J  o  "mal"    feio,
geralmente com deficincia: um olho s, salivao, com uma corcunda, uma
perna mais curta que a outra,  burro,  faz  papel  de  tolo  em  muitas
situaes e sempre perde.

As crianas so hoje receptoras destas mensagens, mas  no  estaro  elas
gerenciando suas prprias relaes com a diferena, ou mesmo  discutindo
e definindo  polticas  de  integrao  ou  segregao.  propagandas  de
televiso so o exemplo mais claro da expulso do diferente  mercado  de
consumo.  No  h  propaganda  que  veicule  produtos  para  quem    tem
necessidade de outras coisas, mesmo que sejam 10% da  populao,  tambm
consumidores. Todos os produtos anunciados so para pessoas  ssaudveis,
sem deficincia, sempre a sorrir e que, no mximo, contraem umagripe.

Quando aparecem na TV  em situao macabra, como naquela campanha  para
o uso do cinto de segurana, em que um  individuo  em  cadeira-de-rodas,
com um cobertor xadrez sobre as pernas, aparecia   meia-'  primeiro  de
costas, depois de frente. Uma legenda dava o recado: "Agora no  preciso
mais usar o cinto". Como se  o  lesado  medular  no  pudesse  mais  nem
dirigir carro adaptado, como se no tivesse  mais  nada  a  perder.  Sem
contar que o uso de  cobertor  xadrez  sobre  as  pernas    uma  imagem
importada de pases frios.

Recentemente, uma nica propaganda que visa a normalizao da imagem das
pessoas com deficincia foi veiculada pela Associao de  Assistncia  
Criana Defeituosa (que tambm est  em  processo  de  mudana  de  nome
civil), da seguinte forma: A cena mostra uma sala de  aula  de  crianas
entre sete e nove  anos.  Duas  crianas  esto  colando.  A  professora
descobre e manda as duas sairem como punio. Ao se levantarem, uma  das
crianas usa  aparelhos  ortopdicos  nas  duas  pernas,  alm  de  duas
bengalas. Assim, a propaganda consegue  veicular  que  uma  criana  com
deficincia pode estudar numa classe regular  de  ensino,  tambm  cola,
est integrada e sujeita as  mesmas  aplicaes  de  disciplina  que  as
outras crianas.

As novelas brasileiras tambm no abordam bem o tema da deficincia e da
doena. Se h uma personagem com alguma deficincia, esta deve, em  todo
caso, morrer ou curar-se no final da trama, pois  somente  libertando-se
da deficincia atravs da morte ou curando-se para poder casar,  que se
consegue atingir o final feliz esperado e veiculado pelas novelas.

Em 1995, uma novela abriu uma exceo:  Um  personagem  fica  com  leso
medular aps um acidente e consegue ser feliz sem voltar a andar. Porm,
este rumo que a novela seguiu, inclusive veiculando  cenas  de  esportes
para pessoas com deficincia e cenas de amor, foi devido ao trabalho  de
associaes de  pessoas  com  deficincia  que  estavam  pressionando  e
informando, ao mesmo tempo, sobre outras possibilidades de vida  para  o
cadeirante. Estes exemplos, porm,  so  gotas  num  oceano  de  imagens
depreciativas.

A literatura tambm est repleta de exemplos  nos  quais  a  pessoa  com
deficincia  bondosa ou m, tem virtudes ou pecados,   feia  ou  bela.
Muitas histrias para o pblico  infantil  e  juvenil  esto  cheias  de
personagens diferentes, mas, no final, para resolver a trama e  terminar
bem, acontece a cura do personagem, como  se  o  diferente  no  pudesse
permanecer assim e ser feliz. Ou ainda, o diferente  destacado  para  o
circo, onde  tranqilamente aceito por no ser normal,  mas  extico  e
jocoso. O cinema no fica para trs, sempre fazendo as pessoas superarem
a sua deficincia com atos hericos ou colocando-as em papis  ardilosos
e ridculos. Os filmes de  terror  acentuam  o  medo,  quando  surge  um
individuo  diferente  fisicamente.  Maus  e    monstros    so    sempre
desfigurados, com membros retorcidos, que se arrastam para  efetuar    o
mal. Difidilmente as pessoas com deficincias  so  cidados  e  cidads
comuns. Em resumo, ou as pessoas com deficincia so consideradas  boas,
sbias, virtuosas e heroinas e com isso seu flagelo ou deficincia  est
compensado, ou so consideradas cruis, maliciosas, abjetas e  com  isso
reafirma o estigma.

V-se ento que destruir preconceitos significa impedir  esteretipos  e
isso no  tarefa fcil.  trabalho lento, rduo, e todos  os  meios  de
comunicao tm muito a contribuir, veiculando novas imagens  da  pessoa
com deficincia e informaes reais. Recebe-se a cada instante,  atravs
da mdia, mensagens que contribuem para a  formao  de  opinies  sobre
tudo o que nos cerca. Estas mensagens podem ser  reais  ou    no,  mas,
mesmo assim, so absorvidas pela populao e  dificilmente  questionadas
e, muito menos, contestadas. Os prprios formadores de opinio  refletem
pouco sobre  o contedo subliminar das informaes que transmitem. At o
incio dos anos 80, a tnica principal das matrias sobre portadores  de
deficincia era o paternalismo, a piedade, o assistencialismo. Por outro
lado, as colunas  sociais promovendo as benemritas e caridosas damas da
sociedade que "cuidavam dos coitadinhos"...

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Se  atravs da midia que  se  perpetuam  esteretipos  de  pessoas  com
deficincia, tambm  atravs dela que se  pode  reverter  o  quadro  de
desinformao e preconceito e, quem sabe, remover os  esteretipos  e  o
estigma.

Gradualmente, tem-se refletido sobre a  melhor  maneira  de  veicular  a
imagem das pessoas com deficincia, no entanto,  lenta a aceitao e  a
compreenso pelos meios  de comunicao. Foi desenvolvido, a  partir  de
1991 e publicado em 1994, umManual de Estilo86 sobre deficincia para  a
midia,  que  foi  distribudo  entre  profissionais    e  empresas    de
comunicao de todo o pas com o objetivo de minimizar  o  estigma  e  o
preconceito, a fim de facilitar ainserosocialdestaspessoas.



As  abordagens  atuais  da  deficincia  deveriam  tentar  ser  o   mais
normalizadoras possveis, tentando mostraras pessoas com deficincia  em
situaes cotidianas de vida,    com  famlia,  em  casa,  no  trabalho,
namorando, nas lojas, nas  ruas,  dirigindo,  exercendo  sua  cidadania.
Enfim, mostrando o lado positivo  da  deficincia  e  no  somente    as
limitaes.

Estas abordagens sobre as pessoas  com  deficincia  deveriam  enfatizar
muito mais as solues, como preveno, direitos adquiridos, servios de
reabilitao, encaminhamento  ao campo de trabalho, do que os problemas.
Tambm deveriam  ter  o  cuidado  de  retratar  a  vida  destas  pessoas
escapando dos esteretipos, da imagem de gueto e dos mitos   criados  em
torno delas para compensar suas limitaes. A terminologia usada deveria
ser mais descritiva do que valorativa, e deveriam ser transmitidos tanto
xitos    quanto  dificuldades  deste    segmento    sem    apelar    ao
sensacionalismo.

Estes aspectos simples da  imagem  das  pessoas  com  deficincia  podem
colaborar muito para desmistificar a diferena,  contribuindo  para  uma
mudana de mentalidade e,  conseqentemente, para uma mudanano contexto
social, favorecendo a insero  destas  pessoas  em  diferentes  setores
sociais, como no mercado de trabalho, por exemplo.   Este  assunto  ser
tratado a seguir, sem a menor inteno de esgot-lo,  mas  a  titulo  de
ilustrao darealidade.


Trabalho na vida das pessoas com deficincia

Como toda pessoa, a pessoa com deficincia  tambm  tem  necessidade  de
amor, de admirao, de respeito, de reconhecimento de  sua  opinio,  de
participao, de trabalho,  e  tudo  isso  compe  o  exerccio  de  sua
cidadania.  obvio que no se pode separar a realidade das  pessoas  com
deficincia da realidade global scio-poltico-econmica,    na  qual  a
formao profissional  difcil, tanto mais dificil ser para o portador
de deficincia. Quando  a  crise  financeira  gera  uma  competitividade
acirrada, vencem  os considerados normais e mais fortes.

Otrabalho tem importncia fundamental navida destas  pessoas,  tanto  no
aspecto econmico, quanto no sentido de  estarem  ocupadas,  organizando
suavida e lhes fazendo  perceber que so teis  coletividade. Apoltica
de encaminhamento de individuos portadores de deficincia para o mercado
de  trabalho  dever  ter  como  base  o  principio  de  igualdade    de
oportunidades entre  trabalhadores  fisicamente  normais  e  as  pessoas
portadoras  de  deficincia.  Dever  ser  respeitada  a  igualdade  nas
relativas diferenas e nas oportunidades. Trat-los  de maneira diversa,
criando condies de igualdade,  equanimidade e justia social.

67

O mercado de trabalho  competitivo e segregativo. Se  existe  abundante
mo-de-obra sem deficincia, os empresrios tendem a no querer empregar
trabalhadores com  deficincia,  acreditando  no  estarem  habilitados.
Para eliminar este preconceito   preciso  mostrar  casos  concretos  de
pessoas com deficincia adequadamente preparadas.   E  muito  importante
que as empresas vejam as pessoas com deficincia exatamente  como  podem
ser os demais seres humanos. Segundo Rubens Valtecides Alves, mestre  em
Direito,

..de uma forma geral, todos ns somos potenciais "deficientes  fsicos"
sujeitos a restries no desempenho de certas habilidades necessrias em
muitas atividades,  ao longo de nossa existncia.

68

Empresas que possuem de 100 a 200 empregados so obrigadas a oferecer 2%
de suas vagas para pessoas com deficincias. Se possuem  de  201  a  500
empregados, a percentagem  sobe  para  3%  de  vagas  para  pessoas  com
deficincia. Se tiverem entre 500  e  1000  empregados,  as  vagas  para
pessoas com deficincia sobem para 4%, e acima de 1000  empregados,  de
5%  a  percentagem  de  vagas  garantidas,  No  entanto,  como  no   h
fiscalizao, muitas empresas no obedecem esta lei.  Existem  leis  que
garantem o acesso ao campo de trabalho s pessoas com deficincia,  como
a lei de proibio de discriminao no emprego,

69

que afirma que o portador de  deficincia  fsica  no  tem  impedimento
legal para exercer qualquer trabalho. No entanto,  esta  proteo  legal
conferida pelo Direito de Trabalho, muitas vezes, no pode ser efetivada
devido a vrios outros impedimentos.  A  exemplo  de  outros  pases,  o
Brasil deveria isentar as empresas  de  encargos  que  incidem  sobre  a
mo-de-obra das pessoas com deficincia. Isto seria  um  forte  estimulo
para a utilizao de seus servios.

70

Geralmente,  aspessoas  com  deficincia  tm  mais  capacidades    para
desenvolver do que incapacidades para  esconder  e  que  lhes  impea  o
acesso ao trabalho. Pode-se concluir que a mo-de-obra das  pessoas  com
deficincia s no   melhor  aproveitada  por  falta  de  informao  e
preconceitos do setor empresarial e por falta de  formao  profissional
das pessoas com deficincia. Quando a efetivao acontece,    porque  o
empregador ouviu falar de experincias bem-sucedidas  ou  foi  procurado
por alguma entidade  ligada s pessoas com deficincia.  difcil para a
sociedade abrir espaos para ritmos diferentes e  adaptaes,  quando  
mais fcil contratar a mo-de-obra sem deficincia. Para  a  pessoa  com
deficincia,  que enfrenta o desafio de trabalhar,   difcil  enfrentar
barreiras  arquitetnicas  e  colegas  de    servio    carregados    de
preconceitos.

Se, por um lado,  possvel reconhecer que a deficincia em si, por mais
irremedivel que seja, no  impede  o  desenvolvimento  da  pessoa  e  
passvel de adaptao,  por outro lado, deve-se tambm ter presente que,
no campo de



trabalho, os preconceitos e esteretipos podam muito  mais  a  pessoa  e
efetivamente pouco tem a ver com sua limitao.



Postura da Igreja frente  deficincia

Desde o ano de 1959, podem ser encontrados artigos no Jornal  Evanglico
da Igreja Evanglica de Confisso Luterana  no  Brasil  (IECLB)  que  se
referem  preocupao com pessoas portadoras de deficincia  na  Igreja.
Um dos propulsores deste movimento foi o sr. Gnter Becker, portador  de
deficincias mltiplas. Ele questionou a ao da IECLB e buscou  espao.
Durante esta poca, aconteceram discusses em  torno  de  um  Centro  de
Habilitao e Lar para Excepcionais, que nunca  se  concretizou,  embora
houvesse um projeto  para  atender  pessoas  com  deficincia  fsica  e
mental.

72

Poucas pessoas sinalizaram motivao  para  esta  caminhada  e  a  idia
permaneceu nos arquivos, em reunies de alguns lderes da Igreja.

Em 1981, no Ano Internacional  da  Pessoa  Deficiente  (AIPD),  a  IECLB
timidamente, atravs do Centro de Elaborao de  Material,  publicou  um
livreto sobre as  pessoas  com  deficincia.  Neste  livreto,  o  pastor
RolfDroste mencionou que era necessrio admitir que a Igreja  pouco  faz
pelas pessoas com deficincias,  mas  que  seria  necessrio  assumir  a
responsabilidade com elas em busca da integrao . Pastores, pessoas  da
direo da Igreja e, principalmente,  leigos  escreveram  artigos  neste
livreto,  contaram  suas  experincias  e  necessidades.  Algumas   eram
portadoras de deficincia ou pais de  pessoas  com  deficincia  mental.
Este livreto esteve    disposio  das  comunidades  e  foi  dado  como
subsidio para discusses durante o AIPD. No se sabe de resultados sobre
a discusso deste livreto, mas, com certeza,  ele  proporcionou  que  as
pessoas das comunidades, com seus pastores e pastoras, refletissem sobre
a problemtica. Se quisesse ser uma Igreja a servio da obra de  amor  e
apoio ao prximo  que  Jesus  iniciou,  se  quisesse  dar  uma  resposta
concreta  justificativa pela graa de Deus, que coloca todos  os  seres
humanos como merecedores de vida plena, a IECLB no poderia deixar de se
manifestar quanto aos sofrimentos e  marginalizao destas pessoas.

Pde-se perceber que o tema da deficincia  esteve  presente  tambm  em
materiais publicados pela IECLB, principalmente na rea de formao, no
forma exaustiva, porm bem refletida.

Com a criao do Departamento de Diaconia da IECLB, em abril de  1988,os
olhos da Igreja se voltaram concretamente para esta parcela  de  pessoas
das comunidades. Uma das primeiras atuaes deste Departamento



foi reunir pessoas com deficincia,  pais  de  pessoas  com  deficincia
mental e outras pessoas envolvidas com a  causa,  para  uma  reunio  em
Santa Cruz do Sul/RS cidade onde residia o sr. Gnter Becker,  em  julho
daquele ano. Nesta reunio, surgiram idias bsicas, geradoras  de  todo
um trabalho que se desenvolveu depois: preocupao com a  preveno  das
deficincias, com a informao sobre as  deficincias  nas  comunidades,
com a integrao das pessoas  com  deficincia  na  Igreja.  Resolveu-se
fazer  um levantamento de dados dentro  da  IECLB  para  descobrir  seus
membros portadores de deficincia.

Daquela reunio  saram  os  integrantes  do  primeiro  Grupo  de  Apoio
Nacional em  Assuntos  de  Pessoas  Portadoras  de  Deficincia,  que  o
Conselho Diretor homologou em setembro de 1989. Em setembro de 1990,  no
XVII Conclio Geral da IECLB, foram aprovadas as  primeiras  moes  que
refletem a articulao do Departamento de Diaconia e seu Grupo de Apoio:

- que a IECLB adote em seu calendrio  a  Semana  Nacional  das  Pessoas
Portadoras de Deficincia;

- que a IECLB adote um programa de preveno da deficincia;

- que a IECLB concretize a  idia  de  ter  um  Desk  para  pessoas  com
deficincia, que j era uma sugesto da Federao  Luterana  Mundial;  e
que as Escolas Evanglicas criem condies  para  receber  crianas  com
deficincia;

- que todas as edificaes da IECLB  atendam  s  normas  de  adequao,
removendo barreiras arquitetnicas.

75

Com um levantamento de dados, iniciado em setembro de 1990  e  concludo
em junho de 1991, a IECLB descobriu 2371 membros com deficincia. Embora
algumas fichas continuassem chegando at o final de 1992, o Departamento
de Diaconia elaborou grficos e analisou a situao destas  pessoas  que
foram cadastradas. Atravs das participantes  da  Ordem  Auxiliadora  de
Senhoras Evanglicas (OASE) que se dispuseram a ir em busca e  localizar
as pessoas com deficincia, a  IECLB  realizou  dois  objetivos:  contar
quantas  pessoas  com  deficincia  existem  entre  seus   membros    e,
principalmente, entrar  em  contato  com  elas,  perguntar-lhes  qual  a
atitude que esperavam de sua Igreja.

Quando os dados estavam  computados  e  analisados,  o  Departamento  de
Diaconia promoveu a primeira Consulta Nacional de Pessoas Portadoras  de
Deficincia na IECLB,  que reuniu  pessoas  de  diferentes  distritos  e
regies eclesisticas, com diferentes deficincias  representadas,  alm
de um representante da CORDE (Coordenadoria  para a Integrao da Pessoa
Portadora de Deficincia - DF'). Nesta  consulta  ficou  claro  que  era
urgente ter algum  de  tempo  integral  para  trabalhar  nesta  rea  e
coordenar todos os assuntos

ligados  deficincia. Sendo assim, em julho  de  1992,  teve  inicio  a
Coordenadoria de Assuntos  da  Pessoa  com  Deficincia,  trabalho  este
financiado pelo projeto junto ao  grupo  de  mulheres  da  Obra  Gustavo
Adolfo na Alemanha.

Paralelo ao Grupo de Apoio Nacional, foram surgindo Grupos Regionais, no
intuito de multiplicar as informaes.  Na  Regio  Eclesistica  1  por
exemplo, com sede em So Leopoldo, h  uma  equipe  voluntria  de  seis
pessoas, sendo que cinco portam uma deficincia.  Esta  equipe  articula
todos os trabalhos com pessoas com deficincia na regio, edita o Jornal
Entre Amigos e Amigas, que  um veculo de comunicao das  pessoas  com
deficincia, distribudo gratuitamente para mais de quinhentas  pessoas.
Duas vezes ao ano, este grupo e uma pessoa de cada Distrito Eclesiastico
se renem. O objetivo   capacitar,  informar  essas  pessoas  e  trocar
experincias, a fim de estabelecer um trabalho unssono em toda Regio O
servio da IECLB nessa  causa  desenvolve-se  baseado  especialmente  no
trabalho voluntrio. H uma pessoa que trabalha  em  tempo  integral  na
formao  de  multiplicadores  e  multiplicadoras,  na  conscientizao,
apoio, informao e na preveno das deficincias,  buscando  uma  maior
integrao das pessoas com deficincia nas suas comunidades.


Concluso

O objetivo deste primeiro captulo  foi  fazer  uma  abordagem  ampla  e
trazer  informaes  reais  e  normalizadoras  da  vida  de  quem    tem
deficincia.  Percebe-se  que    difcil    nomear  e   enquadrar    as
deficincias pois so muito distintas umas das outras, alm de  envolver
muitas histrias de vida em cada uma delas.

A histria da luta das pessoas com deficincia  para  buscar  um  espao
digno mostra que elas no so to frgeis e impotentes como aparetam  ou
como aprendeu-se a classific-las. Longe disso, cada poca  distinta  da
histria foi um pouco modificada pelos seus esforos  de  ter  uma  vida
normal, de ter seus direitos respeitados. Abusca continua, mas agora no
 mais luta isolada. Lidar com sentimentos em  relao  s  pessoas  com
deficincia faz  parte  da  aprendizagem  de  toda  a  humanidade.  Esta
aprendizagem  um processo  lento,  embora  avance  em  passos  seguros.
Precisa ser mediada por concepes corretas, que no  impeam  o  acesso
delas a uma vida digna. A convivncia, porm,  o melhor caminho para  o
surgimento de relacionamentos que  desmistifiquem  os  preconceitos  que
geram tantos isolamentos. A Igreja envolve-se com as pessoas  portadoras
de deficincia, compartilha com  o  que  est  escrito  em  1  Corntios
1.27-29: Pelo contrrio, Deus escolheu as cousas loucas  do  mundo  para
envergonhar os sbios,  e  escolheu  as  cousas  fracas  do  mundo  para
envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as
desprezadas, e aquelas que no so, para reduzir a nada as  que  so;  a
fim de que ningum se vanglorie na presena de  Deus,  e  tambm  porque
percebe  que ali seu servio alcana a dimenso diaconal mais profunda.


Notas

1 Joo B. Cintra RIBAS, O que so pessoas deficientes, p. 10.

2 Rosemary SHAKESPEARE, Psicologia do deficiente, p. 18.

3 Leo BUSCAGLIA, Os deficientes e seus pais, p. 55.

4 O Terceiro Mundo tem 75% dos deficientes fsicos Cadernos do  Terceiro
Mundo, n.3, 1983,p. 19.

5 Norman ACTON, Deficincia e o mundo em desenvolvimento, p. 6.

6 Paulo Csar TEIXEIRA, A eficincia dos  excludos,  p.  54.  7  Suzana
PICHORIM, Preveno de deficincias: proposta metodolgica  em  pequenos
municpios, p. 10.

8 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 41.

        9 Lgia Assumpo AMARAL, Pensar a diferena/deficincia, p. 14.

        10 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 28-29.

        11 Otto Marques da SILVA,A epopia ignorada, p. 31.

        12 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 32.

        13 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 34-35.

 14 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 38.

 15 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 43.

 16 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 44.

 17 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 45.

 18 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 54.

19 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 77.

        20 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada. p. 91.

21 Iara MLLER,A deficincia no mito e na sociedade, p. 3-4.

        22 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 127ss.

23 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 197ss.

24 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 225ss.

25 Ligia Assumpo AMARAL, Conhecendo  a  deficincia  em  companhia  de
 Hrcules, p. 49.

 26 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 228.

 27 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 233ss.

28 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 242.

29 Lgia Assumpo AMARAL, Pensar a diferena/deficincia, p. 14.

30 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 273ss.


        31 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 283.

32 Otto Marques da SILVA, A epopia ignorada, p. 285-293.

33 Rosangela B. BIELER, Histrico nacional e internacional do  movimento
de pessoas portadoras de deficincias, p. 1.

34 Lgia Assumpo AMARAL, Pensara diferena/deficincia, p. 14.

        35 Leo BUSCAGLIA, Os deficientes e seus pais, p. 107.

 36 Rosemary SHAKESPEARE, Psicologia do deficiente, p. 74s.

37 Leo BUSOAGLIA, Os deficientes e seus pais, p. 87.

38 Leo BUSCAGLIA, Os deficientes e seus pais, p. 139.

        39 Leo BUSCAGLIA, Os deficientes e seus pais, p. 27.

 40 Ligia Assumpo AMARAL, Pensara diferena/deficincia, p. 44-45.

41 A autora refere-se aqui  mitologia grega do Leito de Procusto.

42 Lgia Assumpo AMARAL, Pensar a diferena/deficincia, p. 45.

43 Hilda Maria ALOISI, Marilda Novaes LIPP, Auto-conceito e  sexualidade
na opinio de pessoas portadoras de defeito fsico, p. 133.

44 Erika  SCHUCHARDT,  Warum  gerade  Ich...?  Behinderung  und  Glaube:
Pdagogische Schritte mit Betroffenen und Begleitenden.

45 Erika SCHUCHARDT, Lidar com  situaes  de  fracasso,  p.  91.  Foram
suprimidas as linhas pontilhadas e as explicaes adicionais do  esquema
original.

46 Erika SCHUCHARDT, Lidar com situaes de fracasso, p. 89.

47 Erika SCHUCHARDT, Lidar com situaes de fracasso, p. 90.

48 Bernie SIEGEL, Amor, medicina e milagres, p. 21.

49 Leo BUSCAGLIA, Os deficientes e seus pais, p. 292.

50 Rosemary SHAKESPEARE ,Psicologia do deficiente, p.4 7.

51 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, 158 p.

52 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 7.

53 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p.13.

54 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 15.

55 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 22.

56 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 27.

57 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 39.

58 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 58.

59 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 61.

60 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 103.

61 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada,p. 113.

62 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 86.

63 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 139.

64 Erving GOFFMANN, Estigma: notas sobre  a  manipulao  da  identidade
deteriorada, p. 141.

65 Rosngela Berman BIELER, Mdia e deficincia: uma avaliao histrica
no Brasil, p. 1.

66 Mdia e deficincia: manual de estilo, CORDE, 1994.32 p.

67 Cintia de Souza CLAUSELL, Reflexes sobre o  mercado  de  trabalho  e
pessoas portadoras de deficincia, p. 5.

68 Rubens  Valtecides  ALVES,  Deficiente  fsico:  novas  dimenses  de
proteo ao trabalhador, p. 16.

69 Rubens  Valtecides  ALVES,  Deficiente  fsico:  novas  dimenses  de
proteo ao trabalhador, p. 144.

70 Rubens  Valtecides  ALVES,  Deficiente  fsico:  novas  dimenses  de
proteo ao trabalhador, p. 151.

71 Sabe-se que existem  vrias  igrejas  prestando  servios  a  pessoas
portadoras de deficincia. A Igreja Catlica, por exemplo, h mais de 20
anos  coopera  como  movimento  da  Fraternidade  Crist  de  Doentes  e
Deficientes e a Igreja Luterana do Brasil (IELB) tem escola para surdos.
No entanto, o  que  vem  a  seguir  refere-se    Igreja  Evanglica  de
Confisso Luterana no Brasil (IECLB).

72 A pessoa portadora de deficincia e a IECLB, p. 7.

73 Rolf DROSTE, Aprendendo a viver com as pessoas deficientes, p. 4-8.

74 A srie de auxlios  homilticos  Proclamar  Libertao  e  tambm  o
peridico Estudos Teolgicos, ambos editados pela Faculdade de Teologia,
contm alguns  textos  sobre  deficincia.  75  A  pessoa  portadora  de
deficincia e a IECLB, p. 27.

76 Na reestruturao da  IECLB,  em  1998,  foram  extintas  as  Regies
Eclesisticas e houve uma nova distribuio geogrfica de  parquias  em
Sinodos. Essa equipe atua hoje no Snodo Rio dos Sinos, com sede em  So
Leopoldo/RS.


II

A TRADA DE SUSTENTAAO TERICA

DO ACONSELHAMENTO EM GRUPO COM PESSOAS PORTADORAS DE DEFICINCIA


Para que as pessoas  com  deficincia  possam  realmente  participar  do
processo  natural  da  vida,  no  apenas  vislumbr-lo   dajanela,    o
ajustamento  fisico,  emocional,  espiritual,  sexual,   social,    deve
acontecer no prprio contexto onde elas vivem, tentando  adaptar  o  que
for necessrio para conseguir viver bem  neste  mundo  incapacitante.  O
ajustamento  um processo  e  nao  ocorre  num  prazo  determinado,  nem
automaticamente, mas depende de uma soma  de  fatores  que  podem  tanto
agilizar como dificultar e at impedir este processo, Levando  a  pessoa
com deficincia a um encapsulamento em si mesma.

Aproposta  deste  trabalho  ,  justamente,  ajudar  no   processo    de
ajustamento atravs do aconselhamento em grupo dentro de uma  comunidade
eclesial, como se este fosse,  de forma  anloga,  um  cadinho  onde  as
coisas se fundem e se transformam, possibilitando  que  as  pessoas  com
deficincia mobilizem seus prprios recursos na reestruturao  de  suas
vidas, respon' sabilizando-se tanto pela direo que do s suas  vidas,
quanto pelos resultados obtidos a partir do seu investimento pessoal.

Os trs suportes tericos que sustentam a presente pesquisa e orientam o
aconselhamento  em  grupo  com  pessoas  portadoras  de  deficincia  na
comunidade eclesial so: 1) a argumentao bblico-teolgica baseada  em
1 Corntios 12.20- 26  (da  unidade  orgnica  da  igreja)  e  em  Lucas
13.10-17 (da mulher encurvada), e

2) a Psicologia Social, no que tange  dinmica do  trabalho  de  grupo.
Estas duas, desembocam na

3) concepo de comunidade teraputica de  Howard  Clinebell,  nas  suas
idias norteadoras sobre aconselhamento pastoral.

O objetivo fundamental  do  aconselhamento  em  grupo  com  pessoas  com
deficincia  cooperar para seu  bem-estar  (ajustamento)  em  todas  as
reas de suavida, seja emocional-afetiva,  fsica,  espiritual,  sexual,
poltica e social, construindo assim vida satisfatria, em busca  davida
em abundncia prometida em Joo 10.10. )




O  corpo  imperfeito  integral  como  fundamento  bblico-teolgico   "A
extravagncia de  Deus",  ou  sua  originalidade,  foi  ter  criado  uma
humanidade permeada de diferenas: muitas raas,  muitas  cores,  muitos
tipos e, dentro destes, tantas  variaes  que  no  h  no  mundo  duas
pessoas iguais. A diversidade  to insondvel e incalculvel  quanto  a
multiplicidade dos aspectos da natureza: todos feitos    sua  imagem  e
pelo seu amor, tudo com o mesmo valor, todos  com  potencialidades  para
tornar o mundo um lugar maravilhoso de se viver, em completa harmonia no
convvio entre as diferenas.

Onde e quando iniciou o equvoco? Quem comeou a dizer que certo tipo de
diferente  menos e no pode fazer certas coisas? Por que disseram que o
aparentemente mais  frgil no  feliz e pouco ou nadatem a  contribuir?
Quais as vantagens que o mundo pretendia ao tornar-se incapacitante para
alguns diferentes? Ser que escondendo   certas  diferenas  seria  mais
fcil e menos constrangedorviver? No  mais possvel continuar vendo  e
analisando o mundo sob o  prisma  dos  que  so  mais  fortes  fsica  e
economicamente. No  mais possvel ouvir a histria da parte  de quem a
escreveu, porque tinha poder para isso.  No    mais  possvel  separar
entre os que tm e os que no tm  acesso    vida  e  tudo  quanto  ela
significa, por estarem  impedidos por circunstncias criadas por  falsas
compreenses. A diversidade   um  desejo  de  Deus  e  no    possvel
curvar-se diante da passividade de ver essa diversidade  sendo  dividida
(essa funesta mania de dividir) entre bela, forte e  aceitvel  e  feia,
fraca e  marginalizada.  Veremos  a  seguir  dois  textos  bblicos  que
apresentam  motivos  de  sobra  para  uma  compreenso  bem  clara    da
diversidade querida por Deus. Somente quando toda a  criao,    na  sua
imensa variedade, viver integrada, como se fosse um s corpo  harmnico,
 que se estar realizando o desejo de Deus para si e sua criao.


1 Corntios 12.20-26

Paulo est se dirigindo aqui a uma comunidade nos seus primeiros  tempos
de formao, poca em que surgem dvidas e  conflitos  sobre  funes  e
atribuies de  seus    membros.  Ele  coloca  a  nfase  justamente  na
diversidade  dos  dons,  pois    provavelmente    estavam    acontecendo
"rivalidades internas  e  de  supervalorizao  de  alguns  carismas  em
detrimento de outros".2 A mensagem que Paulo traz  sobre dons e funes
dos membros na comunidade, mas pode-se tranquilamente traar um paralelo
com a valorizao que  dada s pessoas naquela comunidade.

Na parte anterior  ao  texto  que  aqui  se  quer  ressaltar,  ou  seja,
Corntios 12.4-19, Paulo afirma que essa diversidade de dons possui  uma
s fonte, o Esprito Santo, e que no tem sentido algum  exaltar  certos
dons cores, carismas e menosprezar outros, pois todos concorrem  para  o
proveito
 da mesma comunidade, que pode ser "multifacetada". A metfora do  corpo
era muito usada nos discursos  da  poca.  Era  exemplo  conhecido  para
aquela comunidade: "A palavra corpo  estava  "  na  moda"  na  poca  de
Paulo". Alguns autores at informam que a figura do corpo e seus membros
apareceu em muitas obras antigas gregas e latinas, para fazer  analogias
quanto ao funcionamento de  cidades  ou  entidades  e  certo  polticas.
Inclusive com esta imagem do corpo  que  tem  muitos  membros  e  sseram
dependncia  entre  eles,  havia  na  retrica  poltica  o  intuito  de
subordinar pessoas ao estado, para o bem comum. A  palavra  corpo  tinha
muitas interpretaes diferentes na poca de Paulo, pois no contexto  de
Corinto conviviam tambm diferentes classes sociais, culturas, religies
e lnguas, que foram trazidas para o seio da comunidade  crist  que  se
formava. Havia ali um pluralismo muito acentuado que transparecia tambm
nas suas compreenses de "corpo". "A comunidade de Corinto  dividida  e
dispersa, a  situao  conflitiva  que  est  vivendo  afasta-a  do  seu
fundamento, Jesus Cristo." Paulo, porm, com o uso desta  metfora,  no
quer fazer valer qualquer autoridade ou supremacia de um dom ou  carisma
sobre outro. Pelo contrrio, ele usa a imagem  do  corpo  de  uma  forma
criativa, de certa forma, resistndo as  interpretaes  e  compreenses
que havia na poca, seja de origem grega, gnstica, mstica ou rabnica.
Ele inverte os valores existentes e d suporte, valorizando  o  que  at
aqui era desprezado. Com isso, Paulo suscita o  respeito  pelo  que  era
desconsiderado. Exortando com insistncia na variedade de  dons,  ensina
que, para existir um corpo harmnico, precisa existir a  pluralidade  de
dons e carismas. Segundo Irene Foulkes, ele, ao mesmo tempo, ilustra com
a figura do corpo a diversidade e  deflagra  a  rivalidade  que  existia
dentro  da  comunidade  de  Corinto,  apontando   como    soluo:    "O
reconhecimento de que a diversidade  legitima  e  necessria  -  e  por
isso, desejvel - para que o corpo funcione" .

Importante  considerar que Paulo demonstra que a unidade de um corpo se
constitui, justamente, porque tem muitos e variados  membros  e  precisa
dessa variedade para ser um todo. Um corpo s   completo,  quando  suas
diversas partes formam um  todo  e  uma  parte    necessria    outra,
complementando-se  e  interagindo  cada  uma  na  sua  funo.  "Onde  a
conformidade iria matar o corpo, a diversidade lhe d vida.  Honramos  a
Deus quando aceitamos a diversidade que ele d aos seus filhos e  quando
no exigimos uniformidade." Depois que Paulo  frisou  a  necessidade  da
variedade de dons, segue exortando (v. 20-26) quanto  ao  reconhecimento
de que partes que "parecem mais fracas" ou "menos dignas"  devem  ter  o
mesmo respeito e valorizao dentro de um corpo. No corpo de Cristo,  no
qual o Esprito Santo mesmo repartiu os dons, no pode haver  estranheza
e rivalidade frente s pessoas com dons e possibilidades mais  singelas,
pois por serem uma pluralidade de pessoas muito diversas, so essenciais
ao bom funcionamento.

Aqui Paulo apresenta uma nova maneira de compreender a convivncia entre
pessoas que querem  ser  crists:  de  que  existem  muitas  partes  num
corpo-comunidade (v. 20), que elas so diferentes entre si (v. 21),  que
umas precisam das outras (v. 21), que algumas aparentam ser mais frgeis
(v. 22) e outras menos dignas (v. 23), mas que todas so necessrias (v.
22) e merecedoras de igual honra (v. 24) que as  partes  nobres.  Enfim,
que Deus "coordenou" o corpo exatamente assim (v.  24),  para  que  haja
cooperao entre seus membros, "com igual  cuidado,  em  favor  uns  dos
outros" (v. 25). A comunidade de Corinto  era  formada  por  pessoas  de
diferentes nacionalidades e crenas, alm de diferentes classes sociais.
Quem eram os membros que pareciam  ser  mais  fracos  na  comunidade  de
Corinto? Se Paulo fala dos mais fracos,  porque, provavelmente,  tambm
existiam os mais fortes. Quem eram estes? Pesquisas demonstram que, como
em  qualquer  lugar  e  ainda  hoje,  os  mais  fortes  eram  e  so  os
comerciantes,  industriais,  latifundrios,  armadores,  banqueiros   e
militares. E os que aparentam ser  mais  fracos?  Eram  os  biscateiros,
doqueiros,  escravos,  vendedores   ambulantes,    pequenos    artesos,
camponeses, mendigos, desempregados, imigrantes.

Aqui pode-se acrescentar, sem correr risco de engano, que  entre  os  de
aparncia mais frgil estavam tambm as pessoas com deficincia  daquela
poca, que viviam nas ruas, sobrevivendo de  esmolas,  sujas,  famintas,
isoladas por medo de que pudessem ser contagiosas." As pessoas que vivem
 margem correm o risco de se acostumar e  acreditar  que  a  ordem  das
coisas  esta. Por isso Paulo desafia  tanto  fracos  quanto  fortes  ao
escrever estas palavras. Os fortes,  por  cham-los    responsabilidade
pelos mais fracos, e os fracos, por instig-los a  sair  desta  situao
pelas suas prprias foras.

A  inteno  ltima  de  Paulo  talvez  fosse  fazer  perceber  que  uma
comunidade que consegue viver assim, com as diferentes partes convivendo
como um organismo, partes fortes e partes  aparentemente  frgeis,  cada
uma contribuindo dentro de sua capacidade, conseguindo se  complementar;
se conseguir viver assim, esta comunidade aprende a  dividir  a  dor,  a
honra e o regozijo. No sendo mais necessrio que  uns  sofram  sozinhos
enquanto outros se alegram, que uns sejam marginalizados enquanto outros
abusam
        do seu poder. Como corpo de Cristo,  tudo  cooperaria  para  uma
vida plena para todos, dentro da diversidade. Pois, para Deus, tanto  os
aparentemente mais fracos, quanto os mais fortes so importantes e todos
tm uma funao. Este texto de Paulo pode ajudar as comunidades  de  hoje
no tocante  variedade de pessoas que a completam. Est claro que  todas
as pessoas, por mais atingidas que  estejam,  seja  por  uma  doena  ou
deficincia, tm seu espao garantido na comunidade de diversidades, no
s como membro e dependente, que precisa receber ajuda e com  o  qual  a
comunidade  pode  treinar  sua  compaixo  e  solidariedade,  mas   como
individuo que tambm tem uma contribuio a dar. A partir do momento  em
que a comunidade entender a diversidade como uma constante interao  de
suas partes, no considerar mais estes membros de aparncia frgil como
menos  necessitados  de  sua  caridade,  mas  entrar  no  exerccio  da
alteridade, "identificando-se com eles  de  tal  forma  que  j  no  os
consideraro estranhos e por isso  suscetveis  de  serem  ignorados  ou
menosprezadOs".

Na pregao sobre este texto de Corntios,  comum ouvir dizer  que,  se
um membro deste corpo falha, torna-se um corpo "aleijado",  no  havendo
mais possibilidade de harmonia e bom funcionamento, deixando  de  ser  o
corpo de Cristo. Mais uma vez a deficincia   caracterizada  como  algo
ruim, e imperfeito, indesejado em seu meio, vinculado    no-realizao
do desejo de Deus. Os pregadores esquecem-se de que um corpo  "aleijado"
tambm  tem  condies  de  participar  e  de  dar  suas  contribuies.
Esquecem-se de que as outras partes da comunidade  podem  cooperar  para
sua participao.

O prprio Paulo no entendia assim, tanto  que  no  deu  o  exemplo  de
nenhum "aleijo"  para  dizer  o  que  acontece  quando  uma  parte  no
funciona. Ele prprio valorizava as pessoas aparentemente mais fracas  e
no as comparava ao falho e no-desejado  por  Deus.  Usou  a  expresso
"membros que parecem ser mais fracos". Em  momento  algum,  taxou-os  de
serem , verdadeiramente mais fracos, pois provavelmente experimentou  na
prpria pele o que era ter uma aparncia que no ostentava e nem impunha
respeito (2Corntios 12.7-10). Ele sabia que o aparentemente fraco  pode
ser muito forte e ter aptides como qualquer  outra  pessoa,  porque  "o
poder se aperfeioa na fraqueza" (2 Corintios  12.9).  A  aparncia  das
pessoas no  necessariamente sua condio, "sua  limitao  no    seu
limite" .

A  mdia  no  contexto  atual  latino-americano  (salvo  algumas  poucas
excees) acostuma as pessoas a no  esperarem  muito  de  quem  tem  na
"aparncia frgil" (leia-se com deficincia). No  entanto,  sabe-se  que
estas se pessoas tm dons e potencialidades. Quando h  uma  parte  mais
fragilizada do corpo, pode-se observar biologicamente que outras  partes
se  desenvolvem  muito  mais  (vejam-se  os  braos  desenvolvidos    de
cadeirantes ou ento a audio de um cego e  assim  por  diante),  ficam
mais fortes, sensveis, eficazes e funcionais para poder  conservar  sua
parte mais frgil. A prpria fragilidade gera no corpo um  mecanismo  de
sustentao. Da mesma forma, num corpo- comunidade, as diferentes partes
se complementam tenazmente.

A diversidade de pessoas com suas variaes, possibilidades  e  limites,
desemboca obrigatoriamente na diversidade de servio que uma  comunidade
eclesial pode prestarpara seus  membros  e  para  fora  de  seus  muros:
servio de acolhimento, de escuta, de aconselhamento, de  cura  integral
atravs de relacionamentos interpessoais.  Pessoas  distintas  tm  dons
distintos e isto enriquece uma comunidade, o que remete a uma comunidade
teraputica, que  o terceiro fundamento terico deste trabalho.

Nesta comunidade, as pessoas respeitam os limites de cada um e descobrem
as potencialidades  que,  de  forma  embrionria,  esto  presentes  nas
pessoas. Elas podem renascer para uma vida com novo sentido, baseadas no
amor interpessoal que vo experimentando na comunidade e no amor de Deus
que tambm vai se tornando uma realidade testemunhada. A morte de  Jesus
Cristo em favor de muitos no permite que uma  comunidade  esconda  seus
conflitos e diferenas. Em vez disso, a comunidade de Cristo  um  lugar
de  unidade,  onde  estes  conflitos  e  diferenas  so  amparados    e
denunciados,  para  acontecer  uma  convivncia  mais  transparente    e
acolhedora.


O sentido de "curar-se"

Cabe aqui esclarecer o sentido subjacente  ao  verbo  "curar",  que  vem
perpassando  toda  a  argumentao.  No    usado   no    sentido    de
desaparecimento de todos os sintomas de uma doena ou das  deficincias.
Curado no    somente  quem  volta  a  andar,  falar  e  ver,  ou  quem
milagrosamente viu-se livre  de  uma  doena  incurvel.  H  uma  outra
dimenso de sentir-se curado. Ched Myers, em seu livro  O  Evangelho  de
So Marcos, percebe bem  a  diferena  de  compreenso  de  cura  quando
declara:

Existem muitos hoje que simplesmente no acreditam  que  sua  libertao
depende de serem capazes de ouvir, falar ou andar. Eles insistem no  seu
direito de viverem vida plenamente humana e "integra" na  sociedade  que
continua a defini-los como "deficientes" apenas porque so diferentes.

Apossibilidade  de  ser  curado,  como  foi  no  tempo  de  Jesus  (sair
saltitando aps um encontro com ele, voltar a ver, ouvir  ou  falar),  
remota. Seria muito doloroso se as pessoas com  alguma  deficincia  no
pudessem sentir-se tambm ntegras, s porque seu corpo  imperfeito; se
no pudessem se sentir amadas e tambm participantes do plano  que  Deus
tem para este mundo, s porque tm algo diferente em seus corpos.  Seria
aviltante e funesto descartar as pessoas com corpo  "imperfeito"  (acaso
existam corpos inteiramente perfeitos) da salvao de Deus. "A  salvao
de Deus  tambm, sem a cura  humana,  a  salvao  completa  de  Deus."
Ulrich Bach, telogo, paraplgico, afirma que ao curar, Jesus no estava
dando foras para as pessoas serem humanas. Este dom elas tinham, apesar
de portarem uma deficincia. Com a cura, Jesus dava s fora para  voltar
a  andar,  enxergar,  ouvir  ou  falar.  Ele  tambm  acreditava  que  
necessrio fazer uma diferenciao entre o curar  de  Jesus  e  expulsar
demnios,  pois  neste  ltimo,  Jesus  teria  que  presentear,  aps  a
expulso, a fora para ser ser humano.  Isto  no  era  necessrio  para
pessoas que ele curava de um mal fsico. Pode-se, aqui, fazer uma  crti
ao autor, sugerindo que ambas as curas serviam para interceptar o fsico
ou mental. Porm, todas as pessoas que vinham em busca de cura tinham em
si o dom inerente de serem seres humanos, criaturas  de  Deus.  Todavia,
pode-se concordar com o autor quando afirma:

Cabe ao no curado, para uma honesta relao consigo mesmo  e  com  suas
circunstncias de vida, que ele no identifique "fora para ser  humano"
com "sade". Na "arena", l onde a verdadeira vida ocorre, uma definio
destas poderia s atrapalhar e prejudicar (...) Se "l onde  averdadeira
vida ocorre" as pessoas pressupuserem que h fora para ser  ser  humano
em algum que tem sade, se somente a sade e a no-deficincia no corpo
forem os critrios para se compreender  o  humano  como  ntegro,  estas
compreenses  realmente  s  viriam  a    "prejudicar"    as    relaes
interpessoais,  reforando  o  estigma  que  recai  sobre  pessoas   com
deficincia. A doena e a deficincia, bem como a sua o  integral,  isto
, sua aceitao e a possibilidade de viver  integrada  (s  remoo  dos
sintomas e das seqelas), devem fazer  parte  da  definio  de  humano,
assim como a sua capacidade de errar e acertar, de pecar e  perdoar,  de
viver e morrer.

Ser curado, no sentido de eliminao da doena e  da  deficincia,  pode
ser critrio para se considerar  uma  pessoa  integral  e  libertada,  p
tambm com a deficincia e todas as limitaes que vm  na  sua  esteira
causa do mundo incapacitante  em  que  se  vive,  as  pessoas  devem  po
considerar-Se ntegras, capazes de ter umavida satisfatria, em busca de
mais plena (sem privilgios, nem marginalizao). A cura, no sentido  de
viver com a deficincia e se sentir integral com o corpo que  tem,    o
ato de libertao. O processo de curar-se significa restaurar as  foras
do corpo doente e com seqelas, para  poder  reintegrar-Se  ao  ambiente
familiar e da comunidade. A cura completa, no  sentido  de  salvao  de
Deus, tambem 00 sem o desaparecimento da deficincia. O corpo imperfeito
integral, com seus limites e capacidades, est incluido  no  projeto  de
Deus. Ele espera das pessoas  que  tm  uma  deficincia  tambm  a  sua
colaborao para a transformao da realidade, espera  que  elas  possam
viver felizes, tornando-se parte integrante do corpo de Cristo, onde uns
e outros aprendem a dar e  receber.  Por  isso  a  comunidade  crist  
comunidade de desiguais que j no experimentam suas diferenas como uma
ameaa,  mas  sim  como  um  enriquecimento  recproco.  Tais  tipos  de
comunidades constituem a configurao social viva da  justificaco  pela
graa.

Lucas 13.10-17

Neste texto bblico, encontra-se a histria de uma mulher  que  tem  uma
encurvatura na coluna h dezoito anos devido a  uma  cifoescoliose.  Por
ter contrado esta doena em idade na qual as mulheres da poca casavam,
e por estar em constante estado de impureza, provavelmente  esta  mulher
nunca se casou. Era s, no tinha quem a representasse socialmente,  nao
tinha quem interviesse por ela.

Cheia de dores, ela entra na sinagoga. Provavelmente, ouviu falar que  o
Jesus que curava estava ali. Esta foi sua nica  iniciativa.  Em  outros
textos de cura, so as pessoas com deficincia que tomam a iniciativa de
pedir o milagre. Elas vo em direo a Jesus, gritam seu nome, entram em
dilogo com ele, cara a cara. Jesus pergunta-lhes  o  que  querem,  elas
respondem, e ento se d a cura atravs de um gesto de Jesus.

Esta mulher estava aqum at das outras pessoas com deficincia. Ela no
viu Jesus, porque com a encurvatura  mais fcil olhar para baixo,  pois
di menos. Esta  mulher "tem o olhar sempre para baixo e nunca na altura
dos olhos dos outros". Isto tambm gera uma relao de inferioridade com
as outras pessoas. Ela entrou  na  sinagoga  e,  antes  de  verJesus,  
percebida por ele. Jesus chama-a. Impulsionada por dezoito anos de dor e
marginalizao, ela atravessa a sinagoga, local permitido  somente  para
homens perfeitos, e vai em direo a Jesus.

Ela sabe que est fazendo algo imprprio, mas no desiste, pois  recebeu
um chamado muito forte. Jesus no lhe pergunta nada, pois sua coragem de
ir em frente demonstra a sua enorme vontade de ser  curada.  Impondo-lhe
as mos, ele  a  cura.  Endireitada,  sai  dando  glrias  a  Deus  pela
libertao da dor e por poder reiniciar nova vida, agora ombro  a  ombro
com as outras pessoas e com olhos nos olhos.

Aconversa que se segue entre Jesus e os seus adversrios traz o  aspecto
que se quer salientar: Jesus nomeia a mulher encurvada  como  "filha  de
Abrao". Nenhuma mulher na Bblia, at aquele  momento,  havia  recebido
este ttulo.22 Isto significa que  uma  mulher  considerada  impura  por
causa de uma deficincia  colocada no centro  de    um  ato  e  de  uma
discusso de Jesus e apontada como irm daqueles homens  perfeitos,  que
achavam que somente a eles  pertencia  o  direito  de  serem  filhos  de
Abrao,   herdeiros  das  bnos  prometidas  (bno,  descendncia  e
terras).

Para aqueles homens, a mulher encurvada valia menos do que um boi ou  um
burro (Lucas 13.15-16), pois consideravam estes animais necessitados  de
gua no sbado, mas no entendiam a mulher como merecedora de  uma  cura
no        sbado.        Porque,              num                sbado,
 frente a uma multido numa sinagoga, Jesus dirige-se a uma mulher,  que
no era qualquer mulher aceitvel da poca, mulher com deficincia?  Por
que a cura e, mais ainda a chama "Filha de Abrao"?

Jesus inverte aqui uma escala de valores h  muito  arraigada.  Tira  da
vida  uma  mulher  com  deficincia  e  a  coloca  entre   as    pessoas
cconsideradas eleitas. Logo uma mulher com deficincia! "Jesus  chama  a
deficincia  frente como filha de Abrao  para  chamar  a  ateno  dos
poderosos e do povo em geral de que ela tem valor em  si  mesma,  que  e
parte integrante da vontade de Deus". Com isso, ele demonstra a  vontade
de Deus que   ter  todas  as  suas  filhas  e  filhos  participando  da
correnteza  principal  da    vida,    ningum    marginalizado,    todos
potencialmente capazes de realizar a obra para  a  qual  foram  criados:
promover e experimentar vida satisfatria e o seu amor.  Com  este  ato,
Jesus                             ergue                                a
 tampa da opresso, libertando a camada de pessoas  que  se  encontravam
aprisionadas, cerceadas de gozar a vida, numa  crislida  que  precisava
ser rompida.

Remetendo este texto da mulher encurvada  para  dentro  das  comunidades
eclesiais de hoje, descobre-se que ele ensina a investir em  pessoas  de
"aparnci mais  frgil",  como  pessoas  que  tm  os  mesmos  direitos,
possibilidades de participao e com dons para contribuir  nos  servios
da comunidade. As pessoas com deficincia esto entre as outras  pessoas
da comunidade, formando uma grande ciranda de diversidades, necessitando
dos efeitos dos relacionamentos interpessoais baseados em  aceitao,  o
que, nos remete, novamente,   comunidade  teraputica  e  ao  texto  de
Paulo.

Esta mulher encurvada pode servir de estmulo  para  a  participao  de
quem  possue  alguma  deficincia  que,  porvergonha,  desvalorizao  e
preconceito, se fastam da vida da comunidade, no  imaginando  que  ali
poderia ser lugar de encontro consigo mesmas, com  outros  e  com  Deus,
numa relao restauradora. Tem-se a impresso de que  talvez  Jesus  nem
precisasse ter endireitado a mulher encurvada para realizar um movimento
de integrao das pessoas com deficincia naquela comunidade.

tivesse simplesmente encorajado a  atravessar  a  sinagoga,  se  tivesse
dirigido-lhe a palavra, se s a tivesse chamado dando-lhe um titulo  que
antes s pertencera a homens, dentro daquele discurso  integrativo,  no
seria necessrio cur-la, e ela teria todo  o  respaldo  para  voltar  e
viver uma vida nova, para reingressar na sociedade  da  poca  de  forma
ntegra, com a sua encurvatura.



Curando-a, Jess transforma-a em uma mulher "normal", que no  vai  mais
enfrentar as barreiras que outras pessoas  com  deficincia  tinham  que
enfrentar na poca. Essa cura desvia, assim, a ateno  e  a  fora  das
pessoas com deficincia para tentarem viver umavida digna. Desvia para a
expectativa de um milagre, que se sabe, no aconteceu com todos,  embora
tenha acontecido com muitos. Tira das outras  pessoas  com  deficincia,
que esto presentes naquela multido, a esperana de viverem como  corpo
que tm e serem, assim mesmo, valorizadas e amadas, para  coloc-las  na
situao de serem somente aceitas quando seus corpos forem perfeitos.

Pergunta-se novamente: Por que Jesus curou? Para acabar com a dor, com a
doena, com a figura desviante e anormal da mulher  encurvada.    assim
que a teologia tradicional tem respondido a esta questo:  para  mostrar
com seu gesto um pequeno sinal de como ser  o  Reino  de  Deusvindouro,
onde no haver  mais  dor,  nem  deficincia,  nem  corpos  imperfeitos
(Apocalipse 2 1.1-5). Esta resposta, no entanto, no basta para um fazer
teolgico  que  considera  as  pessoas  com  deficincia  como   pessoas
integrais, com seus corpos imperfeitos e cheios de dores e seqelas.

As causas das deficincias precisam continuar sendo  combatidas,  mas  a
deficincia dada, instalada para sempre em um corpo humano no pode  ser
considerada como impossibilitadora de vida integral.

 difcil crer num Reino de Deus,  onde  no  haver  mais  pessoas  com
marcas em seus corpos. Se nesta sociedade injusta em que se vive  tambm
no h espao para os diferentes, ento onde ser o espao de  aceitao
da diversidade e do corpo imperfeito integral se no for  no  Reino?  Se
para fazer parte  do  Reino  de  Deus  todos  devem  ser  restaurados  e
endireitados, sendo necessrio ter um corpo perfeito e, ainda por  cima,
indelvel, continuar o showglobal de corpos belos e perfeitos a que  se
assiste aqui nesta realidade.

Comparando-se a atitude de Jesus com as mulheres  atitude de Jesus  com
as pessoas que pediam cura, pode-se perceber que Jesus  no  transformou
as mulheres em homens, operando assim um milagre para  facilitar  a  sua
integrao, mas simplesmente teve uma atitude que fortaleceu,  valorizou
e impulsionou as  mulheres    plena  participao.  No  se  quer  aqui
questionar a atitude de Jesus, mas confrontar as idias  teolgicas  que
lem a cura de uma forma que j no serve ao atual  processo  pelo  qual
vm  passando  as  pessoas  com  deficincia,  mas  que  dificultam  sua
participao,  se  so  pessoas  que  se  aceitam  e  se  amam  com  sua
deficincia. Num novo fazer teolgico,  que  considere  as  pessoas  com
corpos imperfeitos  integrais,  isto  ,  corpos  com  deficincia,  mas
aceitos integralmente, que no esto  espera da sua transformao,  que
esto num crescente senso de autonomia, as velhas  respostas  teolgicas
so preteridas em funo de  novas  dvidas.  Se  a  deficincia    uma
realidade com a qual se aprendeu a conviver  bem  e  a  ser  feliz  como
qualquer outra limitao do ser,




 tornando-se uma caracterstica da pessoa, por que no  pode  permanecer
assim no Reino?

Se no forem as diferenas existentes entre os  seres  humanos  (pessoas
doentes e saudveis, com deficincia  e  sem  deficincia,  com  medo  e
corajosas ou alentadoras, pessoas sozinhas e pessoas que fazem uma ponte
deste isolamento, pessoas com fome e pessoas que alimentam, pessoas  sem
rumo  e  pessoas  que  acolhem),  o  que  fomentar  o   exerccio    da
solidariedade
 auxlio mtuo e a convivncia pacifica da diversidade no Reino de Deus?

No Reino de Deus no haver dor nem  sofrimento  como  em  uma  ilha  da
fantasia ou a dor e o sofrimento existiro, sim, mas com a possibilidade
de serem acudidos prontamente e transformados? O Reino ser  constitudo
de pessoas sem problemas e que se bastam ou de  pessoas  que  intercedem
umas pelas outras?

Se  possvel responder a todas estas perguntas, surge  ento  uma  nova
concepo de corpo de Cristo, na qual a to desejada diversidade de Deus
tem espao, na qual a deficincia no ser encarada como necessitada  de
restaurao, mas como um acontecimento na imensa variedade da criao de
Deus. A deficincia precisa  ser  evitada.  Porm,  quando  isso  no  
possvel, a deficincia precisa ser aceita, da melhor  forma  precisa-se
adaptar novas maneiras  de  sobrevivncia  e  rejeitar  vigorosamente  a
incapacitao imposta a ela.

Quando estas perguntas  forem  respondidas,  podero  surgir  tambm  as
dimenses da imagem de Deus que se aprendeu a amar e respeitar e que por
mais que se escreva e fale  sobre  ele,  jamais  ser  descrito  em  sua
totalidade.

Quem, no entanto, acredita num Deus que no precisa curar (que no  cura
com regularidade) - quem acredita em um Deus que est enlouquecido  pela
fraqueza, que manda seu filho  cruz, que deixa seu amado  povo  vagando
durante 40 anos pelo deserto; quem tem coragem para a cana dobrada,  no
porque Deus vai  transform-la  num  mastro,  mas  porque  ele  no  vai
efetivamente quebr-la; quem tem a coragem para o pavio que fumega,  no
porque Deus far disso um fogo de Pscoa,  mas  porque  ele  no  o  vai
apagar com um sopro - quem tem coragem para este Deus fraco  (para  este
Deus que  denominado "Deus crucificado"), este ser considerado, em uma
sociedade embevecida no  conceito  de  sade,  provavelmente,  como  uma
pessoa esquisita.

24

Com as reflexes sobre estes dois textos bblicos, partindo de um  ponto
de vista diferenciado, pretendeu-se contribuir para uma nova leitura  do
gelho, e assim, tornar a teologia mais inclusiva.



O grupo como um cadinho de transformao

A imagem de um cadinho parece prpria para descrever o que ocorre em  um
grupo.  uma figura que se presta a imaginaes. Num cadinho misturam-se
elementos que,  antes  de  se  encontrar,  tinham  suas  caractersticas
prprias, suas especificidades bem ntidas. Ao se misturar os  distintos
elementos, mesclam-se diferentes  aspectos  simultaneamente,  formam  um
novo elemento, composto pelas propriedades de cada um e saem diferentes,
transformados.

Ogrupo  um fenmeno que vem sendo estudado dentro da Psicologia Social,
que, por sua vez, estuda o fenmeno da interao humana.  A  psicologia,
por muito tempo, debruou-se sobre o ser humano  como  individuo  a  ser
compreendido  dentro  de  seu  prprio  universo  pessoal.  Recentemente
desenvolveu o ramo da Psicologia Social,  que  quer  compreender  o  ser
humano nas suas relaes interpessoais:

nossas percepes dos outros, nossas motivaes relacionadas aos outros,
e ainda nossas atitudes, comportamentos pr-sociais (altrusmo, amor)  e
anti- sociais (violncia,  agresso),  esteretipos  e  preconceitos,  o
comportamento grupal e os fenmenos que emergem  no  grupo  e,  uma  vez
adquirido  o  conhecimento  decorrente  deste   estudo,    aplica    tal
conhecimento s situaes em que duas ou mais pessoas interagem.

25

No  somente a Psicologia que vem se  beneficiando  e  fazendo  uso  de
atividades em grupo. As igrejas tambm apiam-se em muitas atividades de
grupo. No entanto, a Psicologiatem  se  enriquecido  muito  mais  com  o
estudo  dos  grupos  e,  portabela,  enriquecido  aTeologia  (e   outras
cincias), que pode e deve fazer uso desta instruo.

ATeologia busca recursos na Psicologia para aumentar sua  capacidade  de
ajudar e  compreender  as  pessoas,  para  assisti-las  melhor  em  suas
necessidades. Integrar recursos provenientes  da  Psicologia  (e  outras
reas)  uma forma interdisciplinar  de  tentar  diminuir  o  sofrimento
humano. A Teologia pode iluminar a Psicologia, no sentido de entender  o
ser humano como criatura mais  abrangente  do  que  pessoa  humana,  com
transcendncia, como filhos e filhas de Deus, amadas  e  para  as  quais
teceu  planos.    necessrio,  assim,  uma  postura  aberta  tanto   da
Psicologia quanto da Teologia, para aprenderem uma da outra, mas  tambm
para se confrontarem.

O aconselhamento em grupo , ao mesmo tempo,  psicolgico  e  teolgico.
Psicolgico quando a relao de  ajuda  se  apia  nos  conhecimentos  e
mtodos da Psicologia, e teolgico quando se sabe que  Deus  que  media
as relaes no grupo, seja entre os participantes ou entre participantes
e aconselhadora, fazendo-se presente atravs do Esprito Santo, com  sua
fora animadora e curadora.


67

No  possvel usar a Psicologia de  forma  clandestina,  mas  encar-la
como um sistema que descreve o ser humano sob aspectos  especficos,  no
intuito de  ajud-lo.  Tanto  a  Psicologia  quanto  a  Teologia  querem
libertar as pessoas para viverem de forma mais integral, por isso  devem
continuar o dilogo e estudar suas contradies, no perdendo de vista o
objetivo ltimo nho  que    o  bem-estar  do  ser  humano.  Teologia  e
Psicologia (bem como outras cincias: Medicina, Filosofia, Engenharia...
e  outras  que  ainda  podero  surgir)  precisam  compreender-se   como
parceiras que se complementam na busca de solues para uma  vida  cheia
de sentido para os seres humanos, pois so todas instrumentos de Deus na
estruturao de seu Reino. Como afirma Ellens:

.. vejo a teologia e  a  psicologia  como  perspectivas  ou  pontos  de
referncia diferentes, com diferentes universos de discurso, lidando com
o mesmo assunto.26 Seria impossvel articular  aconselhamento  em  grupo
com pessoas a anos portadoras de deficincia sem a ajuda  da  Psicologia
que fornece seus conhecimentos sobre a intrincada personalidade humana e
suas inter-relaes, j  que  o  aconselhamento  acontece  num  ambiente
social concreto.  justamente no exerccio  do  aconselhamento  pastoral
que a Psicologia pode ajudar a entender  melhor  o  ser  humano  e  suas
crises,  mesmo  tendo  essa  relao  com  o  transcendente,  pois,   no
dia-a-dia, no h separao entre a experincia com Deus e a experincia
pessoal com seus conflitos e desejos. A  f  das  pessoas  no  acontece
desvinculada  das  suas  prprias  manifestaes  psicolgicas,  nem  os
aspectos psicolgicos se do distanciados da estrutura espiritual delas.
 necessrio frisar, neste momento, que outro  tipo  de  aconselhamento,
to importante quanto o grupal,  o aconselhamento individual, inclusive
muito mais exercitado atualmente nas  comunidades  eclesiais  do  que  o
aconselhamento em grupos. O aconselhamento individual , sem dvida,  um
recurso muito slido para ajudar as pessoas com  deficincia  a  acessar
suas  capacidades  na  soluo  dos  seus  problemas  e  a  entrar   num
relacionamento com Deus. No aconselhamento individual, as pessoas  podem
ter mais facilidade de  colocar  material  ntimo,  que  no  colocariam
diante  de  um  grupo  maior  por  se  sentirem    constrangidas.    Num
aconselhamento entre duas pessoas soment, aconselhadora e  aconselhando,
no    necessrio  formar  tantos  vnculos  para  haver  um  clima  de
confiana, s com a aconselhadora, e o processo de ajuda pode-se iniciar
mais rapidamente. Um grupo tem condies de efetuar esta  ajuda  tambm,
pois, tendo mais pessoas  com  a  mesma  dificuldade,  tem  tambm  mais
testemunhas de que uma transformao   possvel  e  mais  elementos  de
apoio e compreenso do que s a aconselhadora, a instilar esperana e  a
acolher  com  compaixo.  Acredita-se  que  estes    dois    tipos    de
aconselhamento, individual e em grupo, so complementares no  auxilio  a
quem passa por crises.

A importncia do grupo  reside  em  que  ele  possibilita  a  cura  e  a
reconciliao com um nmero maior de pessoas, numa comunidade  eclesial,
que  um contexto maior,  e que se prope a ser teraputica,  pois,  num
grupo que possui dificuldades  e  sofrimentos  semelhantes,  as  pessoas
descobrem  que  no  esto  sozinhas,  reforam-se,  compartilham   suas
preocupaes.

H autoridade no que  dizem,  porque  tm  experincia.  Encontram-se  e
percebem que o contato regular com a comunidade torna-as membros  de  um
grupo  maior,  passam  esperana  umas  para  as  outras,  fazem   novas
aprendizagens,  alm  do  que,    possvel,  como  no    aconselhamento
individual, a catarse, o autoconhecimento e o aprimoramento de  relaes
interpessoais e com Deus.

A existncia de uma variedade de tipos e tamanhos de grupos numa  igreja
local    um  recurso  incalculvel  para  realizar  seu  ministrio  de
crescimento, cura, servio e reconciliao. A vitalidade  espiritual  da
igreja local est diretamente relacionada com a sade dos  seus  grupos,
especialmente pequenos  grupos,  onde  a  "fome  do  corao"  tem  mais
condies de ser satisfeita.

27

Oaconselhamento em grupo , ento,  uma  oportunidade  de  transformao
devida, atravs de um processo em que os  relacionamentos  interpessoais
so a fora motriz para esta transformao em todos os setores  de  vida
dos participantes.

Um grupo, no sentido de grupo de aconselhamento,  mais do que a reunio
de algumas pessoas para resolveralgum problema. Um grupo passa a existir
quando as pessoas que o constituem mesclam suas  experincias  de  vida,
suas opinies e se envolvem, criando identidade.

O mundo significativo de cada um est, at  certo  ponto,  envolvido  no
outro. Existem fases definidas  e  previsveis  atravs  das  quais  uma
agregao de pessoas entra em processo de tornar-se um grupo  verdadeiro
 .

Segundo Clinebell, existem algumas vantagens em se organizarem grupos de
aconselhamento.

29

Uma delas seria a  de  que  uma  boa  quantidade  de  atendimentos,  que
atualmente ocorrem de forma individual nas comunidades, poderiam ocorrer
com maior eficincia em pequenos grupos.

Outra vantagem apontada  de que o tempo do pastor,  da  pastora  ou  de
quem  quer  que  esteja  realizando  este  trabalho,   ficaria    melhor
distribudo, de tal maneira que pudesse ajudar  mais  pessoas  em  menos
tempo, podendo administrar de forma ainda mais  frutfera  o  tempo  ali
economizado.

Receber  ajuda  atravs  de  ajuda  recproca  dos  participantes  e  da
aconselhadora seria uma terceira vantagem de um  aconselhamento  grupal.
Segundo Clinebell, seria uma forma de viver a recomendao do "levai  as
cargas uns dos outros", feita em Glatas 6.2. A quarta vantagem seria  a
de que grupos pequenos so  o  melhor  ambiente  para  o  aconselhamento
educativo a curto prazo.  A  quinta  seria  de  a  que  pequenos  grupos
poderiam ajudar pessoas que normalmente no  procurariam  aconselhamento
individual. A possibilidade de tratar, no grupo  de  aconselhamento,  de
sentimentos tU dolorosos e situaes de vida difceis  e  anteriores  ao
grupo, coloca as pessoas em contato  com  seus  sentimentos  e  emoes,
podendo acontecer a e catarse, que  uma forma de  aliviar  a  angstia,
removendo velhas emoes prejudiciais e tambm de aprender novas  formas
de encarar as situaes, num processo de amadurecimento. e, A funo dos
outros  membros  presentes,  neste  caso,    de  ouvir   profundamente,
estimulando a catarse, saber suportar a dor e o choro e ser  a  presena
restauradora que acolhe, entende, aceita ou exorta e  critica  (aqui  ja
aparece o contra-senso de uma pessoa ser aceita e  criticada,  ao  mesmo
tempo,  to,  num  aconselhamento  em  grupo),  tornando    concreta    a
reconciliao do t participante consigo mesmo,  com  os  outros  e  com
Deus. O grupo provoca em te cada participante suas  prprias  respostas,
auxiliando as pessoas na descoer berta de si mesmas, suas emoes,  seus
entraves e suas reais possibilidades na recuperao de  sua  humanidade.
Um grupo de aconselhamento  tambm  permite  a  reduo  do  medo  e  do
isolamento. Muitos medos precisam ser enfrentados, j que muitas  coisas
da no podem ser mudadas. O grupo pode  animar  alguns  participantes  a
enfrentarem  seus  medos,  mirando-se  no  exemplo  de    como    outros
enfrentaram. sa Descobrindo alguns fatores comuns  existentes  entre  os
membros do de grupo e como cada um lida com estes  fatores,    possvel
uma troca de
        experincias, um espelhamento de um membro  no  outro  e  tambm
comportamentos imitativos 30, como desafios, na busca de uma mudana  de
atitudes. de Aconselhamento atravs do grupo no  elimina  o  medo,  con
quanto este medo tenha causas reais, mas capacita para agentar o  medo,
respectivamente suas causas.  de  Outro  argumento  que  aponta  para  o
aconselhamento  grupal    ode  que  reunir  as  pessoas  que  tm   uma
deficincia , por si s, um ato teraputico, pois  vivem,  na  maioria,
muito ss e isoladas. O isolamento  superado  no  de  grupo  quando  um
membro descobre que no  o nico no mundo afligido de pela  deficincia
e por seu conseqente preconceito. As pessoas que passam do pelas mesmas
situaes so capazes de se ajudar muito mais do  que  aquelas  que  no
experienciaram  determinada  realidade,  pois  estas  no    compreendem
completamente o problema. Fonte  de  informaes  e  apoio  interpessoal
mtuo so outros elementos as que o grupo propicia quando h um objetivo
comum. No caso de um grupo de pessoas com deficincia, cada uma  informa
aos outros membros detalhes sobre sua  deficincia,  causas,  preveno,
diagnstico e  tratamento  ou  reabilitao.    medida  que  todos  vo
informando sobre as diferentes  deficincias,  o  grupo  adquire  muitos
conhecimentos novos e sente-se incentivado a buscar mais conhecimentos a
respeito do que ainda no est suficientemente esclarecido, por exemplo,
alguns diagnsticos que so imprecisos.

O apoio mtuo  conseqncia do investimento pessoal de cada  membro  em
se revelar, compartilhar intimidades, deixar de  lado  as  aparncias  e
falar de si e  do que realmente  sente,  pensa  e  sofre  sem  disfarces
(confessar com o corao). Quanto  mais  um  participante  do  grupo  se
revela, mais demonstra a confiana no grupo.

As pessoas se  revelam  num  grupo,    medida  que  confiam  no  sigilo
preestabelecido e no retorno que esperam obter de ajuda. Revelar-se  num
grupo equivale a abandonar  um local seguro para lanar-se  numacorrente
de possibilidades. Cada membro vai demonstrar de si no seu ritmo, quando
achar que o grupo  merecedor de ouvir tal intimidade,   resguardando  o
que achar necessrio no comunicar.  O  grupo  torna-se  depositrio  de
confiana e portador de  alguma  resposta  embrionria,  que  os  outros
participantes  tentaro construir.

Na comunidade eclesial, um pequeno grupo  capaz  de  fazer  perceber  a
diversidade dos seus membros que ali se encontram e interagem, criando a
oportunidade de quebrar   preconceitos  e  esteretipos.  Os  diferentes
grupos da comunidade (de idosos, de  jovens,  de  mulheres,  de  casais,
grupos de descasados, de pessoas com deficincia),  com  seus  objetivos
especficos,  esto    includos    no    mesmo    projeto    de    Deus
epodemdemonstrarcomunidade reunida que ela  rica em diversidades e que
precisa  atender  a  todas  as  necessidades  dos    diversos    grupos,
tornando-se, somente assim, teraputica.

Opequeno grupo ainda possibilita  comunidade o exercicio  da  diaconia,
quando faz perceber as necessidades concretas  de  seus  membros,  sejam
quais forem: de atendimento pessoal, de  infra-estrutura  na  comunidade
para sua participao, de transporte,  de  aquisio  de  materiais,  de
encaminhamento a servios pblicos.  Assim  a  comunidade  pode  servir,
buscando formas conjuntas de sanar estas necessidades.

Resumindo, a importncia de um grupo para seus participantes consiste em
experimentar a esperana e novas aprendizagens,  aprimorar  as  relaes
com outros (seja no prprio grupo,  na  famlia,  na  comunidade  ou  na
sociedade em geral), tratar sentimentos dolorosos (confisso) e aprender
novas formas de encarar a vida, aprender a ser  autntico  e  objeto  de
reconciliao atravs  de  Deus,  aprender  a  mobilizar  seus  prprios
recursos, reduzir medo e isolamento, ser fonte de  informaes  e  apoio
interpessoal, possibilitar a cura e a reconciliao consigo  mesmo,  com
outros e com Deus, resultando num processo de transformao pessoal e do
mundo ao seu redor.

Aconselhamento aqui, significa aquela ajuda necessria da qual  cada  um
em determinado momento de sua vida, seja de crise,  doena,  insegurana
quanto ao futuro, no pode prescindir para  seguir  adiante.  O  ato  de
aconselhar  muito antigo e pode acontecer de muitas formas: de  pais  e
mes para filhos, de mestre para alunos, de amiga para amiga, de pastora
para membro, de membro para membro, de mdico para  paciente,  de  anci
para jovem, de mulher para mmulher, enfim, de diversas formas, inclusive
da forma inversa   acima  arrolada.  No  entanto,  aqui,  refere-se  ao
aconselhamento pastoral que no cria dependncia e nem est  baseado  no
autoritarismo, mas na troca, na escuta, no encorajamento, na orientao,
na clarificao, na apresentao  de  informaes  e  talvez  sugestes,
mediado pela empatia, pela confiana e  pela  solidariedade.  No    um
aconselhamento que objetiva somente uma soluo momentnea da  situao,
sem, no entanto, perder esta de vista.  Objetiva  capacitar  as  pessoas
capacitadas a pr em funcionamento seus prprios recursos na  construo
de uma situao melhor, de uma mudana, no s pessoal,  mas  tambm  de
seu  contexto,  encarando  este  processo  como  uma  oportunidade    de
crescimebnto e resposta ao que Deus fez por elas, instigadas pela sua f
evanglica que prope uma sociedade humana, que aceita, ama, perdoa, tem
compaixo, busca a cura dos seus males, paraviver na integralidade.

Esta  sade  integral  inclui  todas    as    dimenses    humanas    de
relacionamentos: consigo mesmo, com a sua comunidade eclesial local, com
a sociedade,com o ambiente e com Deus.

O aconselhamento que busca ir  alm  do  sofrimento  individual  precisa
desvendar tambm as causas do sofrimento dentro da sua comunidade  e  na
sociedade como  tal,  alm  de  despertar  conscincia  solidria  e  um
profundo relacionamento com Deus, a fim  de  que  as  pessoas  tornem-se
agentes de transformao, contribuindo para o seu crescimento  e  tambm
dos outros. Segundo Lothar Hoch, o aconselhamento  pastoral  na  Amrica
Latina "precisa estar afinado com os objetivos amplos de  libertao  da
sociedade e  da prpria Igreja. Ele se alia a essa luta  maior,  mas  d
uma contribuio dentro da sua competncia especfica".

34

Um aconselhamento profcuo totalmente desligado de um contexto,  de  uma
realidade, no  possvel. A comunidade eclesial , por  excelncia,  um
local onde pode ocorrer este acontecimento restaurador e nutricional.  A
comunidade    teraputica  quando  leva  em  considerao  que  o  mais
importante de tudo so as "necessidades profundas das pessoas",

35

 necessidade de sade mental  e  fsica,  necessidade  de  trabalho,  de
relacionamentos  satisfatrios,  necessidade  de  se  saber   amado    e
valorizado, de sua opinio ter crdito para as pessoas com quem convive,
necessidade de um relacionamento com Deus, que confi

A comunidade teraputica precisa ter uma viso global de  seus  membros,
de cada pessoa  como  potencialmente  detentora  de  uma  sensibilidade,
dramas, opresses e  contribuies  a  dar.  Ela  vai  se  revelar  como
comunidade quando se comprometer a ter um relacionamento  autntico  com
todas estas pessoas, nas suas especificidades, com diferentes   gneros,
raas e necessidades, integrando as diversidades.

 importante esclarecer que por comunidade teraputica  no  se  entende
uma instituio para onde indivduos so encaminhados para fazerem algum
tipo de terapia. A  comunidade teraputica  eclesial  e  visa  oferecer
ajuda s pessoas que esto ao  seu  redor,  atravs  de  relacionamentos
interpessoais que lhes proporcionem bem-estar,  ajustamento e integrao
com suas doenas e deficincias, alm de estabelecer  um  relacionamento
mais integral com Deus.

AIgreja tornar seu ministrio de aconselhamento  valioso  quando  criar
seus  servios  a  partir  das  necessidades  profundas  das    pessoas,
proporcionando cura, crescimento  e reconciliao, transformando-se numa
comunidade teraputica, que, ao encontrar pessoas atribuladas, cura-as e
capacita-as a manejar suas dificuldades dentro de  suas  circunstncias,
tornando-as ntegras, capazes de um relacionamento com Deus e com as



outras pessoas no seu  contexto,  que  potencialmente  tambm  pode  ser
transformado.

Para muitas pessoas que fazem parte de uma  comunidade,  a  mensagem  do
Evangelho    somente  matria  que  um  dia  foi  estudada  no   Ensino
Confirmatrio ou so palavras  tradicionais,  ouvidas  e  guardadas  sem
grandes  significados.  Atravs  de    relacionamentos    interpessoais,
proporcionados  numa  comunidade,  que  possibilitem  a  aceitao,    a
compreenso  de  sofrimentos,  a  confisso  sem  estranhamento,   estes
princpios teolgicos podem tornar-se uma realidade  cheia  de  sentido,
uma experincia curativa e restauradora.

A polmica e o aconselhamento podem ser formas de comunicar o  Evangelho
na medida  em  [sic]  que  ajudam  essas  pessoas  a  abrir-se  para  um
relacionamento  curativo.  Enquanto  no  tiverem  experimentado    amor
imerecido e aceitador num relacionamento humano, o  Evangelho  no  pode
tornar- se uma realidade viva para elas.

36

Para Clinebell, 37

uma comunidade eclesial  teraputica quando v sua misso no curar,  no
libertar, no ajudar a crescer e potencializaras pessoas que tem um pacto
com Deus, que vivem como um corpo de Cristo com cuidados mtuos, no qual
cada parte tem seus dons, capacidades e limites e  na  qual  o  Esprito
Santo pode atuar de  forma criativa.  muito mais do  que  um  jeito  de
confessar sua f, de realizar um rito  ou  de  defenderverdades:    uma
forma de encarar a vida sob o aspecto do amor  a si mesmas, aos  outros,
com os quais mantm um relacionamento interpessoal, e amor a Deus,  como
resposta ao seu amor incondicional e libertador.

 fator decisivo para uma  comunidade  teraputica  estabelecer  que  as
relaes interpessoais entre os membros da comunidade tenham  qualidade.
 experimentando concretamente  a aceitao de si pelos outros, com seus
defeitos  e  qualidades,  bem  como  limites,  experimentando  o  afeto,
atransparncia  nas  relaes,  a  sinceridade,  a  honestidade,       a
valorizao, a exortao e o conselho de outros membros e participantes,
que o indivduo passar a ter tambm uma relao  mais  perceptvel  com
Deus, vivida, partilhada  com outros e no somente no  seu  recolhimento
ou no culto, mas uma realidade experimentada  entre  seres  humanos,  em
atividades grupais e comunitrias.

Acomunidade eclesial teraputica estvoltada para a  sade  integral  de
seus participantes, para suas  necessidades  vitais,  sejam  elas  quais
forem:

informaes, visitao na doena e  luto,  esclarecimento  e  estudo  de
verdades  bblicas,  discusso  de  temas,  desabafos   no    sofrimento
duradouro, apoio em crise e perdas   de  qualquer  espcie,  tambm  nas
questes sociais que oprimem (trabalho, direitos, liberdade poltica).

Quando h espao e estimulo entre os  participantes  de  uma  comunidade
eclesial para transformaes pessoais, para sair de uma situao  antiga
que oprimia para uma  nova situao  que  alivia  e  tem  novo  sentido,
quando




caem  as  mscaras  e  desvendam-se  os  conflitos,  recuperando-se    a
humanidade, a se constitui uma comunidade  teraputica,  onde  Deus  se
revela nos outros, como parceiros  e parceiras de  ajuda  para  qualquer
necessidade, sofrimento e perdo, promovendo assim  o  acontecimento  da
reconciliao consigo, com outros e com Deus.

Ser Igreja para Clinebell  ser

a comunidade em que oamordeDeus torna-se uma realidade experimentada  em
relacionamentos. Desta forma,  o  aconselhamento    um  instrumento  de
continua  renovao  atravs    de  reconciliao,  contribuindo    para
curarnossa alienao em relao a ns mesmas e nossas famlias, a outros
membros da  igreja,  s  pessoas  que  esto  fora  da  igreja  e  a  um
relacionamento avivador e crescente com Deus

38

Onde existe a viso de incluir todas as  "extravagncias  de  Deus",  ou
seja, gente de toda espcie, pessoas nas suas especificidades e  jeitos,
e onde se revela o compromisso de manter relacionamentos autnticos  com
todas as pessoas, ali existe comunidade teraputica.

Somente o estabelecimento de uma comunidade de vida entre paralticos  e
no-paralticos, entre sos e doentes,  entre  jovens  e  velhos,  entre
homens e mulheres, poder  superar  o  isolamento  social  da  sociedade
agregadora atual, porque com essa comunidade  de  vida  no  somente  se
curam os sintomas, mas se ataca o mal social pela sua  prpria raiz

Muitas vezes, a cura se d por causa do ato da partilha em grupo:

partilhar problemas, sofrimentos, medos, raivas,  angstias  e  segredos
guardados  no  ntimo,  que,  aos  poucos,  vo  se  tornando    emoes
corrosivas. Partilhar sentimentos  libera de grande presso e  torna  as
pessoas mais aliviadas e livres para decidir como continuar.

O  compartilhar  e  o  curar  so  dois  aspectos  bem  interligados  na
comunidade teraputica e acredita-se que aconteam pela  fora  vigorosa
do Esprito Santo que perturba e desinstala as pessoas para  reordenarem
e ressignificarem  suas  vidas.  Tudo  aquilo  que  sufoca  e  impede  o
desenvolvimento das possibilidades que Deus deseja para  seus  filhos  e
filhas reunidos em comunidade precisa ser enfrentado  numa  participao
comprometida e edificadora.

Sendo assim, uma comunidade eclesial que exercita a quebra  de  tabus  e
esteretipos e se prope a mitig-los, conhecendo mais  de  perto  e  de
forma solidria as diferentes  realidades que existem  de  membros  para
membros, e que quebra  seus  preconceitos  estabelecidos  por  falta  de
contatos com os diferentes problemas e dificuldades das   pessoas,  est
preparada para agir tambm fora de seus muros, informando, aceitando  os
que antes tratava com estranheza, enfim, transformando o contexto maior,
baseada  na sua experincia ntima e convincente, feita  na  comunidade,
de aceitar-se mutuamente dentro da diversidade de Deus. Pois sempre  que
uma comunidade resolve  enfrentar  de  forma  corajosa  os  problemas  e
conflitos acaba por transformar o mundo ao seu redor.

Acomunidade  teraputicav,  assim,  o  ser  humano  como  resultado  da
interao de muitas dimenses paravivenciar um pleno desenvolvimento  de
seus potenciais, dados por  Deus, para uma integrao tambm  plena  com
todos.  Ela  precisa  entender-se  como  uma  fora  dinmica  entre   a
diversidade que existe  nos  seus  membros  com  suas  necessidades    e
caractersticas especificas e a sua unidade no servio de acolher, curar
e testemunhar.


Concluso Encerra-se aqui a triada de sustentao  terica,    qual  se
recorreu para embasar o aconselhamento em  grupo  com  pessoas  que  tm
alguma  deficincia.  No  decorrer  da  argumentao,  fica   facilmente
perceptvel que cada  suporte  terico  (o  argumento  bblico-teolgico
baseado cml Corntios 12.20- 26  e  em  Lucas  13.10-17,  o  grupo  como
cadinho de transformao e a comunidade eclesial teraputica)   per  si
um pilar slido e de tal forma  abrangente  que  serve  para  embasar  o
aconselhamento para as  pessoas com deficincia. No entanto, eles juntos
formam uma  trada  onde  a  interseco  entre  eles  possui  elementos
simultneos,  permitindo  um  acontecimento  to  integrativo,       to
teraputico, que d origem e estabelece um  lastro  de  sustentao,  no
qual  possvel sarar e estimular profundas mudanas na vida, nos sonhos
e desejos destas  pessoas.

Uma comunidade eclesial  que  convive  com  as  pessoas  que  consideram
integral  um  corpo  com  imperfeies,  que  exercita  e  estimula    o
crescimento, a libertao e o elacionamento  com os outros e coi  Deus,
desemboca necessariamente numa comunidade teraputica, onde todos passam
por um aprendizado que enriquece e amplia a criao de  Deus,    que  se
espalha at atingir outros contextos.

Ainterdisciplinaridade entre Teologia e Psicologia enriquece o  trabalho
de aconselhamento com pessoas portadoras de  deficincia,  libertando-as
para viver de uma  forma mais integral, menos  sofrida  e  reconciliadas
com Deus.

Pequenos  grupos  de  aconselhamento  so  grandes   oportunidades    de
crescimento  para  as  comunidades  eclesiais,  pois   possibilitam    a
verdadeira  confraternizao  das  diversidades.       Uma    comunidade
teraputica constituise quando as pessoas se percebem interdependentes e
complementares nas suas diferenas, quando essa  diferena  enriquece  a
sua  convivncia e  o desejo de Deus.

Notas 1 HerbertANDERSON, The  Family  and  Pastoral  Care,  p.  69ss.  2
"Rivalidades internas  y  de  sobreestimacin  de  algunos  carismas  en
detrimento de otros." Irene FOULKES, Problemas pastorales en Corinto, p.
341-342. Irene FOULKES,    Problemas  pastoraies  en  Corinto,  p.  345.
 Raymond Bryan BROWN, 1 Corntios,  p.  426.  Irene  FOULKES,  Problemas
pastorales en Corinto, p. 347-348.  6  Tea  FRIGERIO,  Os  conflitos  na
igreja        de           Corinto,                p.                33.
 Raymond Bryan BROWN, 1 Corntios, p. 425. "El reconocimiento de que  la
diversidad es legitima y necesaria - y por tanto, deseable - para que ei
cuerpo funcione." Irene FOULKES, Problemas  pastorales  en  Corinto,  p.
349.
        Raymond Bryan BROWN, 1 Corntios,  p.  427.  Verner  HOEFELMANN,
Corinto: contradies e conflitos de uma comunidade urbana, p. 25.  Ira
MLLER, Consideraes sobre o  sistema  de  assistncia  aos  doentes  e
portadores de deficincia at Atos 6, p. 9-13. 12  "Identificndose  con
ellos de tal  forma  que  ya  no  los  consideren  ajenos  y  por  tanto
susceptibles  de  ser  ignorados  o  menospreciados."  Irene    FOULKES,
Problemas pastoraies en Cornto, p. 349.
        Estas palavras foram  ditas  por  Beth  Caetano,  que,  aps  um
acidente de  carro,  ficou  tetraplgica.  Beth    muito  envolvida  no
movimento  de  Vida  Independente  para  as  pessoas  que  tm    alguma
deficincia e esta sua frase  famosa  no  contexto  da  deficinc  Ched
MYERS, O Evangelho de So Marcos, p.189. "Gottes Heil ist auch ohne  des
Menschen Heilung Gottes ganzes Heil": Ulrich BACH,  Heiiende  Gemeinde?,
p. 349. 16 Ulrich BACH, Heilende Gemeinde?, p. 351. '~  "Es  gehrt  fr
einen Nicht-Geheilten zu einem ehrlichen Umgang mit sich selber und  mit
seinen Lebensumstnden dazu, dal3  er,  'Kraft  zum  Menschsein'  gerade
nicht mit 'Gesundheit' gleichsetzt. In der 'Arena' da wo  das  wirkliche
Leben abiuft, knnte eine soiche Definition nur  stren  und  schdigen
(...).": Ulrich BACH, Heiiende  Gemeinde'?,  p.  354.  18  "Por  eso  ia
comunidad cristiana es comunidad de desiguales que  ya  no  experimentan
sus  diferencias  como  una  amenaza,  sino  como  un    enriquecimiento
recproco. Tal tipo de comunidades constituyen la  configuracin  social
viva de ia justificacin poria gracia." Jrgen MOLTMANN, Diaconia en  ei
horizonte deDios,p.  24.  Ira  MULLER,  A  mulher  encurvada,  p.18.  A
escoliose  um desvio de coluna em "S" para o  lado  e  a  cifose    um
encurvamento para a frente, muito comum em pessoas que j tem escoliose.
A cifoescoliose  a juno das duas, o que parece ser a  deficincia  da
mulher encurvada. 20 Outros textos de cura: Mt  8.1-4;  Mt  9.19-22;  Mt
9.27-31; Mt 20.29-39; Mc 2.1-12; Mc 8.22-26;  Lc  17.11-19;  J0  5.1-18.
 Ira MLLER, A mulher encurvada,  p.  19.  22  Iara  MULLER,  A  mulher
encurvada, p. 21. 23 Ira MULLER, A mulher encurvada,  p.  22.  24  "Wer
aiierdngs an einen Gott  glaubt,  der  nicht  hellen  mul3  (der  nioht
regelmlig heilt) - wer an einen Gott glaubt, der in Sohwaohe  vernarrt
ist,  der  seinen  Sohn  ans  Kreuz  sohickt,    der    sem    geliebtes
VolkvierzigJahre  in  der  Wste  umherirren  lJSt;  wer  Mut  hat  zum
geknickten Rohr, nicht weil Gott es cine Fahnenstange  verwandeln  wird,
sondem weil er es nioht zerbreohen wird;  wer  Mut  hat  zum  glimmenden
Dooht, nioht weil Gott daraus em Osterfeuer erstehen iflt, sondem  weil
er ihn nioht auspustet - wer Mut hat zu diesem sohwaohen  Gott  (zu  dem
Gott, den man einen 'gekreuzigten Gott' genannt hat), der wird in  einer
gesundheitstrunkenen  Gesellschaft   mglicherweise    ais    Sonderling
gelten.": Ulrich BACH, Heilende Gemeinde?, p. 354.
        Moldo RODRIGUES, Psicologia social para principiantes, p. 15. 26
Harold J. ELLENS, Graa de Deus e sade humana, p. 40. 27 "The existence
of a variety of sizes and types of  groups  in  a  local  church  is  an
invaiuable asset in fulfilling  its  ministry  and  reoonoiliation.  The
spiritual vitaiity of a local church is  direotly  oorreiated  with  the
health of its groups - particulary its small groups where  heart-hungers
are most apt to be satisfied.": Howard CLINEBELL, Mental Health  Through
Christian Community, p. 149.
        Howard CLINEBELL, Aconselhamento pastoral:  modelo  centrado  em
libertao e crescimento, p. 343. 29  Howard  CLINEBELL,  Aconselhamento
pastoral: modelo centrado em libertao e crescimento, p. 342-343.
        Para uma compreenso mais ampla  do  fenmeno  de  comportamento
imitativo, leia-se:  Sophia  VINOGRADOV,  Irving  D.  YALOM,  Manual  de
psicoterapia de grupo,  p. 22. 31  "Seelsorge  durch  die  Gruppe  tilgt
nioht die Angst, soweit sie reale Ursaohen hat, sondem sie befhigt  zum
Aushalten  der  Angst  bzw.  ihrer  Ursaohe.":    Dietrich    STOLLBERG,
Theologischer Kommentar, p. 190.  32  Grald  B.  MAILHIOT,  Dinmica  e
gnese dos grupos, p. 66.
        "In einer solchen Gruppe wird die Idee der Kirche ais Bundesvolk
konkret  in  der  Geschichte  der  Erfahrungen  der   Gruppenteilnehmer.
Innerhaib soloher Erfahrungen bekommt das Wort von der Treue Gottes cine
lebenswiohtige  Bedeutung.":  Joseph  W.  KNOWLES,  Gruppenberatung  ais
Seelsorge und Lebenshilfe, p. 33.
        Lothar Carlos HOCH, Aconselhamento pastoral e libertao, p. 17.
        Howard CLINEBELL, Aconselhamento pastoral, p. 14.
        Howard CLINEBELL, Aconselhamento pastoral, p. 62-63.
        Howard CLINEBELL, Aconselhamento pastoral, p. 61.
        Howard CLINEBELL,Aconselhamento pastoral, p. 14.
        "Slo ei estableoimento de una comunidad de vida entre impedidos
y no impedidos, entre sanos y enfermos, entre jvenes y anoianos,  entre
hombres y mujeres,  podr haoer que se supere ei aislamiento  social  de
la actual sooiedad segregadora, porque  ei mal social en su misma raiz".
Jrgen MOLTMANN, Diaconia en ei horizonte dei Reino de Dios, p. 23. III

A EXPERINCIA DO ACONSELHAMENTO  EM  GRUPO  COM  PESSOAS  PORTADORAS  DE
DEFICINCIA EM UMA COMUNIDADE ECLESIAL


Neste capitulo, quer-se mostrar  alguns  resultados  de  nove  meses  de
pesquisa, realizada com um grupo de aconselhamento de pessoas portadoras
de deficincia em uma comunidade eclesial. Muitas  nuances  da  vida  do
grupo ocorreram sem se perceber, tornando-se material inconsciente,  mas
que tiveram a fora para ajudar a movimentar  e a caracterizar o  grupo,
como se ali fosse mesmo um cadinho onde as coisas se mesclam, se  fundem
e se transformam, num desejo de Deus.

Apesquisa ocorreu na Grande Porto Alegre/RS, em uma comunidade  eclesial
urbana com mil e seiscentas famlias cadastradas. Logo  de  inicio,  foi
combinado que os nomes  das participantes e dos participantes  do  grupo
seriam trocados por nomes fictcios nas transcries que  seriam  feitas
das gravaes das sesses, a fim de proteg-Los  e  preserv-los  de  um
reconhecimento, garantindo que realmente pudessem  se  expor  no  grupo.
Igualmente foi combinado que  estas  transcries  seriam  usadas  nesta
pesquisa  com a autorizao de todos.



Organizao e funcionamento do grupo de aconselhamento


Falar de um grupo dentro da realidade eclesial  diferente de  falar  de
grupos na realidade  psicolgica.  Aos  conhecimentos  sobre  grupos  na
Psicologia precisam  ser  acrescidas  as  experincias  vividas  em  uma
comunidade de f, ou seja, o relacionamento da pessoa humana com Deus  e
tudo o mais que isso proporciona: saber-se amado  ejustificado porgraa,
acreditar na ao do Esprito Santo.

Abibliografia sobre grupos  exaustiva dentro da Psicologia,  nem  tanto
dentro da Teologia, emboraj existam autores que  fizeram  a  combinao
entre grupo e Teologia. A estes autores deu-se mais  ateno  e  espao,
embora no tenham abordado  todos  os  aspectos  necessrios  para  este
trabalho, quando ento fez-se uso de autores da rea de Psicologia.




Muitos aspectos do funcionamento do grupo foram importantes, no entanto,
foi preciso  selecionar  alguns,  no  sentido  de  no  estender-se  com
demasia, porm possibilitando  um bom entendimento de como este grupo de
aconselhamento funcionou.


Primeiras providncias

Contactar a comunidade e as pessoas que possivelmente  participariam  no
grupo foram as principais atividades iniciais da aconselhadora.  A  esta
atividade chamou-se  de pr-grupo. Na Psicologia, este  momento  chamado
pr-grupo  significa  o  grupo  reunido  pela   primeira    vez,    para
esclarecimento do seu funcionamento. Nesta pesquisa,  porm, utilizou-se
este mesmo termo para  algumas  outras  atividades  que  precisaram  ser
realizadas antes de reunir o grupo pela primeiravez.

Aprimeira tarefa realizada foi  marcar  hora  e  conversar  com  algumas
pessoas da comunidade (pastor, presidente  da  comunidade,  presbitrio)
para compartilhar a idia  de um grupo de aconselhamento com pessoas que
portam alguma deficincia e para tratar de questes  de  infra-estrutura
como: dia da semana e horrio que se pudesse ter uma sala  disponvel  e
como divulgar a necessidade de pessoas voluntrias para  transportar  os
participantes do grupo.

O  pastor  demonstrou  entusiasmo  e  julgou  a  idia  com  o  adjetivo
"fabuloso". A seguir, passou a listar nomes de pessoas  que  colaboraram
no levantamento de dados  sobre    pessoas  com  deficincia  da  IECLB,
realizado entre 1990 e 1991,fazendo visitas e cadastrando as pessoas com
deficincia daquela comunidade, e as prprias pessoas   com  deficincia
que ele conhecia.

Perguntou-se ainda  ao  pastor  quais  as  pessoas  que  coordenavam  os
diferentes grupos da comunidade  (de  casais,  de  jovens,  de  terceira
idade, de liturgia),  pois  pretendia-se    visitar  estes  grupos  para
explicar  a  idia  de  um  grupo  de  aconselhamento  com  pessoas  com
deficincia e perguntar se conheciam  algum  que  quisesse  participar.
Tambm  neste  mesmo  dia  retirou-se  da  secretaria  da  comunidade  o
fichrio com o nome de todas as pessoas com deficincia  da  comunidade,
cadastradas no levantamento de 1990/91.

Inicialmente, pretendeu-se estabelecer para  os  participantes  a  idade
mnima de 18 anos e a mxima de 55 anos de idade, para assim garantir um
grupo homogneo, de  adultos, evitando entrarem questes especificas  da
adolescncia ou da terceira idade, pois  necessrio  outro  manejo  com
crianas, adolescentes e idosos portadores    de  deficincia.  Foi,  no
entanto, bem esclarecido que o limite da idade seria flexivel e que,  se
algum tivesse muita vontade de participar e no se  encontrasse  dentro
da idade estabelecida, tambm seria bem-vindo.




Passou-se  ento  a  visitar  os  diversos  grupos  daquela  comunidade,
compartilhando a idia motivadora. Sempre houve grande ateno da  parte
de todos os grupos e muitas  perguntas a respeito da deficincia. Muitas
pessoas lembravam imediatamente de algum para convidar e ficavam de dar
um retorno. Porm, trouxeram poucas respostas  positivas.

Apartir  do  fichrio,  constatou-se  que  a  maioria  das  pessoas  com
deficincia era muito idosa  ou  j  falecida.  Uma  pessoa  j  no  se
comunicava mais e as outras possuam  deficincia mental, que no estava
dentro do propsito deste grupo. Por outro  lado,  algumas  pessoas  com
deficincia na comunidade que se conhecia no estavam cadastradas.

Comeou-se a divulgar o incio do grupo nos cultos e o pastor o  fez  no
momento dos avisos com as seguintes palavras: " um grupo de pessoas com
deficincia fsica  e visual, para falar sobre as alegrias e tristezas e
das dificuldades de ser diferente"; ou  ainda,  que  era  "um  grupo  de
aconselhamento  miltuo".  Tambm  pediu  que  membros  que    estivessem
dispostos ajudassem a transportar as pessoas de sua casa para o grupo  e
depois do grupo para casa. Esta foi  uma  das  maiores  dificuldades  no
inicio. No houve resposta muito efetiva. Somente  um  membro  sentiu-se
motivado a partir dos avisos nos cultos a colaborar com o transporte.

Enquanto eram organizadas questes como  local,  horrio  e  transporte,
visitaram-se pessoas que pudessem participar do grupo.  Foram  visitadas
somente pessoas que  tinham  deficincia  fsica  ou  visual.  Faziam-se
visitas em suas casas, explicava-se a idia sobre o grupo e combinava-se
sobre o seu transporte. Foram convidadas    doze  pessoas  no  total,  e
somente quatro, inicialmente, aceitaram.

Esta visita, feita para fazer  o  convite,  foi  o  momento  de  contato
individual com cada pessoa,  de  conhecer  melhor  sua  realidade  e  de
explicar os objetivos do grupo e o motivo do convite: que  eram  pessoas
que tinham contribuies a dar ao grupo, onde todos traziam experincias
similares de preconceito, dificuldades e adaptao   deficincia.

Tambm foi a oportunidade de conhecer mais de perto as suas  reaes  de
acolhimento ou recusa  idia e de proporcionar-lhes  uma  descrio  de
como o grupo funcionaria.  Esclareceu-se que frustraes e  medo  tambm
poderiam ocorrer no grupo, mas que essas sensaes poderiam  ser  sempre
abordadas. Tentou-se  tambm  a  esclarecer  o  que      um  grupo  de
aconselhamento, adiantando que seria um grupo de crescimento para  si  e
para  a  comunidade,  que  geralmente  no  lida  com  as  questes   da
deficincia.

Pde-se, neste momento, tambm dar uma  idia  das  outras  pessoas  que
participariam, descrevendo-as um pouco: seus nomes, local onde moram, as
diferentes deficincias  que  possuem,  suas  idades.  Com  todas  estas
informaes, a pessoa poderia ir traando uma  idia  mais  concreta  do
grupo,




diminuindo o risco de fantasias que mais  tarde  poderiam  prejudicar  a
integrao com os outros participantes.

Era vital que as  pessoas  convidadas  viessem  porvontade  prpria.  Se
algum  viesse  pressionado  pela  famlia  ou  amigos,  as  chances  de
sentir-se bem no grupo e de realizar   um  trabalho  conjunto  produtivo
seriam poucas. A pessoa precisava desejar sair da  situao  em  que  se
encontrava, buscando novas formas de viver, pois  seno,  provavelmente,
desistiria de participar logo nas primeiras sesses.

Nem todas as pessoas convidadas tiveram vontade de participar do  grupo.
Algumas pessoas recusaram o convite, alegando que  o  horrio  lhes  era
inadequado ou que havia  falta de tempo para isso. Com certeza,  algumas
destas pessoas que recusaram o convite sentiram resistncia em lidar com
toda a situao ligada  sua deficincia.   Preferiram  permanecer  como
estavam do que se abrir para uma eventual possibilidade de  crescimento.
Estas pessoas no esto conscientes de que  muitas  possibilidades    de
suas vidas ficam diminudas por no aceitarem e tambm no elaborarem  o
fato deterem uma deficincia.


Participantes

Ogrupo iniciou no dia dezoito de maro de mil  novecentos  e  noventa  e
seis, com cinco pessoas, incluindo a aconselhadora. Foi convidada tambm
uma pessoa de outra  cidade atravs de correspondncia e aguardava-se  a
resposta. Quando a resposta chegou positiva, o grupo j havia tido a sua
primeira  sesso.  Mesmo  assim,  visitou-se    esta  pessoa  para   uma
aproximao e para explicar-lhe o  sistema  de  transporte,  o  que  lhe
possibilitou a entrada no grupo na segunda sesso.

Ogrupo iniciou com: Joana, 50 anos, casada, me  de  duas  filhas  e  um
filho (sendo que a filha mais velha e o filho tm  a  mesma  deficincia
que a me), dona-de-casa,  participante de um outro grupo na comunidade,
portadora   de    degenerao    de    mcula,    doena    progressiva,
possibilitando-lhe somente  1,5%  da  viso  normal.  Precisa  aproximar
muito dos olhos todo material de leitura e usa bengala de cego para sair
 rua, o que lhe serve de identificao. Joana  tambm  fazia  parte  de
outros dois grupos  que  trabalham com pessoas com deficincia, de  onde
conhecia a aconselhadora.  luterana.

Simone, 71 anos, casada, me de duas filhas e  um  filho,  dona-de-casa,
portadora de escoliose desde a adolescncia. Anda encurvada e tem  dores
nas costas.   luterana.  Tambm  era  conhecida  da  aconselhadora  por
trabalharem  juntas  em  outro  trabalho  com  pessoas  portadoras    de
deficincia.

Vilma, 32 anos, casada, me de dois filhos, sendo que o  segundo  nasceu
quando j tinha a doena. Dona-de-casa, possui um diagnstico  impreciso
de "escoliose mltipla"  (provavelmente esclerose mltipla) desde os  25
anos. No pde fazer o exame final  que  ratificaria  o  diagnstico,  a
ressonncia magntica, devido ao seu alto custo.  De  um  lado  usa  uma
bengala simples e do outro necessita  de uma pessoa para apoi-la,  pois
no tem controle dos movimentos das  pernas  e  pouco  dos  braos,  tem
tambm dificuldades de fala. -  catlica. Seu nome foi sugerido por uma
pessoa do presbitrio.

        Artur, 22  anos,  solteiro,  funcionrio  pblico,  portador  de
seqelas de
        paralisia  cerebral  ao  nascer.  Tem  dificuldade  para  andar,
utiliza uma bengala canadense, pois tem  a  massa  muscular  das  pernas
diminuda e um ajunta
        mento nos joelhos. Possui alto grau de miopia no  olho  direito,
ouve menos noD ouvido direito e os membros  do  lado  direito  so  mais
atrofiados.    catlico.  O  Seu  nome  foi  sugerido  por  uma  antiga
professora, membro da comunidade onde se realizou a pesquisa.

Ira, a aconselhadora, 35  anos,  casada,  me  de  uma  filha,  pastora
luterana, portadora de seqelas de plio desde  os  seis  meses  devida.
Temie tambm dificuldades para andar, utiliza  duas bengalas canadenses,
pois possui atrofia nas pernas. Dirige automvel adaptado.

Na segunda sesso, ingressou Marcelo, 24  anos,  solteiro,  portador  de
leso medular h quatro anos devido a uma bala perdida que lhe atingiu a
coluna cervical. Utiliza  cadeira-de-rodas,  move  bem  o  pescoo,  tem
movimentos nos ombros, movimentos muito limitados nos braos e no tem o
movimento das mos. Autodenomina-se de cristo e mora com o pai, a me e
o irmo. A aconselhadora conheceu-o num encontro da Fraternidade  Crist
de Doentes e Deficientes, poucos meses antes do  grupo  iniciar.  Foi  a
primeira vez que Marcelo havia participado de um destes encontros.  Seis
meses mais tarde, por ouvir  falar  do  grupo  e  ter  muito  interesse,
ingressou Ana, 37 anos, casada, me de uma filha, mdica,  portadora  de
esclerose mltipla h quatro anos. J esteve, por  um  perodo,  cega  e
paraplgica devido  doena. Utilizou, primeiramente,  cadeira-de-rodas,
depois duas bengalas canadenses e, por ltimo, umabengala  simples.  Tem
um andarvacilante, tpico da esclerose mltipla, muita fadiga  e  outras
seqelas da  doena,  mas  que  no  so  visveis.    catlica  e  faz
psicoterapia. Foi informada por um membro da comunidade sobre o trabalho
de  aconselhamento  e  entrou  em  contato  com  a  aconselhadora   para
participar. Desta forma, o aconselhamento com  pessoas  com  deficincia
naquela comunidade delineou-se ecumnico. A necessidade de  se  reunirem
saindo do isolamento, de discutirem sua condio, de lutarem por  espao
e integrao foi maior do que as suas diferenas religiosas. O  ingresso
de novos membros3  um momento bem especial na vida dos grupos em geral.
Neste grupo de aconselhamento poderia haver  muita  resistncia    nova
integrante, mas tambm muito acolhimento, dependendo do investimento que
a aconselhadora e o grupo demandassem no preparo  desta  atividade.  Foi
importante estabelecer o  melhor  perodo  para  a  entrada  desta  nova
participante,  visando  no  escamotear,  interromper  nem  impedir    a
atividade corrente. Esta pessoa mereceria ser recebida como um membro da
comunidade, igualmente necessitado dos efeitos teraputicos do grupo.

Cabe aqui relatar, em poucos detalhes, o perodo de sada temporria  de
Joana, prevista desde o incio do grupo, e do ingresso de Ana. Para  que
o grupo no se ressentisse  da saida de Joana,  esse  acontecimento  foi
trabalhado em parte de uma sesso: como o grupo  se  sentia  com  a  sua
sada provisria e como ela prpria se sentia neste   momento,  deixando
aflorarem emoes. Para a entrada de Ana tambm foram usadas  partes  de
algumas sesses, a fim de preparar o grupo e de evitar um  clima  hostil
em  relao  sua chegada ou um fechamento em torno dos mais antigos  no
grupo, no permitindo a sua acolhida e integrao.

Paralelamente  reunio semanal, foi-se percebendo  um  interesse  maior
por  informaes  na  rea  da  deficincia,  uma  disponibilidade    em
participar de eventos em torno  desta causa. Marcelo participou  de  uma
Jornada de Reabilitao e Integrao do Cone Sul, realizado no  Hospital
de Clnicas em Porto  Alegre.  Ana  participou  em  todos    os  eventos
possveis sobre esclerose mltipla (mesmo antes de ingressar no  grupo).
Joana, Simone, a aconselhadora e Artur  comearam  a  participar  de  um
curso para  multiplicadores na rea da deficincia.

Alm disso, trs dos sete participantes foram ao primeiro Seminrio  das
Pessoas com Deficincia Fsica em Santa Cruz do Sul/RS,  promovido  pela
Fraternidade Crist  de Doentes e  Deficientes,  demonstrando  assim  um
envolvimento maior no contexto da realidade das pessoas com  deficincia
e no somente com o grupo. Isso possibilitou  que o grupo  estivesse  em
contato com informaes sempre atualizadas, que eram passadas para todos
os outros participantes.

Circularam muitas informaes no  grupo:  endereos  de  fabricantes  de
equipamentos, aparelhos  e  utenslios  necessrios  a  quem  porta  uma
deficincia e sobre o sistema   de  financiamento  para  sua  aquisio,
sobre carteira  de  motorista  para  quem  tem  uma  deficincia,  sobre
paralisia  infantil,  paralisia  cerebral,  degenerao    de    mcula,
esclerose mltipla, leso medular e escoliose.

Tambm falou-se sobre as leis de acesso que garantem o direito de  ir  e
vir das pessoas com  deficincias,  sobre  o  smbolo  internacional  de
acesso, sobre as facilitaes  de barreiras arquitetnicas em pases  do
Primeiro Mundo, sobre os direitos do paciente, sobre as  leis  nacionais
sobre pessoas com deficincia, sobre importao de  medicamentos,  sobre
alcoolismo, sobre o funcionamento do Sistema  nico  de  Sade  (SUS)  e
sobre as fases de elaborao da  deficincia.  Lentanente,  o  grupo  ia
tendo    uma  outra  viso  da  deficincia  e  suas  possibilidades   e
limitaes.




Funcionamento do grupo

Estando as pessoas convidadas  e  informadas  a  respeito  do  que  iria
acontecer, ocorreram as primeiras  sesses,  nas  quais  foi  importante
abordar o contrato do grupo,    ou  seja,  aspectos  detalhados  do  seu
funcionamento: os objetivos, a questo do sigilo,  a  pontualidade  e  a
assiduidade, o perodo de da do grupo, o nmero  de  participantes  e  o
tipo de grupo a ser constitudo. Na  Psicologia,  o  contrato  pode  ser
denominado tambm como enquadre grupal, ou ainda,  como  bases  para  um
grupo de psicoterapia.

Essa foi a ocasio para se aprofundar os objetivos do grupo  que  haviam
sido brevemente informados no pr-grupo pela aconselhadora.  Depois  que
cada um falou dos objetivos  que considerava importantes  e  tirou  suas
dvidas, o  grupo  firmou,  com  a  aceitao  de  todos,  os  primeiros
objetivos do grupo: poder ouvir e falar sobre a deficincia  de cada  um
sem medo nem constrangimento; aprender coisas novas sobre deficincia em
conjunto; conversar sobre os preconceitos  que  existem  em  relao  s
pessoas com  deficincia; descobrir novas maneiras  de  enfrentar  estes
preconceitos; ser apoio nos momentos difceis da vida dos  participantes
e  compartilhar  alegrias  decorrentes    deste  novo  investimento   de
participar num grupo.

O sigilo precisou ser estabelecido. Combinou-se que "(...)  tudo  que  
dito nas reunies "pertence ao grupo " S assim,  o  clima  confidencial
permitiria uma entrega de material ntimo de cada participante.  Tudo  o
que fosse revelado seria importante para o grupo, para um aprofundamento
de relaes interpessoais e  somente  para    isso  deveria  ser  usado.
Combinou-se que assuntos trazidos ao grupo no deveriam  ser  comentados
entre dois participantes fora do grupo, em um encontro ocasional.  Seria
material exclusivamente do grupo e somente ali teriam a oportunidade  de
ser uma experincia gratificante. Em  nenhuma  hiptese,  este  material
revelado poderia  ser usado para outro fim. Foi vital tambm combinar  a
pontualidade e a assiduidade para que o grupo  pudesse  se  desenvolver.
Seria muito importante no haver pessoas faltando no  grupo.  Se    isso
acontecesse, seria necessrio  tematizar  a  falta  da  pessoa:  -  Como
estamos nos sentindo sem ela? O que lhes parece  que  aconteceu?  Existe
algum motivo para ela  ter evitado o grupo hoje? As faltas dificultariam
a continuidade e a coeso  do  grupo.  As  vezes,  ocorrem  por  motivos
alheios ao grupo e seus participantes,  mas  dever-se-ia    examinar  os
motivos reais para este acontecimento e ter conscincia de que  a  falta
geraria uma defasagem em relao aos  contatos  e  experincias  vividas
pelos que no faltaram. A pontualidade garante o bom  aproveitamento  do
tempo que o grupo Lispusesse.  Chegar  mais  tarde  ou  sair  mais  cedo
poderia ser uma forma de  evitar  certos  assuntos  ou  boicotar  o  bom
funcionamento do grupo. Tanto as



faltas como os atrasos e sadas antecipadas precisariam ser  abertamente
tratadas  no  grupo  para  no  se  tornarem  material  de  mal-estar  e
constrangimento.

A durao mais indicada para um pequeno grupo de aconselhamento  de uma
hora e trinta minutos, umavezpor semana. O grupo optou por  isso.  Desta
forma, h tempo  para que o grupo se aquea com conversas introdutrias,
entre no tema, discuta, conclua os assuntos, garantindo  a  participao
verbal de cada participante presente.  O grupo  deve  ter  o  nmero  de
pessoas que permite a intimidade, a oportunidade de cada um falar a cada
sesso,  numa  comunicao  flexivel  e  de  partilha.  Vrios   autores
aconselham a presena de no mnimo cinco pessoas  e  no  mximo  dez  ou
quinze. O essencial  garantira participao efetiva de todos.

Dois aspectos que facilitam o comeo do grupo de aconselhamento so:

a combinao quanto ao perodo de vida do grupo e ao tipo de  grupo  que
se constituiria. Foi importante para os participantes e  tambm  para  a
lder do grupo estabelecer  durante quantos meses o grupo  se  reuniria,
tanto  por  uma  questo  de  organizao  pessoal  de   cada    um    e
responsabilidade com seus compromissos, quanto pela questo  de  preparo
para a despedida do grupo.

Um grupo que entrasse em ntima convivncia, que criasse laos afetivos,
que compartilhasse dores e alegrias no poderia  concluir  de  uma  hora
pafa outra, sem  uma    despedida  prevista  e  satisfatria.  Tambm  
importante combinara durao do grupo por uma questo de cumprimento dos
objetivos propostos pelo grupo no comeo de   suas  atividades.  Autores
propem de seis a nove meses at um ano de  durao.  Concluiu-se  ento
que o grupo se reuniria, pelo menos, at o fim do ano, atingindo    nove
meses de durao.

Quanto ao tipo de grupo, poderia ser fechado ou  aberto,  dependendo  da
necessidade e dos objetivos dos  seus  participantes.  Um  grupo  aberto
possibilitaria a entrada    e  a  sada  de  seus  membros  durante  seu
percurso, variando o nmero de participantes. Se fosse um grupo fechado,
teria que iniciar e  concluir  com  os  mesmos  participantes    (embora
normalmente ocorram desistncias). O grupo decidiu no optar de imediato
por nenhum dos dois tipos, mas averiguar o seu  andamento  ao  longo  do
tempo e ento  manifestar-se novamente.

Ogrupo  de  aconselhamento  era  o  primeiro  grupo  que  iniciava  suas
atividades nas segundas-feiras no turno da noite. Reunia-se das dezenove
s vinte horas e trinta  minutos  pontualmente.  O  casal  de  zeladores
aguardava as participantes e os participantes com  o  porto  aberto.  O
zelador ajudava sempre a montar a  cadeira-de-rodas    de  Marcelo,  que
vinha desmontada. Nem sempre a pessoa que fazia o transporte conhecia  o
processo de montar e desmontar a cadeira. Tanto  a  esposa  do  zelador,
quanto  o prprio zelador ajudavam  as  pessoas  a  sarem  dos  carros,
dando-lhes o brao quando



necessrio ou ajudando  a  carregar  seus  pertences.  Sendo  assim,  os
prstimos do casal de zeladores tornou-se um aspecto  relevante  para  a
construo deum clima acolhedor  no grupo.

Quando as pessoas do grupo chegavam antes das dezenove  horas,  o  casal
entrava na sala e ficava conversando com elas. Para se chegar at a sala
onde o grupo se reunia,  era necessrio atravessar o salo de festas  da
comunidade. Muitas vezes, quando este salo estava enfeitado para alguma
atividade especial, o zelador passeava com    Marcelo  e  a  esposa  com
algum pelo brao e ambos explicavam para todo o  grupo  os  enfeites  e
simbolos usados e os motivos da festa ou celebrao.  Sem  dvida,  isso
concorreu para uma sensao de calor humano, acolhimento e receptividade
incomuns.

Aps a entrada na sala, as sesses tinham o seguinte roteiro:

- conversas preliminares sobre os acontecimentos  da  semana,  notcias,
quem trouxe quem, como cada um est, troca de informaes sobre mdicos,
endereos  e telefones, troca de  jornais  e  livros,  prospectos  sobre
equipamentos, aparelhos e utenslios  para  portadores  de  deficincia,
mostra de fotos de familiares;

- algum fazia o resumo da sesso anterior (ou o grupo fazia);

- colocao da proposta da sesso do dia (planejada na sesso anterior),
sua motivao;

- aceitao ou reformulao da proposta;

- atuao de todos dentro da proposta;

- concluses e decises;

- relato de sentimentos aps as decises (se estava bem  para  todos  ou
precisava mudar algo);

- planejamento da prxima sesso.

Como  normal, tambm ocorreram sesses  em  que  o  planejado  no  foi
cumprido, por surgirem  assuntos  emergentes  mais  importantes  naquele
momento, trazidos por algum   participante  ou  pela  aconselhadora.  Se
certos assuntos emergentes no forem tratados  para  no  interferir  no
planej amento,  possvel que eles impossibilitem o  processo de  grupo,
boicotando seu fluxo, at que sejam abordados.

No fim das sesses, se os membros voluntrios que  faziam  o  transporte
ainda no estivessem aguardando (nem sempre eram os mesmos que os haviam
trazido), aproveitava-se    para  conversar  sobre  outros  assuntos.  O
momento da despedida tinha muitas manifestaes afetivas,  com  abraos,
beijos e recomendaes. Muitas vezes havia tambm  votos de  coragem  ou
sade para alguma circunstncia comentada anteriormente durante a sesso
do grupo. Quando os transportadores chegavam, o grupo de  aconselhamento
saa de sua sala e atravessava o salo, onde estava reunido o  grupo  de
liturgia,  que  iniciava  trinta    minutos  depois    do    grupo    de
aconselhamento.  Estes  paravam  com  suas  falas,  interrompiam    suas
atividades e ficavam observando discretamente nossa sada.

Ozelador ajudava Marcelo a entrar  no  carro,  desmontava  sua  cadeira-
de-rodas e a colocava no carro, depois ficava aguardando at  que  todos
tivessem ido embora.


Local de reunio

O espao onde o grupo se reuniu tambm foi  uma  preocupao  a  fim  de
garantir conforto e ambiente adequado. Na  Psicologia    abordado  como
setting."  de suma importncia que haja cadeiras confortveis  para  se
passar  uma  hora  e  meia  sentado,  principalmente  para  pessoas  com
deficincia, embora uma tivesse que usar sua prpria cadeira-de-rodas. A
melhor disposio de cadeiras  a circular, pois permite  que  todos  se
vejam e interajam de forma acessvel. Deve-se  tambm  prever  um  local
onde  no  aconteam  interrupes  durante   a    sesso    do    grupo
(interferncias de fora).

A reunio acontecia de  porta  fechada  e,  para  garantir  que  ningum
interrompesse, foi afixado na  porta  um  cartaz  escrito  "No  Entre",
providenciado pelo zelador, que compreendeu a diferena entre  um  grupo
de aconselhamento e outros grupos da comunidade.

A sala na qual o grupo se reunia no era a ideal, por  estar  localizada
muito prxima  rua, estando assim exposta a todo o barulho de carros  e
pessoas que passavam  naquele horrio movimentado. No era ideal  tambm
por ser grande, por ser muito quente no vero e fria no inverno.  Muitas
vezes, fez-se uso de aquecedor trazido  pelo grupo. Para  sair  da  sala
era necessrio atravessar o salo principal, onde sempre estava reunido,
em plenas atividades, o grupo de liturgia.

No era uma sala aconchegante. Na  verdade,  era  a  sala  do  grupo  de
jovens,  com  mesa  para  pingue-pongue,   cadeiras    inadequadas    s
necessidades especiais do grupo.  Percebia-se  tambm  que  a  sala  era
usada por outros grupos em outros horrios (Alcolicos Annimos e  grupo
de canto), alm do grupo de jovens.

Combinou-se com o casal de zeladores da  comunidade  que  a  sala  seria
sempre preparada antes do grupo chegar.  Seriam  colocadas  cadeiras  em
crculo, com o nmero exato  de participantes do grupo, sendo deixado um
espao neste crculo para a cadeira-de-rodas. Ao centro, seria  colocada
uma mesinha, com um bonito guardanapo de croch,   flores  e  uma  vela,
tentando criar um ambiente mais aprazvel. Transporte

Fora do crculo das cadeiras, colocava-se uma mesa auxiliar onde  ficava
o gravador e alguns pertences dos participantes. Suas  bengalas  ficavam
ao seu lado,  deitadas  no  cho  ou  em  outro  local  ao  seu  alcance
(encostadas na cadeira ou no prprio colo). No era a  sala  ideal,  mas
era a que tinha o melhor acesso  para  os  participantes:    somente  um
degrau. Mesmo assim era bem difcil a sua  subida,  principalmente  para
Vlma e para a cadeira-de-rodas de Marcelo.

No segundo ms de vida do grupo, inaugurou-se a rampa mvel, colocada na
entrada do salo com palmas, assobios e a  subida  triunfal  de  Marcelo
sendo levado pelo zelador.  Ele compreendeu a rampa como uma necessidade
e somente comunicou sua aquisio ao tesoureiro, que  nem  questionou  o
gasto. A rampa facilitou enormemente a subida  e a descida  de  Vilma  e
Marcelo, sendo facilmente removvel para os outros participantes, a quem
ela representava maior esforo e perigo do que o degrau.




Otransporte pblico coletivo no oferece acesso adequado, principalmente
para quem porta alguma deficincia, mas tambm no  acessvel para quem
tem alguma outra  dificuldade, como para algum com uma perna  quebrada,
ou para algum com as dificuldades normais da terceira idade, ou  ainda,
para mes com carrinhos de  beb.  Os    nibus  tm  portas  estreitas,
degraus muito altos e roletas que impedem a passagem de qualquer  pessoa
que necessite de um pouco mais de espao.

Estes meios de transporte pblico no-adaptados so realmente um entrave
tpico de um contexto incapacitante, que impede a participao  de  quem
tem uma deficincia.  Assim sendo, a questo do transporte  das  pessoas
para o grupo tornou-se um fator determinante para seu funcionamento.

Comeou-se, ento, aver a questo do transporte junto a  um  determinado
grupo da mesma comunidade que reunia muitos  casais.  A  idia  era,  no
incio, desafiar pessoas    j  aposentadas  para  fazer  o  transporte,
pensando que estas teriam mais tempo, evitando sobrecarregaraquelas  que
trabalham o dia todo e tm filhos pequenos ou em  idade  escolar.  Deste
grupo, dois membros aceitaram e foi com estes que se comeou a tarefa do
transporte ou como se costumou chamar depois: sistema de caronas.

O convite para integrar o sistema de transporte feito pessoalmente  teve
um alcance maior do que o convite  feito  nos  cultos,  no  momento  dos
avisos, principalmente aquele feito  pelas  pessoas  com  deficincia  a
pessoas conhecidas e parentes. Tambm percebeu-se que as pessoas que  se
envolveram  mais  com  o  sistema  de    transporte    (caronas)    eram
trabalhadoras, que saiam do seu expediente para fazer  o  transporte.  O
objetivo do sistema de transporte no era s o transporte  das  pessoas,
mas o contato dos membros da  comunidade  com  esta  realidade  de  vida
diferente e o relacionamento que este momento  propiciaria.  As  pessoas
que fariam o transporte teriam a oportunidade de saber  do  trabalho  do
grupo, de se aproximar da vida domstica destas pessoas. Buscando-as  em
casa e levando-as novamente, teriam a oportunidade de aprender a manejar
fisicamente com pessoas com deficincia,  desembocando  numa  integrao
teraputica, de  verdadeiro  envolvimento  interpessoal.  Principalmente
para a pessoa moradora da cidade  vizinha,  no  se  encontravam  muitas
pessoas disponveis para fazer seu transporte, seja por  dificuldade  de
lidar com  a situao da deficincia, seja por ter sido  um  horrio  de
muito movimento nas estradas ou por no caber  a  cadeira-de-  rodas  no
carro. Quando se apelou mais uma  vez para aquele grupo acima citado, em
busca de  mais  caronas,  a  resposta  demorou  e  veio  atravs  de  um
telefonema. Foi negativa e a pessoa exprimiu-se desta forma:    "No  se
quer usar esta palavra, mas  um abacaxi para quem tem  de  fazer  isso"
(os transportes). Joana e Simone  tinham  carro  em  suas  famlias,  e,
estas,  quando  necessrio,  as  transportavam.  ViLma  tinha  carro  na
famlia, no entanto no dirigia e a famlia no  se disps  a  traz-la.
Artur tinha um carro parado na garagem, mas no era  adaptado  e  tambm
no foi colocado  disposio do grupo. A famlia de Marcelo no possua
carro.

A cada reunio no se sabia se a prxima se realizaria, a menos  que  se
encontrasse algum disposto a ajudar. Essa situao durou muitos  meses,
at que as prprias pessoas do  grupo  foram  convidando  conhecidos  ou
vizinhos e, at mesmo, familiares que estavam distantes, h, muito tempo
sem se envolver com elas.

O sistema de transporte ficou assim configurado: Joana e  Simone  vinham
com a aconselhadora, Artur e Vilma eram buscados por um mesmo caroneiro,
Marcelo era buscado  por outro  caroneiro  e  Ana  vinha  dirigindo  seu
prprio carro. Na sada, seu marido  a  aguardava  para  acompanhar  seu
retorno, devido  possibilidade de surtos imprevisveis  da doena.

Artur era responsvel por contactar sua carona e de Vilma. A  carona  de
Marcelo era resolvida  quando  sua  me,  Joana  e  a  aconselhadora  se
contactavam para ver  as    possibilidades  de  transporte  para  aquela
semana.  Muitas  vezes,  por  no  dispor  de  ajuda  de  nenhum  membro
voluntrio,  a  aconselhadora  buscou  Marcelo  no  meio    da    tarde,
convidando-o para ficar em sua casa at o horrio do grupo. Com o passar
do tempo, ele mesmo mobilizou tios e primos  para  traz-lo,  no  sendo
mais necessrio o transporte  feito pelos  membros  voluntrios,  s  em
casos de imprevistos.

Depois de um dos cultos da Semana das Pessoas Portadoras de Deficincia,
em agosto, quando o grupo j tinha cinco meses de vida, um

membro sentiu-se to tocado e atingido pela mensagem do  culto,  que  se
colocou  disposio para qualquer momento de necessidade de  transporte
do grupo, tornando-se um colaborador muito especial.


Clima e coeso grupal O clima grupal foi determinante para que  houvesse
coeso entre os participantes do grupo e confiana  para  as  revelaes
intimas de cada participante. A atmosfera em que o grupo  iria  conviver
precisaria ser de aceitao e dilogo franco e sincero.

Saber-se  aceito  pelos  outros  participantes  possibilitaria  que   se
compartilhassem sentimentos reservados e que se deixasse cair a  mscara
das aparncias, to presa ao rosto para viver-se em sociedade.  Conforme
tollberg, "(...) aqui seres humanos fazem a descoberta de que justamente
nto so aceitos, quando deixam cair a mscara e  arriscam  admitir  sua
fraqueza".

Por coeso entende-se um forte sentimento de pertencer ao grupo. Como um
corpo tem muitos membros, mas  um todo orgnico, assim tambm o grupo 
composto por diferentes membros, mas  um s. Essa sensao de  pertena
mtua    que  possibilitaria  ao  grupo  que  ele  se    desenvolvesse,
produzisse, crescesse, evitando a desintegrao de seus membros.

Os participantes sentiram uma  profunda  identificao,  mesclaram  suas
experincias e histrias num processo de tornar-se um grupo distinto  de
outros, nico, com seus universos pessoais envolvidos, encontrando a  si
nesmos nos outros. O grupo passou a ser "nosso grupo", capaz de comungar
frente s mais diversas situaes, passando os objetivos  individuais  a
um pegando plano e os objetivos coletivos do grupo a um primeiro  plano.
A coeso grupal, por suavez, tambm facilitou o clima grupal.

Devido a este clima acolhedor, quase no houve faltas. Das trinta e seis
sesses, Joana, Simone e Artur faltaram a trs, Vilma e Marcelo faltaram
a quatro sesses e Ana a duas. Pode-se avaliar assim que  houve  10%  de
faltas no total do tempo em que o grupo se reuniu.

O grupo lidou de forma teraputica com as questes  da  deficincia,  ou
seja,  tentando  superar  preconceitos,  tratando  sem  estranheza    as
limitaes lecadaum,buscando sempre novas maneiras  de  encar-las.  Foi
capaz de tirar seus membros do isolamento e da  depresso,  pois  tinham
autoridade no que seus integrantes falavam  e  capacidade  de  fazer  um
ambiente acolhedor, de muita empatia e compreenso.

As pessoas integrantes demonstraram  extrema  sensibilidade  e  respeito
umas pelas outras, suprimindo conflitos e evitando subgrupos. De forma

nenhuma, cairam em conflito, recusando-se inclusive a demonstrar  gostos
e preferncias pessoais. O mais importante foi  reunir-se  em  busca  de
melhorias conjuntas  que proporcionaram cura, Libertao  e  crescimento
para cada um.

A  afetividade  entre  os  participantes  tornou-se    uma    de    suas
caractersticas.  Criaram  laos  profundos  de  considerao  e  afeto,
revelando-se um grupo realmente interessado  em  se  ajudar  mutuamente,
nas situaes mais difceis e adversas dentro e fora do grupo.

Todos do grupo puderam compartilhar seus sentimentos. Essa capacidade de
compartilhar seus sentimentos foi a demonstrao de que ali sentiam-  se
compreendidos,  num clima de muita confiana e, por isso, capazes de uma
autenticidade consigo mesmos e com os outros participantes.

Igualmente, puderam expressar suas concepes de f e sua  confiana  em
Deus, testemunhando  reciprocamente  sua  espiritualidade.  Atravs  dos
relacionamentos interpessoais,  possibilitaram que se  algum  estivesse
distante e com sua f fragilizada, poderia experimentar uma aproximao,
sentindo-se plenamente aceito por Deus.

O exerccio de  relacionamentos  interpessoais  experimentado  no  grupo
serviu como uma espcie de oficina, na qual os  participantes  treinaram
maneiras de se relacionar   e  depois  puderam  concretiz-las  fora  do
grupo, em outros contextos. Houve  encorajamento  para  a  tentativa  de
modificao de cada participante naqueles aspectos de   suas  vidas  que
consideravam  insatisfatrios,  em  busca  de  circunstncias  mais    a
contento, esboando-se o aconselhamento em grupo como um  espao  aberto
para a mudana  pessoal.


Liderana

O funcionamento de um grupo est  intrinsecamente  relacionado  com  sua
liderana" Qualquer grupo depende sempre do tipo de lder que  assume  a
tarefa de coorden-lo."

Existem  muitos  termos  para  designar  tal  funo:  Lder  de  grupo,
facilitador, aconselhador, coordenador, lder de mudana  e,  dentro  da
Psicologia, ainda se pode designar como grupo terapeuta.  Aqui  optou-se
pelo termo aconselhadora, pois  o mais apropriado para este trabalho de
aconselhamento.

"Quem pratica a poimnica deveria saber  que  ele  mesmo  se  ocupa  to
intensivamente consigo mesmo, como ele se ocupa com os outros." 16  Esta
 a tarefa dicotmica da aconselhadora: ao mesmo tempo em que  se  ocupa
com  as  emoes  e  relaes  interpessoais  dos  participantes  e  das
participantes, envolve-se com suas prprias emoes    e  relaes,  nem
sempre tendo clara a situao limtrofe. Fazer aconselhamento com outras
pessoas significa ter seu prprio ser embutido no processo, sujeito  aos
mesmos acontecimentos.



Para que isso acontea,  preciso que a aconselhadora saiba lidar no s
com as emoes dos outros, mas principalmente com as suas.

Adescrio aqui feita sobre os procedimentos de Liderana versa sobre  a
atividade que a aconselhadora exerceu no grupo, sua experincia com  ele
e apartir dele. Logo  de incio, a aconselhadora remeteu  a  importncia
do grupo ao prprio grupo, como um investimento de cada participante  em
si mesmo e em seus relacionamentos. Coube-lhe  estimular a franqueza nas
discusses, demonstrando-a.

Uma das tarefas da aconselhadora foi, de tempos  em  tempos,  durante  a
sesso,  dar  aos  participantes  um  resumo  (sntese)  do  que  estava
acontecendo, localiz-los quanto  ao tema em  pauta,  para  que  no  se
dispersassem, evitando assim que se saisse de um determinado assunto sem
t-Lo concludo e esclarecido.

Tambm  coube-lhe  esclarecer  o  que  determinado  participante  queria
expressar, quando no conseguia deixar bem  clara  a  sua  idiapara  os
outros. Essa atitude ajudava  a espelhar o que esta pessoa queria dizer,
possibilitando que pudesse se ouvir atravs da aconselhadora. Nem sempre
foi a aconselhadora quem fez  isso,  outros  puderam    faz-Lo  tambm,
trazendo para si, naquele momento, um pouco do papel  de  lder.  Quando
ocorreram  conversas  paraLelas,  tambm  foi  funo  da  aconselhadora
remet-las  ao grupo, para que todos tivessem as mesmas oportunidades de
saber o que transcorria naquele momento.

A  aconselhadora  preocupou-se  sempre  com  dinmicas  que   trouxessem
resultados frutferos para  o  grupo  e  que  fossem,  de  certa  forma,
interessantes.  As  sesses  foram    dinamizadas  com   quebra-cabeas,
materiais como  bonequinhos  de  plstico,  bales,  sementes,  figuras,
vdeo, txtos e histrias em diversas dinmicas,  sempre  com  objetivos
bem claros.

Foi essencial haver continuidade entre as  sesses  do  grupo  e  que  a
aconselhadora compartilhasse isso com os participantes, para que no  se
perdesse a viso do seu  processo e  andamento.  Um  expediente  que  se
costumou usar para  manter  esta  continuidade  foi,  rigorosamente,  ao
iniciar uma nova sesso, pedir que algum do grupo  reprisasse o  que  o
grupo fez  na  sesso  anterior,  colocando  essa  atividade  dentro  do
planejamento maior que o grupo vinha realizando at ali.

Foram caractersticas importantes da aconselhadora gostar  de  trabalhar
com o  grupo  e  ter  empatia  com  seus  integrantes,  ou  seja,  saber
colocar-se no  lugar  deles,    entendendo  seus  sentimentos,  sem,  no
entanto, temer confront-los, desafi-los ou mesmo  encoraj-los  quando
necessrio.

Foi fundamental para a aconselhadora ter conhecimento  terico  sobre  a
dinmica  e  as  tcnicas  de  grupos  e  propor-se  a  desenvolver  uma
superviso junto a um profissional  mais experiente, tanto  do  trabalho
desenvolvido com

o grupo, quanto pessoal, para no sobrecarregar-se emocionalmente e para
ter uma viso bem clara do que vinha realizando com o grupo.  Em  muitos
momentos, foi preciso lidar com fortes tenses que vinham dos diferentes
participantes  e,  ao  mesmo  tempo,  com   suas    prprias    tenses,
canalizando-as, ordenando-as a um bom encaminhamento.

A aconselhadora deve ser uma  pessoa  ntegra,  com  uma  capacidade  de
compartilhar seus sentimentos e opinies de  forma  muito  transparente,
com o senso de tica aguado  e com muito respeito pelos individuos  que
formam o grupo. De forma nenhuma pode invadir os espaos ntimos  destas
pessoas, forando-as a participar de uma forma para a qual  no  estejam
preparadas. Ao contrrio, deve respeitar os  ritmos,  os  silncios,  os
limites e as diversidades das pessoas, bem como seus prprios.

Todos estes quesitos foram mediados por uma  capacidade  de  comunicao
muito grande, com uma dose de bom humor, dentro de um  clima  grupal  de
muita seriedade e aceitao.  A  aconselhadora  primou  por  manter  uma
postura inabalvel diante das confisses dos integrantes  do  grupo,  de
aes ou sentimentos  considerados  censurveis  para  a    maioria  das
pessoas, e por isso, difceis de serem verbalizados. Procurou manter uma
posio objetiva e de total compreenso diante de tais declaraes. Isso
possibilitou  que os outros  integrantes  tivessem  a  mesma  postura  e
sentissem  liberdade  e  estimulo  para  confisses   de    experincias
consideradas mais secretas.

Sempre que possvel, a aconselhadora descentralizou a  liderana  de  si
para outros membros que assumiram esta tarefa. Esta foi  uma  forma  de,
aos poucos, ir colocando  autonomia no processo grupal.

A aconselhadora no assumiu as tarefas que iam aparecendo no  desenrolar
do grupo. O grupo mesmo as elegeu e tentou dar  uma  concluso.  Exemplo
disso foram as tarefas  diaconais, nas quais o grupo se envolveu.

Ogrupo mobilizou muitas horas na discusso e nos encaminhanientos para a
aquisio de um andador para Vilma, uma cadeira nova para Marcelo e para
estabilizar o sistema  de transporte, que para o grupo foi  fundamental.
Quanto ao andador para Vilma, fez-se contato com o Lions  Club,  mas  os
andadores todos j tinham sido distribudos.   Resultou,  ento,  que  a
prpria Vilma deveria se cadastrar na Secretaria de Sade para receb-lo
e decidir se queria isso mesmo ou no.

Marcelo contou que sua famlia gostaria  de  fazer  um  pedgio  em  sua
cidade, para adquirir uma cadeira-de-rodas mais moderna e que o tornasse
mais independente. O    grupo  investiu  algumas  horas  nesta  questo.
Sugeriu,  alm  do  pedgio,  um  livro-ouro,  reuniu   prospectos    de
cadeiras-de-rodas, fez contatos com fabricantes, sugeriu    que  Marcelo
fosse  visitar  lojas  ortopdicas  e  conhecesse  e  experimentasse  as
cadeiras. Isso ocorreu, mas o preo  da  cadeira  ideal  era  altssimo.
Descobriu-se,  ento,    um  sistema  de  financiamento  de    aparelhos
ortopdicos, prteses, apoios e cadeiras-de-rodas, atravs de  um  banco
regional. Com todas estas informaes e encaminhamentos, o grupo  deixou
a deciso para Marcelo e sua famlia.

Quanto s caronas, o grupo tambm mostrou seu  carter  diaconal.  Todos
passaram a fazer convites para que mais pessoas integrassem o sistema de
transporte, independente  do  transporte  ser  para  si  mesmo  ou  no,
demonstrando assim o incio do processo de autogerenciamento  no  grupo,
da autonomia no seu processo, dividindo com a aconselhadora  no  s  as
decises grupais, mas tambm a preocupao com a sua continuidade.

Muitas funes, no incio, realmente,  couberam    aconselhadora,  como
motivar e organizar o grupo. No entanto, foram  gradativamente  passando
para as outras mos que o compunham, num processo de co-liderana. Sendo
assim, a aconselhadora mudou de procedimento durante o processo  grupal,
passando de lder a integrante igual aos outros  no  grupo,  sem  perder
noo da duplicidade de sua tarefa. Desta  forma,  ela  pde  tambm  se
expor, que no ocorreu em detrimento de sua tarefa, mas pelo  contrrio,
sua franqueza pde servir como exemplo aos outros membros  e  fortalecer
os processos no grupo.

Com uma aconselhadora que tambm porta uma deficincia,  o  processo  de
empatia e coeso no grupo de aconselhamento foi  mais  rpido,  alm  de
aconselhadora servir como exemplo e motivao de esperana, pois quem j
possui uma caminhada de integrao pode demonstrar aos outros que muitas
coisas consideradas impossveis  so  concretizveis.  O  testemunho,  a
superao de barreiras, quer  sejam  arquitetnicas,  emocionais  ou  de
integrao,  apresentado  pela  aconselhadora,  ofereceu   aos    outros
participantes esperanas quanto  sua prpria superao.

Acredita-se que cada pessoa tenha a capacidade, presenteada por seus, de
realizar o processo curativo e transformador em sua vida,  com  a  ajuda
dos relacionamentos interpessoais. O papel da  aconselhadora  foi  o  de
facilitar  e  orientar,  quando  necessrio,  para  que  estas   pessoas
descobrissem suas prprias capacidades e seu potencial  e  entrassem  em
contato com eles.


Evoluo

Durante os nove meses de durao, de 18 de maro  a  9  de  dezembro  de
1996, os participantes do grupo engajaram-se em muitas  atividades.  Nos
dois primeiros meses, foram atividades que  permitiram  um  conhecimento
maior dos  participantes  entre  si,  que  possibilitaram  um  crescente
sentimento de grupo e de confiana. Foram feitas diversas dinmicas  com
as quais se formavam duplas ou trios, sempre diferentes, afim  de  baver
uma experincia mais ntima com cada participante.




Foram trazidos textos de reflexo sobre grupo, sobre  deficincia,  alm
de notcias de jornais que informavam  alguma  coisa  nova  nesta  rea.
Algumas dinmicas  tambm  permitiam  que  o  grupo  expusesse  bastante
material pessoal, revelando-se um grupo com  uma  enorme  capacidade  de
confiana e sigilo, permitindo um clima profcuo.

Apartir do segundo ms de convivncia, foi-se entrando mais  em  contato
com a histria de cada um, atravs  de  uma  dinmica  que  permitia  um
conhecimento maior dos  fatos e momentos importantes de suas vidas. Aps
essa atividade que durou trs meses, havia se criado um clima de  coeso
muito profundo. O trmino desta tarefa coincidiu  com a saida  de  Joana
para  uma  viagem  prevista  desde  o  comeo  do  grupo  e  que  estava
determinada a voltar, quando do seu regresso.

Questionou-se, ento, abrir o grupo novamente para o ingresso de  outras
pessoas, pois Ana, que ouvira falar do grupo e tinha muito interesse  em
participar, fizera  contato com a aconselhadora, que  trouxe  a  noticia
para o grupo.

Ogrupo ento iniciou a tarefa de procurar novos participantes, de abrir-
se para uma nova etapa. Surgiram ali  alguns  entraves.  As  pessoas  do
grupo no conseguiam  contactar a quem haviam se proposto convidar, seja
por falta de tempo ou por no encontr-las, ou ento, recebiam  resposta
negativa, demonstrando assim indcios  tnues de  certa  resistncia  em
abrir-se para novos integrantes. Esse processo do grupo  durou  um  ms,
at a entrada de Ana, que aguardava ansiosamente.

Durante trs semanas, aconteceram atividades que permitiram que o  grupo
absorvesse a nova participante, quando, ento, ela teve  a  oportunidade
de contar sobre  si    e  ouvir  sobre  os  outros,  de  experimentar  a
convivncia com  duplas  e  trios  diferentes,  de  sentir  o  clima  de
confiana e abertura que ali surgia.

Com isso, o trabalho de aconselhamento em grupo delineou seu perfil mais
uma vez: alm de ser ecumnico, seria um grupo aberto, e no poderia ser
diferente, pois  acontecia dentro de uma comunidade, onde  todos  tm  o
direito  a  seus  benefcios  teraputicos,  que  se    fecha    durante
determinados perodos, para realizar certas tarefas,  dinmicas ou temas
que no permitem interrupes, abrindo-se novamente  aps  concluir  tal
etapa, para que outras pessoas tambm possam beneficiar-se.

Ogrupo iniciou aberto, no dia  18  de  maro  de  1996,  para  quem  foi
convidado pessoalmente ou atravs dos convites feitos nos cultos. No dia
13 de maio iniciou a dinmica  sobre momentos importantes  da  vida  que
no permitia interrupo para a entrada de pessoas novas, pois exigia um
conhecimento mais ntimo dos particpantes. Fechou-se,  ento, para esta
atividade, abrindo-se  novamente  para  outras  pessoas  no  dia  02  de
setembro, quando entrou Ana. Necessitou fechar-se  novamente  em  23  de
setembro para




uma dinmica sobre as famlias de cada um, permanecendo  fechado  at  o
final de suas atividades.

Estes perodos de fechamento so necessrios  para  construir  um  clima
mais frtil no grupo e resultados mais  satisfatrios  de  dinmicas  em
discusso de temas, pois a entrada  de  novos  integrantes  exige  outro
manejo  e  um  perodo  de  integrao  relativamente  grande  para   se
interromper alguma atividade e nivelar, em todos os sentidos,  os  novos
participantes.

Durante este tempo, o grupo foi fotografado  e  todos  os  participantes
fizeram cpias das fotos que mais lhes  interessaram.  Alm  disso,  foi
filmado para a elaborao de um vdeo sobre a comunidade e seus diversos
servios e grupos.

Na segunda  metade  de  setembro,  o  grupo  iniciou  uma  dinmica  que
possibilitou um  acercamento  maior  das  relaes  familiares  de  cada
participante. Essa atividade durou dois meses. Neste  perodo,  retornou
Joana, que havia viajado. Esta dinmica possibilitou ao grupo passar por
momentos  de  :atarse,  conflito  e  soluo  de  conflito,  de   escuta
teraputica de cada particiante, de  aceitao  e  compreenso,  criando
laos afetivos nos relacionamentos, englobando a nova participante,  no
mais como elemento tardio do grupo, mas to integrada quanto os outros.

Em novembro, chegou a hora de combinar o fim das atividades do grupo. A
tambm o grupo demonstrou certa  resistncia.  Prepararam-se  artes  de
agradecimento  aos  caroneiros,  programou-se    uma    despedida    com
confraternizao, mas o  grupo  no  conseguia  acertar  detalhes  desta
programao. Este assunto fez parte da pauta das sesses durante    trs
semanas.

Somente quando foi fixada a data do recomeo, quando se  falou  sobre  o
grupo em que estariam distantes uns dos outros,  quando  se  lamentou  o
termino dos trabalhos do grupo para aquele ano,  que surgiu  a  deciso
de como encerrar. O grupo despediu-se duplamente:

com uma celebrao na  ltima  sesso,  com  o  tema:  "Quais  foram  as
sementes que eu plantei no grupo?", numa dinmica com sementes  passando
de mos em mos e com uma janta numa pizzaria, na noite seguinte, com  a
realizao do amigo Dreto.

E importante ainda ressaltar que, ao longo  de  todo  este  perodo,  as
solicitaes, svezes iniciais, s vezes finais, com  o  acendimento  da
vela na mesa de centro, foram uma  constante,  com  leituras  de  textos
afins,  poesias,  reflexes  e  oraes  conjuntas  de    gratido    ou
intercesso. O grupo experimentou  vrios  momentos  de  espiritualidade
conjunta.

Alguns temas trabalhados tiveram  durao  mais  longa,  como  momenrtos
importantes antes da  vida  de  cada  um  (dois  meses)  e  as  relaes
familiares
 meses), mas tambm ocorreram temas que duraram menos: abrir  ou  no  a
novos integrantes (trs sesses), a avaliao do grupo (duas sesses) e




at sesses nicas sobre um tema,  como  por  exemplo,  expectativas  em
relao ao grupo, imagem corporal, o lugar de Deus na minha vida,  sade
e mobilidade.

Ogrupo sentiu a necessidade  de  organizar  uma  lista  de  endereos  e
telefones, com as datas de aniversrio de cada um, que possibilitasse  o
contato entre eles fora  do grupo,  principalmente  para  o  perodo  de
frias.

Durante estes nove meses, o grupo foi a um recital e trs cultos,  sendo
que  nos  cultos  da  Semana  das  Pessoas  com   Deficincia,    alguns
participantes  assumiram  tarefas    durante  o  culto,  junto  com    a
aconselhadora. Assim,  pde-se  experimentar  vrias  sadas  conjuntas,
experimentar outros ambientes, observar a reao das pessoas diante   de
um  grupo  constitudo  de  diferentes   deficincias,    possibilitando
avaliaes e observaes valiosssimas para  o  grupo  e  para  cada  um
pessoalmente.

Todos os aspectos  relevantes  acima  citados:  primeiras  providncias,
convite aos participantes, funcionamento do  grupo,  local  da  reunio,
transporte das pessoas,  liderana e evoluo do grupo  so  componentes
fundamentais a serem seriamente considerados na formao de  grupos  com
pessoas portadoras de deficincia. No existe  tradio  ou  experincia
nas comunidades eclesiais de trabalhar com estas  pessoas,  muito  menos
infra-estrutura preparada para este tipo de aconselhamento.

Para muitas outras atividades, a comunidade j tm experincia e sabe do
que precisa para organizar e manejar com determinados grupos e  eventos,
mas o trabalho com  pessoas com deficincia ainda no est no  horizonte
das pessoas que lideram as comunidades. Ou dito de forma mais  positiva:
singelamente,  as  pessoas  com  deficincia    vo  abrindo  espaos  e
conquistando  lugares  junto  com  quem  decide  as   prioridades    nas
comunidades eclesisticas.


Anlise dos processos que ocorreram no grupo de  aconselhamento  e  seus
efeitos na comunidade eclesial


Pode-se observar que dois  grandes  blocos  se  definiram  ao  longo  da
experincia com o grupo de aconselhamento: o primeiro  foi  o  bloco  de
experincias e processos  ocorridos    com  o  prprio  grupo,  material
registrado em fitas cassete, gravado durante as  sesses;  e  o  segundo
bloco foi o das experincias que gravitaram ao redor  do  grupo,    como
reflexo ou efeitos do grupo no seio daquela  comunidade.  Este  material
foi obtido atravs de entrevistas gravadas com os voluntrios do sistema
de transporte, com outros



membros da comunidade que participavam do grupo  de  liturgia  e  com  o
casal de zeladores.


Processos ocorridos nas sesses do grupo de aconselhamento para ilustrar
os processos que ocorreram no grupo de  forma  mais  consistente,  foram
selecionados trechos de algumas  transcries  de  sesses  consideradas
fundamentais. Todos os trechos de transcries usados sero  devidamente
indicados nas notas de rodap por um nmero e a data em que ocorreram.

Das transcries, as duas primeiras, das sesses n 1 e  4,  refletem  a
caminhada do grupo bem no inicio, nos meses de maro e abril,  quando  o
grupo estava ainda se conhecendo e investindo muito sua energia em criar
um ambiente de confiana e apoio.

As transcries das sesses n 14 e n  18  refletem  o  grupo  j  mais
coeso, nos meses de junho e julho, e,  por  isso,  capaz  de  iniciar  a
tarefa de discordar e confrontar com os seus participantes.

As transcries das sesses n 28 e n  33  mostram  o  grupo  em  pleno
processo,  amadurecido,  coeso,  nos  meses  de  outubro  e    novembro,
desfrutanto muito mais dos pontos positivos e ntimos do  grupo  no  seu
movimento de ltao.

A transcrio n34  importante por abordar a  questo  da  f  daquelas
pessoas com deficincia, pois d uma mostra da sua espiritualidade.

As transcries de n 35 e n 36 mostram a avaliao que o grupo fez, no
fim do ano, da sua prpria caminhada. Possibilitam  que  o  leitor  e  a
leitora conheam a opinio dos participantes sobre os efeitos  do  grupo
em suas vidas.


 as transcries foram selecionadas propositalmente, para dar uma  viso
geral do processo  de  amadurecimento  do  grupo,  seu  nicio,  meio  e
encerramento.

as outras questes foram percebidas ao longo destes nove  meses,  mas  
necessrio aqui pinar os processos considerados mais importantes para o
endendimento da validade de um grupo de aconselhamento dessa natureza.


Da catarse

Num grupo que rene pessoas que tm dificuldades e problemas aqui  todos
com deficincia, existe a possibilidade de ocorrer momentos de  catarse.
Algum participante, sentindo-se acolhido, num




clima de confiana, permite o esvaziamento de  suas  emoes  at  ento
reprimidas. A catarse tem um efeito salutar, possibilitando um alivio da
angstia. De certa forma, a catarse muda a  maneira  de  encarar  o  que
antes fazia mal, pois  uma forma de conscientizar a experincia sofrida
que foi sufocada.

O simples alivio emocional no  o que provoca uma mudana  de  atitude,
mas sim a aceitao dos aspectos revelados e o apoio demonstrado de  uma
forma afetiva pelos outros participantes. A pessoa comea a ver que,  se
outros a aceitam,  porque no  uma pessoa to inaceitvel e incapaz de
inspirar afeto como imaginava.

Muitas  vezes,  a  catarse    acompanhada  de  choro  forte,  s  vezes
convulsivo, outras vezes de raiva, seguida  de  dor  e  choro.  O  grupo
permitiu que isso ocorresse, no  impediu o desabrochar das emoes  por
medo de lidar com elas ou por constrangimento, mas suportou o choro e  o
desabafo  silenciosamente,  sustentou  o  momento  de  sofrimento     do
participante de forma amvel, sem pressa, tolerou com firmeza.

Numa sesso, o grupo assistiu ao  filme  Sobre  Rodas.  O  filme  mostra
pessoas com  deficincia  fsica,  caderantes,  fazendo  bal  em  suas
cadeiras-de- rodas. O filme  possibilitou que o grupo discutisse como os
outros vem as pessoas com deficincia:

Artur - Alguns usam a viso da razo, que diz que a pessoa deve ter seus
contornos perfeitos, no se usa o sentimento pra  definir  o  que    um
corpo belo ou bonito. (Fala com raiva.) A partir do momento  que  o  ser
humano desliga um pouquinho da razo e usa o corao e  os  sentimentos,
ele vai ver que a beleza  uma questo pessoal  de cada um ver. (Falando
muito alto.) Talvez o que seja bonitinho para o Marcelo,  seja  lindo  e
maravilhoso para mim. No existe um padro de beleza, pra qualquer  tipo
de coisa, seja para um lugar, seja para um automvel, seja para uma casa
ou pessoa. Eu  acho  determinado  tipo  de  mulher  maravilhosa,  o  que
podenoserpara o Marcelo.  Mas isso no vai dizer se ela  mais feia  ou
mais bonita. Tudo depende de como  a concepo de cada  pessoa.  (Quase
gritando.) S que no nosso caso j se criou uma  imagem-padro, de que 
bonito o corpo bonito e corpo perfeito, magrinho e esbelto. E  quem  no
est dentro disso, totalmente ereto, j foge do padro. (Voz embargada.)
Se forem avaliar uma pessoa pelo que ela ...  difcil para mim  tentar
um bom relacionamento com a famlia, parece que as pessoas fogem de mim.

Joana - Mas essas pessoas que fogem de ti no tm sensibilidade...

Artur - Eu chorei, eu  choro  e  vou  continuar  chorando.  Aspessoasno
entendem, mas, s vezes, eu  choro  sem  um  motivo  especfico...  (Voz
embargada.) s vezes, eu vejo que o deficiente no tem poder de ao...

Joana - A gente tem fases na vida bem pra baixo, outras  vezes  a  gente
supera, mas tem que ir sempre em frente...

Artur - (Falando com raiva novamente.) No  questo de ficar deprimido.
Eu estou sempre com sorriso no rosto e  as  pessoas  comeam  a  invadir
espaos na minha vida que eu nunca  abri.  Minha  me  j  est  ficando
velha, meu irmo  est  casando,  minha  irm  est  ficando  moa...  e
eu...?Como  que eu fico...?

(Silncio.)

Artur pde, neste momento, demonstrar a  dor  de  ser  diferente  e  no
preencher as condies necessrias do padro  de  beleza  exigido  pelas
pessoas com quem convive.  No ser ereto  nem  ter  contornos  perfeitos
coloca-o em posio inferior a um homem  musculoso  na  disputa  por  um
relacionamento com mulheres.

Essa sensao de ser menos do que outros, que,  segundo  ele,  advm  da
avaliao racional das pessoas, leva Artur a  sentir-se  impotente,  sem
ao. Embora no admita  isso, precisa ter sempre um sorriso nos  lbios
para no deixar transparecer sua dor de sentir-se assim, em  desvantagem
em relao aos homens de corpos perfeitos.

Essa valorizao do perfeito dificulta seus relacionamentos, pois tem  a
sensao de que as pessoas fogem dele e isso ocasiona que  chore  muito,
s vezes, sem razo.  A razo, expressa logo a seguir,  o medo de ficar
sozinho, pois a me est ficando velha e o irmo e a irm esto buscando
outros rumos. Ele fica.

Todas essas emoes estavam, provavelmente, h  muito  tempo  sufocadas,
impedindo-o de ser mais  feliz.  E  no  grupo  teve  a  oportunidade  de
trabalh-las.

Joana tentou dizer-lhe que,  realmente,  algumas  pessoas  no  usam  os
sentimentos para definir os outros, que no tm sensibilidade e por isso
fogem. Ainda tentou persuadi-lo  a entender que existem fases em que  se
est mais fragiLizado diante destas concepes e outras em que  se  est
mais forte aponto de super-las.

Ogrupo no s permitia a catarse, como sabia lidar de forma  madura  com
ela. Veja-se outro exemplo numa sesso em que se falou  sobre  "o  lugar
que Deus ocupa em minhavida":

Joana - Quando eu era  adollescente,  eu  me  questionavamuitoporque  eu
tinha esse problema. Desde pequena estudei em escola bati sta, aceitei a
doena, mas porque eu pensava que podia ter  outras  piores.  Perguntava
por que Jesus  no  fazia  um  daqueles  milagres  comigo.  Mas  tu  vai
amadurecendo e aceitando. Ser que existiam mesmo aqueles milagres?

Ana - Ea que concluso tu chegou?

Joana - (Dando uma gargalhada.) Por que no  aconteceu  milagre  comigo?
Sei l, acho que so provas, nunca mais fiquei pensando,  eu  aceitei...
Ira - Eu acho que o milagre  conseguir  fazer  o  que  fazemos  com  a
deficincia.  conseguir ser feliz como somos.

Ogrupo foi avanando no assunto e,  em  seguida,  ocorreu  uma  exploso
emocional em Ana:

Ana - (Numa exploso  de  choro.)  Me  emocionei  quando  ela  falou  em
milagre... (Dificuldade  de  falar  devido  ao  choro  intenso,  secando
lgrimas.) H pouco tempo, fiz  uma ressonncia  magntica  e  passei  a
noite inteira acordada pensando: "Amanh  o  milagre".  Eu  queria  que
aquele exame estivesse completamente diferente. Rezei  desesperada,  com
rosrio, pedi, pedi... (Choro convulsivo.) E o exame saiu pior... Fiquei
to decepcionada. Fiquei com medo. Vem  a  paralisia...  bom,  mas  lno
grupo tem gente que no caminha.., vem aparalisia nos braos...  bom,  o
Marcelo t vivendo... a vem os olhos, a cegueira... bom!... a  cega...
paraltica... Pedi que Deus me tirasse a  conscincia,  ento...  Passei
uma noite inteira rezando. Droga!

Joana - O medo  uma coisa normal...

Ana - Eu sei que pode no vir toda  essa  previso  do  exame...  mas  e
desagradvel saber... Vilma - Essa espera te machuca...

Ana -  horrvel... (Secando lgrimas, mais calma, se recompondo.)

Sentindo no grupo um espao seguro e compreensivo, Ana faz  um  desabafo
emocional, confessando que esperou um milagre de Deus  na  transformao
dos resultados de seus    exames.  Os  resultados,  infelizmente,  foram
piores do que os anteriores. A doena tinha avanado e, com isso, veio a
decepo com Deus: ele no ouviu as  suas  preces.    Veio  o  medo  das
previses de deficincias muito limitantes: paralisia nos braos  e  nas
pernas e cegueira. Isso seria demais e, ento,  pediu  a  Deus  que  lhe
tirasse  a conscincia.

Acatarse, ou seja, a revelao de sentimentos  opressivos,  possibilitou
que os demais participantes comunicassem aAna que compreendiam sua dor e
sua raiva em relao  a Deus. O grupo respondeu com  sentimentos  e  no
com respostas racionais, sendo muito emptico  com  ela.  Transmitiu-Lhe
que o medo faz parte da vida  e  que  a  espera    pelos  acontecimentos
previstos nos exames a prejudicam, mas que, mesmo assim, essa sua  raiva
 plenamente compreensvel, o que a tornou uma pessoa aceita  no  grupo,
apesar das confisses dolorosas.

Num  relacionamento  de  confiana,  os  aconselhandos  podem    encarar
sentimentos poderosos - tais como culpa intensa,  raiva,  pnico,  baixa
auto-estima e impulsos sexuais  - e, lidando com eles, romper seu efeito
sufocante sobre suas vidas.

Num grupo assim, onde as mscaras caem e a aceitao e o acolhimento  se
sucedem,  possvel fazer a experincia de  ser  aceito  e  amado  pelas
pessoas. Somente experimentando a aceitao da parte das pessoas    que
conseguimos experimentar tambm a  aceitao  e  o  amor  de  Deus  numa
comunidade teraputica.

Apossibilidade de expressar sentimentos corrosivos traz    lembrana  o
que ela viveu, possibilitando uma  reordenao  de  significados  destas
experincias, alm do  que, confessar  sentimentos  escondidos  sem  ser
rejeitada  uma experincia curativa e transformadora.


De como o grupo confrontou e desafiou

As pessoas do grupo no fizeram somente papel de ouvintes,  no  somente
aceitaram e empatizaram com o sofrimento dos outros, tambm confrontaram
quando  acharam  necessrio,    possibilitando  novas   reflexes    aos
participantes. O grupo, muitas  vezes,  desafiou  seus  participantes  a
tentarem uma nova postura diante de seus problemas, a sairem    de  suas
posies em parte rgidas e tentarem uma outra maneira de viver,  pensar
e encarar as situaes.

Numa discusso sobre a valorizao do que  se  pode  fazer,  apesar  dos
impedimentos devidos  deficincia, o grupo confronta Marcelo quanto  ao
tipo de trabalho que  ele conseguiria fazer, dentro  das  limitaes  de
sua tetraplegia:

(Ana contou que grava vamsicas em fitas cassete durante o tempo em  que
estava paraplgica e que esta era a nica  coisa  que  conseguia  fazer,
alm de se arrastar  pelo  cho  arrumando  as  gavetas  e  armrios  de
calados. Disse que at hoje escuta estas fitas com muita alegria.)

Ira - Mas tu abordaste uma coisa bem  importante,  que    descobrir  o
potencial que sobrou, ou ento, redescobrir coisas que antes tu  nem  te
davas conta que poderias  fazer.  Tudo  que  se  consegue  tem  que  ser
enormemente valorizado.

Ana - A gente tem que valorizar mesmo. (...) Tenho um parmetro de  como
eu era e como estou com funes normais de novo e no  valorizado pelos
outros. Ento eu  mesma tenho que valorizar o que eu  fazia  quando  no
podia caminhar nem me mexer. Hoje acho muito bom o que eu fazia. No  d
para esperar que os outros valorizem.

Ira - Agora me ocorreu  que,  s  vezes,  tem  programas  de  televiso
timos, que eu gostaria de assistir, mas que so muito tarde. O  Marcelo
poderia grav-los, j que  passa a noite acordado. Tu mexes no controle?

Marcelo - Sim...

Ana - O nosso problema l em casa para  olhar  o  "Sai  de  Baixo"    o
horrio e no sabemos  usarovdeo  para  gravar...  Ira  -  As  pessoas
poderiam te dar a fita, tu gravarias e cobrarias por isso...

Ana - Mas claro!

Ira - Tambm j tinha pensado, como o Marcelo v muitos vdeos, poderia
escrever comentrios para o jornal da cidade..,  bem informado, conhece
sobre artes...

Marcelo - Crnicas...

Ira - O problema  pensar: o que eu posso fazer?

Ana - E concretizar o que poderia ser feito agora  para  ganhares  algum
dinheiro... Tu tens vdeo?Jfazesisso?

Marcelo havia dito no grupo que pintava com a boca, mas  s  por  hobby,
quando estava inspirado, ao invs de  usar  esta  sua  potencialidade  e
outras como gravar programas de TV e escrever  crnicas,  para  aumentar
seus recursos financeiros. Para as pessoas  mais comum avaliar  tudo  o
que perderam com a deficincia do que perceber o que ainda podem fazer.

Ogrupo desempenhou aqui um papel fundamental de conscientiz-lo  de  que
essas atividades tambm podem serremuneradas  eto  valorizadas  como  o
trabalho que tinha antes do acidente  e  ainda  lhe  trazer  um  retorno
financeiro maior do que possua.

O grupo confronta e desafia, porque vislumbra aspectos  davida  de  seus
integrantes para alm do olhar que eles mesmos tm sobre a sua vida.

Nem sempre  fcil confrontar e desafiar. Algumas vezes, ficou um  pouco
de sentimento de culpa nos participantes (que, em  sesses  posteriores,
foi abordado),  por  terem  insistido  demasiadamente  em  algum  ponto.
Veja-se mais um exemplo.

Vilma, quando contou sobre sua famlia, relatou sobre  o  alcoolismo  de
seu marido, as tentativas de ajud-lo, os problemas srios  causados  no
seu relacionamento22:

Joana - Tu nunca deste uma outra chance para ele?  Falou  seriamente  em
fazer um tratamento e a relao de vocs melhorar?

Vilma - Dei muitas. Ele prometeu parar  de  beber  muitas  vezes...  Ele
tambm fuma. s vezes dorme com cigarro aceso,j queimou cobertas...


Joana -Ele no  uma pessoa m. Te d todo o dinheiro... ele precisa  de
um tratamento, a seria uma tima pessoa.

Vilma - Ele  bom quando est so, mas no  socivel.

Joana - Mas quem no tem defeito,  Vilma,  no  s  fsico,  mas  outros
defeitos e manias...

Ana - Alcoolismo  uma doena. Eles no tm poder de deciso. A    que,
muitas vezes, tem que tomar a deciso. Eles no  participam  da  vontade
inicialmente. O AA pode ajudar muito.(...)

Vilma - Tenho minhas dvidas se ele no consegue decidir, porque teve um
dente inflamado e no bebeu durante o tratamento e era fim-de-semana...


Ana - O alcoolismo no se caracteriza pela tomada de pequenas  decises,
 o eterno retorno. Ele no consegue deixar de voltar  bebida...

Vilma - Ele tem umas amizades... so tudo assim...

Marcelo - O  apoio  amoroso  tambm    importante...  motivar,  animar,
retomar o namoro...

Vilma - Esse lado ns no temos  problemas.  O  lado  amoroso    s  de
segundas a quintas. Quando ele bebe, que no chegue perto.(Risos.)


Joana - No sei se  devo  dizer...  Desde  o  inicio  do  grupo,  quando
contaste tua histria, agente viu que tu s muito ligada  tua me.  Ela
 muito Preocupada contigo, por causa da tua doena. Tambm acho que teu
relaciolamento com teu marido... isso atrapalha muito... morar com a me
desde o incio. Acho que  no  ia  dar  certo  com  meu  marido...  Isso
influencia muito o teu relacionamento com teu marido. Essa concluso  j
tirei desde o incio, mas nunca quis falar... (...)

Aqui o grupo confronta o relacionamento de Vilma com seu  marido  e  com
sua me.  informada de que o  alcoolismo    uma  doena,  mas  no  se
convence, duvida que seu marido no  tenha  a  capacidade  de  parar  de
beber. Suspeita que  a influncia das amizades dele que o leva  para  a
bebida.

O grupo insiste em mostrar o que ela no quer ver: de que o marido  uma
pessoa boa, que tem defeitos como todo mundo, mas lhe d todo o dinheiro
para a manuteno da famlia e que necessita de  um  tratamento  para  o
alcoolismo.

Mais ainda, o grupo aponta seu apego  me como um  ponto  agravante  na
relao com seu marido. A dinmica de sua famlia    diferente,  porque
Vilma no se desligou da me.  A  problemtica  no  est  ligada  s  
deficincia, mesmo antes de descobrir sua doena, j morava com  a  me.
Quando solteira morava com a  me  e  continuou  morando  l  depois  de
casada. O surgimento da doena s veio reforar o apoio e  a  influncia
que sua me j tinha sobre ela.

Indiretamente, o grupo est propondo que ela se desligue da me, coloque
limites nessa relao e que assuma seu lugar de esposa, encami nhando  o
marido a uma terapia ou tratamento. Nem sempre so sugestes  fceis  de
fazer, mas o grupo aposta no seu clima de coeso e investe num desafio a
Vilma, pois percebe que uma mudana nesta dinmica familiar teria muitos
ganhos secundrios.

Outro exemplo de confrontao: Quando Ana j participava h  dois  meses
do grupo, teve a oportunidade de contar sobre  suafamlia.  Relatou  que
seu marido e  sua  filha    so  muito  distantes  dela  desde  que  foi
diagnosticada sua doena. Inclusive acredita que  o  distanciamento  que
sua filha tem com ela  estimulado pelo pai:

Simone - No existe uma pessoa que poderia te ajudar com tua filha?  Ela
deve estar com toda essa dor dentro  dela.  Ela  precisa  conversar  com
algum sobre a situao para ficarna verdade dela mesma.

Ana - No consigo levar ela para a psicoterapia, ela no quer...

Lira - Mas acho que isso  resistncia  dor, Ana. Prepararam  ela  para
perder a me a qualquer hora... Ela vive sofrendo, separada da me.  No
valeria muito mais  a pena viver sofrendo, mas junto da me?  Mas    tu
que sabes melhor...


Joana - Ela ainda sofre duplamente: com teu problema e com  a  separao
de vocs. Ela nota que a relao de vocs no   legal  e  ela  sente...
Ento ela fica bastante  carregada  e    uma  fase  difcil  apuberdade
tambm.

Ana -Ah! Ela  uma criana cheia de problemas. Pra acrescentar, na poca
que me desenganaram, minha me perguntava o que ela poderia  fazer  para
me ajudar. Eu dizia: "Leva a X. para passear e distrair. (...)


Vilma - Eu queria perguntar... e o relacionamento da tua filha  com  teu
esposo  melhor?

Ana - Ela  ambivalente. Porque ela percebe que ele   diferente  comigo
do que com os outros.  forte, ativo, bom, tira a camisa  do  corpo,  se
algum recsa,  comunicativo, benquisto, se doa, mas para mim  no,  em
casa no. Ela no deve aprovar isso... Ele  uma excelente  pessoa,  mas
no para mim... Para mim s d dinheiro,


Simone - Ele tambm no procurou ajuda?

Ana - Ah, no!Ele no admite que tem problemas. (1)

Simone - Sim, no tem problemas, mas acho que  dentro  dele  deve  estar
procurando respostas para a vida dele...

(...)


Simone - E sua filha tambm deveria saber como era a vida antes  de  sua
doena,para dar valor  vida como era antes... porque ela  vai  entender
melhor com o tempo.

Marcelo  -  Ela  vai  imaginar  o  que  tu  ests  sentindo   agora    e
compreender...

Simone - Mais tarde na vida ela vai pensar em tudo.

Iara - Acho que agora que ela tem onze anos  vocs  poderiam  tentar  um
novo comeo... porque tudo que  foi  previsto  no  deu  certo.  Tu  no
morreste, talvez tenhas muito tempo pela frente...

Simone - Eu acho que ela est contente com uma me assim  to  bonita...
no se v em voc a doena...

Vilma - Ela precisa muito do teu apoio agora na adolescncia.

Iara - A X. no quer te amar para no te perder...  uma resistncia.

Ana - Pode ser...

Um grupo de aconselhamento teraputico possibilita que as pessoas entrem
em contato com suas emoes e situaes e possam  avali-las  com  novos
olhos, baseadas em opinies que  consideram  importantes,  pois  so  de
pessoas que se no  tm  dificuldades  iguais,  tm  dificuldades,  pelo
menos, semelhantes. So momentos teraputicos porque colocam as  pessoas
frente s suas necessidades profundas, proporcionando cura,  crescimento
e reconciliao consigo mesmas e com Deus.

A filha de Ana est distante dela desde o  diagnstico  de  sua  doena.
Espera a morte da me. Seu pai  a fora para agentar esta dor, e,  por
isso,alia-se a ele, mesmo no aprovando o modo como ele trata  sua  me.
Querem ajuda profissional.

Ana e sua famlia parecem no querer investir mais nas emoes  para  se
reencontrar, por medo da dor. Na  ameaa  frente    sua  morte,  evitam
aprofundar-se e falar do luto que j vivem.

O grupo percebeu que ela prefere congelar sua tristeza  e  raiva  e  ser
mais racional para evitar  uma  catarse  na  famlia,  que  seria  muito
dolorosa, embora salutar. Percebendo este jogo, o grupo  instiga  Ana  a
arriscar e investir nas emoes, tentando  reconstruir  sua  famlia.  O
grupo a estimula a buscar uma aproximao com sua filha, pois v que  h
chances e tempo para isso. A filha passa pela fase da puberdade e j no
 to pequena que no possa entender como era a vida de todos  antes  da
doena e como pode prosseguir, quem sabe, por um longo tempo ainda.




De como o grupo animou

O grupo no s permitiu a catarse, confrontou e  desafiou.  Soube  ainda
animar as  pessoas  nos  seus  momentos  difceis,  nas  situaes  mais
frgeis.

Marcelo comeou a participar do grupo na segunda  sesso.  Contou  sobre
sua vida, a causa da sua deficincia, como era antes e o que  faz  hoje.
Estava deprimido, com a voz muito fraca, sem animo:

Joana - O Marcelo falou que o que ele mais gosta de fazer  desenhar com
a boca. Pxa, isso eu acho uma coisa bacana. Se tu tens um negcio assim
que tu... n... Teus pais devem ter feito alguma coisa para  tu  ter,  e
pegar as folhas de desenho... para tu desenhar... outra coisa... tu  no
gostas de ler?

Marcelo - Eu gosto...

Vilma - Isso  uma coisa que tambm distrai.

Ira - Eu fiquei impressionada que tu desenhas com a boca. Eu no sabia,
Marcelo. Gostaria de conhecer os teus trabalhos.

O grupo precisou descobrir pontos de apoio para que Marcelo  continuasse
a participar do grupo. Um ponto de apoio o estmulo  ao  que  ele  sabe
fazer, e que provavelmente  no  muito valorizado por ele: pintar com a
boca. Alm de ser uma novidade para o grupo algum que pinta com a boca,
 tambm uma mostra de que, por maior que seja  a Limitao de algum, 
possivel produzir ou criar algo.

Marcelo veio to plido, descabelado e com voz to fraca que o grupo  se
impressionou e se mobilizou para ajud-lo.  O  grupo  percebeu  que  ali
havia  um  potencial  grandioso  sendo  desperdiado   devido    a    um
desajustamento e depresso pela falta de convivio com outras pessoas que
tambm tm uma deficincia. O grupo, assim, animou-o a participar.

Um grupo se auto-anima tambm quando ouve sobre as convices  dos  seus
participantes. H uma troca de experincias, uma confisso de valores em
que acreditam, que  estimula todos a  desendeusarem  as  concepes  que
existem e que marginalizam e a tentar modificar suas prprias convices
pessoais. Isso est bem ilustrado no trecho  que vem a seguir.

Depois de assistir ao filme Sobre Rodas, Artur faz uma reflexo sobre  a
deficincia, que, de certa forma,  acaba  motivando  os  integrantes  do
grupo a reverem suas  concepoes:

Artur - Eu acho que no  uma cadeira-de-rodas ou um par de bengalas que
vai matar o ser humano por dentro. Tudo bem, se ele tem uma  deficincia
total ou parcial nos membros, t morto nos membros, mas no t morto  no
corao, no seu sentimento, naquela coisa bela  que  ele  tinha.  Talvez
depois de se tornar um portador de  deficincia    fsica,  aquele  lado
humano, carinhoso, tenha vindo mais  tona do que antes. Tem  problemas,
 um ser humano, e nada pode tirar isso de dentro da gente,  a  no  ser
agente mesmo. Ogrupo tambm animou  seus  integrantes  a  investirem  em
relacionamentos interpessoais. Nas sesses do grupo,  Artur  passou  por
momentos  de  catarse,  nos  quais  o  grupo    o  confrontou  com   seu
relacionamento familiar, mas soube, igualmente, anim-lo:

Vilma -Aquela colocao que tu fez da tua familia se chocou  com  o  que
conhecemos de ti. Tu j falou com tanto carinho outra vez do teu  irmo,
da tua irm e aquele  dia tu falou to friamente. Por isso  comeamos  a
ser duros, porque sabamos que no era bem aquilo. E como euj te disse,
eu aprendi a gostar de ti, mas tu demonstra ser outra coisa e  quando  a
gente vai te conhecendo tu vai mostrando cada pedacinho como tu  s.  Eu
acho que tu podes contar sempre com  agente,  tu  sempre  vai  teramigos
aqui para se abrir, pode at chorar, tuj me viu chorar e  foi  bom.  Eu
creio que assim tu vais achar um caminho mais fcil. (...)

Ana -Sobre tua me, eugostariade dizer que no  bom agente pensar que a
progenitora   tambm  a  causadora  daquilo  que  est  te  dando  mais
bloqueios. Quando desenvolvi  diabetes tambm foi minha inteno  culpar
minha me. Ento esta fantasia que tens quanto  tua me ter te  causado
esta dificuldade mais sria, t te trazendo muito sofrimento. Tu no  s
o soldado que cai, tu s algum importante para esse grupo. Gostei de te
ver. Eu estou esperando por esse grupo. Alguma coisa  me  traz  aqui  e,
olha que eu fao terapia, mas  no  estava  me  completando.  Vocs  so
importantes, todos vocs, tu tambm, ento tu no s o soldado que  cai.
(...) Em algum grupo ns  somos  importantes.  (...)  No  conheo  atua
histria,  mas  tenho  certeza  que  em  outros  lugares  tu  tambm  s
importante.

Artur  j  havia  demonstrado  muito  carinho  por  sua    famlia    e,
recentemente, falou dela com amargura e frieza, demonstrando que ningum
se importava com ele. O grupo no aceitou de imediato esta  colocao  e
preferiu ento espelh-lo. Algum sugeriu que ele deveria se abrir mais,
chorar, mostrar seus sentimentos, enfim, deixando cair as  mscaras  que
usa para conviver nos ambientes que freqenta e, principalmente, com sua
famlia.

Artur, provavelmente, evita sofrer e, por isso, demonstra para a famlia
e conhecidos que no precisa  de  ningum,  que    auto-suficiente,  um
soldado.

O grupo animou-o a tentar outro tipo de relacionamento interpessoal,  no
qual as emoes fossem  mais  consideradas  e  no  qual  no  precisasse
escondertanto o que sente. Esta maneira talvezfosse mais  fcil  do  que
aquela que at agora vinha experimentando.

O relacionamento difcil com a sua me advinha do fato de  ele  culp-la
indiretamente de ser a causadora de sua paralisia cerebral,  e  o  grupo
tenta esclarecer que  uma fantasia que lhe  traz  muito  sofrimento,  a
ponto de no considerar-se importante para ningum.

Artur refletiu para o grupo a sua prpria imagem e o  grupo  devolveu  a
ele os diferentes aspectos, propiciando-lhe uma anlise de si mesmo e do
expediente  que  usa  para  se  relacionar.  O  grupo  tambm  ajudou  a
reorganizar certos aspectos de convivncia com  sua  famlia,  que  eram
difceis e no lhe agTadavaxn.

Alm de animar algum a participar, a mudar as concepes e  a  investir
mais em  relacionamentos  interpessoais,  o  grupo  tambm  animou  seus
integrantes a terem um relacionamento  com Deus.

Naquela sesso em que Ana passou por  uma  catarse,  por  causa  de  uma
discusso sobre milagre e olugarque Deus ocupa  navida  de  cada  um,  o
grupo tambm soube anim-la  a reavaliar sua f:

Lira - Penso que, muitas vezes, pedimos determinado milagre para Deus  e
ele realiza outra coisa. Isso  muito pouco para te dizer,  mas  ningum
pode te passar essa certeza, nenhum de  ns  pode  te  dar  essa  f  de
presente e dizer: fica tranqila. Tu podes ouvirnossas convices...

Joana - Essa esperana, Ana,  acho  que  a  gente  no  deve  perder.  A
esperanado milagre tambm no se deve perder. No teu caso agora,  ficar
sem se agarrar e rezar,  eu acho que no  ia  conseguir  tambm.A  gente
precisa de Deus, ele no vai atender todos os meus pedidos, mas sei  que
ele no vai me deixar. Eu preciso dele. E essa  esperana  eu  acho  que
agente sempre pre cisa ter. Pode ter ressonncia magntica, um monte  de
exames, mas, se Deus quer que as coisas corram  diferente,  elas  correm
diferente.

Ana - Tem dias que d, mas, em relao a Deus, eu tenho que brigar...

Lira - A Biblia est cheia de passagens onde pessoas questionam e brigam
com Deus, porque ele  tambm um Deus prximo, que d para xingar...  os
Salmos, por exemplo,  se quiseres ler... (...)

Simone - Eu estava pensando que  um  milagre  voc  estar  aqui  se  j
passou por tudo aquilo que nos contou... Deus deve ter muita coisa  para
voc ainda, seno no  estaria aqui. Depois de tudo que  voc  passou  e
ainda to bonita e viva, realmente pode dar valor. Agradece sua  vida  e
briga tambm com ele.

Lira - Tem um agravante ai, Ana: tu s  mdica  e  ests  sempre  com  o
diagnstico  na  frente  do  nariz.  (...)  Tu  no   consegues    tirar
umadistnciada medicina e isso te  tensiona muito.A medicina  tem  muito
mais peso para ti do que o milagre  que  j  aconteceu  contigo,  que  
estares inteira, aqui. Embora  tenha  tu  do  previsto  para  ti,    no
aconteceu.

Vilma - A medicina mostra muito a realidade e quem no est  perto  fica
na esperana e na f.

Neste trecho podem-se perceber alguns conceitos  teolgicos.  Ana  pediu
por um milagre: que seus  exames  fossem  completamente  diferentes  dos
ltimos,  atestando  que  sua  doena  fora  curada.  Este  milagre  no
aconteceu e,

por isso, veio a frustrao com Deus para quem havia  pedido    tanto  a
transformao da doena em sade.

Aqui est embutida uma concepo de  milagre  que  j  foi  abordada  no
segundo capitulo, que mais prejudica do que  beneficia  as  pessoas  com
deficincia. Para Ana sentir-se  curada seria necessria a  ausncia  da
doena em todos os exames,  como  num  passe  de  mgica.  O  milagre  
confundido com mgica.

As pessoas do grupo disseram que, embora Ana no  aceitasse,  o  milagre
havia ocorrido, pois ela estava  viva,  recuperada  de  quase  todas  as
seqelas anteriores da doena  e bonita, apesar de todas as previses de
tetraplegia e cegueira  que  o  exame  de  ressonncia  magntica  havia
trazido.

Uma outra dimenso de ser curada foi a apontada  para  Ana,  que  seria
viver da melhor forma possvel, integrada  em  sua  famlia  e  em  seus
grupos com a doena. Para  ela, no entanto, esta reintegrao e volta  
vida considerada normal s ocorreria com a cura da doena.

O grupo ainda falou em esperana contra toda a desesperana,  pois  Deus
poderia fazer as coisas  completamente  diferentes  do  prognosticado  e
estimulou-a a manter seu   relacionamento  com  Deus,  mesmo  que  fosse
brigando, porque  um Deus prximo que ouve os clamores.  Difcil  seria
ficar sem acreditar em Deus,  no  ter  onde  se  apegar    e  sentir-se
completamente sozinha.

Assim sendo, em muitos momentos o  grupo  pode  exercitar  o  versculo:
"Levai as cargas uns dos outros", de Glatas 6.2, para  que  sejam  mais
leves,  para  que  possam  seguirjuntos  compartilhando,  para  que   os
relacionamentos interpessoais conduzam ao relacionamento com Deus.


Da descoberta da importncia do grupo

As pessoas do grupo foram se dando conta da importncia do grupo em suas
vidas. Umas perceberam isso logo no incio, outras, ao longo do trabalho
conjunto. O grupo  foi importante porque tirou algumas pessoas da rotina
de ficar s em casa e  porque  as  conscientizou,  juntamente  com  suas
famlias, sobre o que significater uma deficincia  no  contexto  social
em que vivemos.

A importncia do grupo, segundo as pessoas que participaram,  foi  a  de
visualizar e comear  a  projetar  mais  a  sua  independncia  de  suas
famlias, de sentirem-se ajudadas  mutuamente  frente  a  situaes  nas
quais antes se sentiam solitrias, de conhecer gente nova e haver  troca
de informaes e afeto.

Ogrupo foi importante, porque tiveram a oportunidade  de  conhecer  mais
sobre as diferentes deficincias que existem,  porque  aprenderam  a  se
comunicar com mais segurana com sua famlia. Tambm porque  ali  podiam
ser elas mesmas, ficar tristes ou contentes, no  disfarar  nem  mentir
sobre emoes. Vilma, no seu relato de vida, ressalta a  importncia  do
grupo na conscientizao  de  sua  deficincia:  Vilma  -  Bem,  no  meu
objetivo eu coloquei: me encontrei entre vocs. At eu comear  aqui  eu
sempre vivi entre pessoas ss, nunca estive ligada  com  a  deficincia.
Eu lembro do primeiro encontro, quando a Ira foi buscar todos ns.  Ela
fez uma brincadeira dentro do carro: atravessou  um  caminho  na  nossa
frente e a Ira falou que  ele no podia baterem ns,  porque  s  tinha
pessoas sem deficincia ali dentro. A partir daquele momento, eu comecei
a prestarmais ateno em mim, em vocs todos  e na  deficincia  em  si,
pois at aquele momento eu no tinha me dado conta que eu tambm era uma
pessoa com deficincia. Eu s sabia lidar com pessoas ss. Eu aprendi  e
cada vez aprendo mais. Por isso eu me encontrei entre vocs.

Vilma, de certa forma, encontrou seu grupo,  pois  at  aquele  momento,
sentia-se  uma  estranha  entre  seus  familiares  por  no  se   sentir
compreendida e por sentir-se  muito diferente deles, no se dando  conta
de que era diferente, porque no tinha  se  descoberto  ainda  como  uma
pessoa que tinha limites e  precisava  aprender  aviverbem    com  eles.
Somente no grupo deu-se conta disso, possibilitando que suafamliatambm
aprendesse. Quando  chegou  a  vez  de  Marcelo  contar  sobre  momentos
importantes de suavida, tambm demonstrou o valor do grupo em suavida:

- Marcelo - No hoje (o momento atual de sua vida), eu desenhei  a  minha
casa, meu mundo. Eu no saio de casa sem ter um objetivo que me  agrade.
Aqueles riscos  coloridos ali representam cada um de vocs do grupo. Meu
hoje  estaraqui com vocs. (...)

Para Marcelo, o grupo tornou-se o objetivo de  sua  vida,  ali  aprendeu
sobre seus limites, sobre a importncia de projetar mais a independncia
de sua famlia, sobre descoberta e valorizao  das  potencialidades  de
cada um.  Tambm  ali,  fora  de  sua  famlia,  fez  a  experincia  de
relacionamentos interpessoais afetivos.

Uma ltima ilustrao sobre a importncia do  grupo  na  vida  dos  seus
participantes: O grupo foi muito  importante    medida  que,  de  certa
forma, os participantes transmitiram  amor entre si e ajudaram a mudar a
opinio das pessoas que no tm uma deficincia  sobre  as  pessoas  com
deficincia, como expressa Artur:

Artur - (...)Amar  preciso. Acho que isso  uma forma dese dar amor.  
uma coisa slida, consistente, palpvel, visvel...

Ira - Tu queres dizer que estarmos reunidos  um gesto de amor?

Artur - De um para o outro e com os demais tambm. Agente,  querendo  ou
no, est servindo  de  espelho  para  as  outras  pessoas,  est  sendo
observado, notado. T sendo feito um marketng de uma forma ou outra  em
de nossas atitudes.

Ira - Certo... de ns sai uma opinio sobre as pessoas com  deficincia
- E... sabe, minha famlia agora est se conscientizando da deficincia,
s agora que sou portadora de deficincia  que esto se  concientizando
de como a fora tem pessoas com deficincia.  A  me  falou:  "Como  tem
pessoas com deficincia, agora a gente v". Eu disse: "Pois  me, amtes
vocs e eu no me dava conta". Eu no tinha me aberto  ainda  para  esse
lado, eu sabia que tinha umadoena, mas no me sentia normal.

O grupo possibilitou que seus  participantes  no  s  se  modificassem,
tambm modificassem seu contexto familiar e a prpria comunidade onde se
reuniam.


Da resistncia

Um  fenmeno  considerado  normal  na  vida  de  qualquer  grupo      a
resistncia. Ela pode tanto servir de empecilho ao  processo  do  grupo,
pode ser uma forma de proteo do grupo em resistir ao lder, ou  de  um
participante resistir ao outro para se manter  autnomo.  A  resistncia
aparece de forma muito sutil, s  vezes,  ou  de  forma  mais  aberta  e
declarada.

Podem  acontecer  desde  atrasos  e  esquecimentos,  causando  a  falta,
tentativa de  mudar  o  que  foi  combinado,  silncios,  surgimento  de
sub-grupos, dificuldade no  avano  dos  temas,  regresso  a  temas  j
superados pelo grupo, surgimento de um  participante  que  monopoliza  a
sesso, at o questionamento da capacidade do  lder,  o  questionamento
quanto ao sigilo, o esquecimento do que gostaria justamente de dizer,  a
ocupao de grande parte do tempo da sesso  com  assuntos  secundrios,
questionamento  quanto  aos  mtodos  e  tcnicas  usados  e   conversas
paralelas, entre outros.

A resistncia surgiu neste grupo por causa do medo de mudanas,  embora,
muitas vezes, as pessoas desejassem tais mudanas. O grupo temeu icar-se
e perder a velha segurana para assumir novas responsabilidades,  tambm
temeu a perda ou a diminuio do amor entre seus participantes quando da
entrada  da  nova  participante,  o  que  poderia  coloc-los  novamente
)lamento, como quando o grupo iniciou:  no  se  conheciam,  no  tinham
afetivos.

O grupo tambm resistiu  idia do encerramento do grupo, da dida  e  da
conseqente separao, poisas pessoas ficariam sem o apoio



dos outros integrantes por um tempo e a constelao do grupo no  prximo
ano poderia ser bem outra, com outros participantes. A resistncia  foi,
muitas vezes, um  fenmeno inconsciente.

Aqui, numa pequena amostra, ser  ilustrada  somente  a  resistncia  do
grupo em se abrir a novos  participantes.  O  grupo  est  discutindo  e
querendo chegar a uma concluso   quanto    entrada  ou  no  de  novos
integrantes:

Vilma - Eu me sinto dividida, porque eu acho que se deve dar chance para
novas pessoas que querem entrar, mas  tambm,por  outro  lado,  eu  fico
pensando: e o nosso  elo? Vai se abrir e ser que vai ser a mesma coisa?

Simone -  uma coisa que eu acho que no pode ficars parans. Acho  bom
compartilhar com outros de uma maneira ou outra.

Vilma - E o que eu penso tambm, todos tm o direito de ter essa amizade
que ns conquistamos...

Artur - Complementando claro, o elo vai se abrir, se alastrar, mas, como
a Vilma colocou, como ser que vo ficar as coisas depois? Eu  acho  que
tu tens uma idia  melhor do que  ns  (referindo-se    aconselhadora).
Pois quantas pessoas tu contactou para formar este grupo pequeno?

Ira - Contactei doze pessoas.

Artur - Quantas toparam, n? Eu acho assim: Vamos  contactar  um  nmero
maior de pessoas  que  tiverem  a  fim,  ou  melhor..,  as  que  tiverem
preparadas. A gente conhece  tanta gente com deficincia, mas nem  todas
esto preparadas para assumir uma postura e encarar a deficincia  e  se
assumir como ser humano. Acho que  um  risco  que    a  gente  tem  que
correr...

Iara - Vamos ver se eu consegui captar o que vocs disseram: Claro que 
bom ficar s ns seis. E bom, mas a gente sabe que outros precisam de um
grupo assim. Seria  importante outras pessoas crescerem  tambm.  O  elo
pode se romper, foi dito tambm. E eu quero acrescentar ainda: De uma ou
outra maneira vai se modificar, pois Joana  vai sair, j vai mudar...

Vilma - Vai dar falta...

Ira - Temos que trabalhar bem a sada de Joana, depois, se ela  quiser,
ela volta...

Joana - Sim, eu vou voltar.

Iara - Eu escutei tambm da Vilma: Se entrar uma pessoa nova, como vamos
nos sentir? Porque isso  assim, ns nos conhecemos, temos ligaes,  um
ajuda o outro no dilogo... Se entrar algum, que sentimentos vamos  ter
em relao a esta pessoa?

Vilma - E ela tambm pode vir meio receosa, porque  um grupo que estava
fechado...

Joana - Mas eu acho que agente  sempre  tem  que  dar  chance  para  uma
pessoa. Imagina se a gente estivesse no lugar de uma pessoa que quisesse
entrar...

Simone - Seria mais fcil se entrasse mais de uma pessoa. Se abrir, abre
j para trs ou quatro, todos de uma vez. Devagar, um ou outro... no

Vilma - Todos entrar de uma vez.

Artur - Abrir e iniciar o processo como foi com  a  gente,  normalmente.
Meu vnculo com Marcelo, Vilma e Joana era nenhum. Com Simone e Iara  j
existia. Se entrar uma pessoa que a Vilma convidou, inicialmente ela no
tem vnculo nenhum com a gente, mas tem  com  Vilma,  e  vai  criar  aos
poucos, se permitir, se descobrir e que agente descubra ela tambm.  Que
ela possa se despir sem medos, sem vergonhas e tabus. Assim, tambm  vai
criar vnculos com todos.

Iara - Quem vocs teriam vontade de convidar? Vocs tem algum em mente?

Depois de experimentar um forte sentimento de coeso,  o  grupo  ventila
possibilidade de se abrir. Duas vontades afloram e dividem o grupo: o de
permanecer como est e o de se abrir para novos participantes.

A resistncia se faz sentir de forma bem clara, atravs da  pergunta:  E
como ficam as coisas depois  que  entrar  algum  novo?  Esta  pergunta,
provavelmente, estava presente em  todos  os  participantes,  at  mesmo
naqueles que achavam que o grupo deveria se abrir.

A mesma pergunta poderia ser desmembrada em muitas outras: Como  fica  o
afeto que tinhamos uns pelos outros at aqui? Ser que essa  pessoa  vai
combinar conosco ou vai  ser  completamente  diferente?  Ser  a  pessoa
monopolizadora ou se ajustar ao processo de compartilhar  com  todos  e
tambm de ouvir a todos que o grupo se acostumou? Essa pessoa entenderia
e cumpriria as regras do grupo?

O argumento principal a favor da entrada  da  nova  participante  foi  o
grupo colocar-se no lugar dela, imaginando os sentimentos que surgem  da
vontade de querer muito participar, mas no ter acesso.  Esta  sensao,
de querer ser integrada e algum ou um grupo impedir, foi  a  verdadeira
motivao  para  a  aceitao  da  proposta  de  abertura,  pois   estes
sentimentos dolorosos de impedimento eram bem conhecidos de todos.

Da trajetria de um participante

Foi interessante perceber alguns processos  de  mudana  pessoal,  pelos
quais passaram alguns integrantes do grupo. Provavelmente todos sofreram
modificaes no seu jeito de agir, pensar, encarar sua situao,  devido
aos  relacionamentos  interpessoais.  Selecionou-se   um    participante
(Marcelo) que teve modificaes com contornos  bem  definidos  para  uma
exemplificao.

Ele ingressou na segunda sesso do grupo. Quase no saa mais  da  cama,
estava esqulido e plido. Sua voz era to fraca que alguns  integrantes
do grupo no o entendiam,  e nem o gravador conseguiu  captar  todas  as
suas falas. Primeiramente todos do grupo  se  reapresentaram  e  Marcelo
tambm o fez:

Marcelo - Tenho vinte e cinco anos e... moro com meus pais .......  e...
tive  leso  medular...  com  uma  arma  de  fogo  h   cinco    anos...
(silncio).., e o que eu mais  gosto de fazer... no tem  muito  que  eu
possa fazer... gosto de desenhar. Eu desenho  com  a  boca  no  lpis...
gosto de assistir filme no video e... desses cinco  anos  para    c  eu
estou (ogravadorno conseguiu registrara fala, mas ele  disse  que  est
tentando se internarnum hospital especializado para fazer  reabilitao,
sem precisar pagar, um hospital filantrpico).  (...)  Especializado  no
trabalho de reabilitao.., eles fazem cirurgias...  exerccios...  fico
aguardando ansioso... minha cabea  gira  rapidamente,  pensando  nessas
coisas todas... (silncio)... Numa rotatividade a mil...  pensa,  pensa,
pensa... e, e... isso est me tirando muito o contato com a  vida, com a
realidade. Fico isolado  entre  quatro  paredes...  os  meus  pais...  o
relacionamento est saturado... no temos mais muito a conversar..,  mas
isso j sai  do propsito que  se apresentar...

Iara - Acho que na apresentao ns ouvimos que  tu  te  sentes  isolado
entre quatro paredes e eu tenho a impresso que ns todos desejamos  que
esse grupo possa ser  uma ajuda para ti assim como  para ser uma  ajuda
para cada um de ns. Algum gostaria de dizer alguma coisa para Marcelo?

Artur - Assim... tu falaste que ficas muito sozinho.. . porque sentes o
preconceito ou  te  falta  ajuda  humana  para  fazer  mais  contatos..,
sair...?

Marcelo - Mas tambm me falta o econmico... porque  eu  no...  eu  no
senti preconceito das pessoas nestes cinco anos, que se completam  agora
em maro. Eu no sinto..,  ou, pelo menos,... no senti nenhuma barreira
preconceituosa... e acho que  mais de minha parte...

Joana - Tu fugiste mais da realidade...

Vilma - Retraiu...

Marcelo - E...  mais ou menos isso...



Na semana seguinte, Marcelo veio com um novo corte nos  cabelos,  trouxe
suas pinturas e chegou com um sorriso timido ao entrar  na  sala.  Estas
transformaes  externas,    como  corte  de   cabelo,    mostram    uma
transformao  interna  tambm.  A  participao  no  grupo  animou-o  a
melhorar sua aparncia, ainvestirem si mesmo novamente.

Marcelo estava vivendo muito isolado, tinha contato com  sua  famlia  e
poucas pessoas da vizinhana. Sentia que estava perdendo o contato com a
vida. Por isso tambm  no sentia muito os preconceitos que  atingem  as
pessoas com deficincia que esto sempre enfrentando o contexto  social.
Em casa, na cama, s entre conhecidos, foi    amenizada  a  sensao  de
marginalizao.

Dois meses depois, Marcelo contou muitos aspectos de sua vida anterior 
deficincia:

Marcelo - (...) Nessas ltimas trs semanas eu tive que repensar toda  a
minha vida. Tem tanta coisa que agora me d um branco... Tem  o  violo.
Eu no gosto de falar, pois eu tocava muito. No que eu  tocasse  bem...
mas  que era gostoso... Paquerei muito, namorei muito... Tive  uma  boa
experincia na empresa onde trabalhei. Eu me tornei mecnico de turbinas
do tamanho desta sala, trabalhava junto com engenheiros suos no X. ...
Foram dois anos e meio. Larguei o colgio para fazer supletivo  de  seis
meses e depois prestar vestibular  para  engenharia...  Nisso  tudo,  em
fevereiro completei vi nte anos e em maro tive  a  leso  medular.  Da
pesou a barra... Foi no dia 23 de maro. No primeiro  ano  de  leso  eu
tinha uma namorada... Ela me ajudou e acompanhou nesse ano. Foi  difcil
nosso namoro. Para os pais dela foi um escndalo ela  ficar  comigo,  me
acompanhando por quase um ano e meio... Meu pai chegou a brigar com  ela
dizendo que eu no teria nada para oferecerpara ela. Os  mdicos  tambm
acharam uma loucura, disseram que eu  usaria  ela  como  bengala...  At
certo ponto eles estavam certos. Ela tinha o futuro  todo  pela  frente.
Quando terminamos,  foimuito difcil para ns. (...)

Para participar da dinmica de  contar  para  o  grupo  alguns  momentos
importantes de sua vida, Marcelo teve que  repens-La.  Relembrou  todaa
sua histria e confrontou-se  novamente com todo o sofrimento que  havia
passado. Tinha um bom  trabalho,  com  perspectivas  de  ascender,  pois
pretendia cursar o terceiro grau nesta  rea.  Tinha  uma  namorada  que
freqentava sua casa, enfim, uma vida  estruturada  para  construir  seu
futuro.

Ai ocorreu o acidente, transtornando a todos, como um raio,  obrigando-o
a alterar sua vida, seu trabalho, seu namoro,  seus  planos.  Geralmente
este  o momento mais doloroso, quando a pessoa  atingida  se  confronta
com tudo o que perdeu, com tudo o que  no  pode  mais  fazer  e  com  a
destruio dos seus sonhos  e  planos,  sem  poder  vislumbrar,  naquele
momento, uma nova maneira de viver.




Em agosto, a me de Marcelo liga para a aconselhadora para combinar quem
vai busc-lo para a prxima sesso e comenta que Marcelo  est  indo  ao
dentista, para arrumar seus dentes que quebraram no acidente e  que  ele
nunca quis restaurar. Uma ambulncia da prefeitura  o  transportava  uma
vez por semana para este tratamento.

Mais uma mudana externa acontecia com Marcelo: arrumar os  dentes  para
conviver com pessoas que eram importantes  para  ele  e  sair  de  casa,
enfrentando os olhares curiosos ao ser transportado por uma ambulncia.

Em agosto, a situao do seu transporte para as sesses do  grupo  ainda
era muito difcil:

Iara - Eu gostaria de dizer-te da minha preocupao, agora que  a  Joana
viaja por seis semanas, a dificuldade do teu transporte ser maior... j
que ela ajudava a procurar pessoas que te buscassem e, muitas vezes, ela
e o marido te buscavam. Talvez tens algum para pedir...?

Marcelo - Tenho dois primos em X e vou pedir para eles me ajudarem...

Iara - So jovens...

Marcelo - So dois anos mais velhos que eu.

A partir da, Marcelo mobilizou pessoas de sua famlia que tinham carro:
trs tios e dois primos, que perfizeram a lista de "caroneiros" a partir
de agosto, somando-se  aos  voluntrios  da  comunidade.  No  final  das
atividades do grupo, em  dezembro,  constatou-se  que  vinte  diferentes
pessoas estiveram envolvidas com seu  transporte  e  que,  a  partir  de
agosto, somente seis vezes as pessoas voluntrias  da  comunidade  foram
contactadas para o  transporte,  sendo  que  seus  familiares  assumiram
praticamente  todas as semanas.

Marcelo toma a sua vida em suas  mos,  mobiliza  seus  familiares  para
lev-lo para o grupo, dando mostras de sair da depresso,  em  busca  de
envolvimento maior como  grupo.

Na Semana das Pessoas Portadoras de Deficincia, o grupo assumiu  cultos
e Marcelo aceitou ler um Salmo durante a liturgia. Na  sesso  seguinte,
fez-se uma breve avaliao  dos cultos:

Marcelo - Foi dito tudo...

Artur - Mas tu deves ter alguma coi sinha para comentar...

Marcelo - Depois de cinco anos que eu tomei, pela primeira  vez,  hstia
no culto e ontem,pela segunda vez, no culto em X.

Marcelo no  s  demonstrou  mudanas  externas,  cortando  os  cabelos,
restaurando os dentes, mobilizando caroneiros, mas tambm deu mostras de
transformaes espirituais. Depois de muito tempo sem  se  envolver  com
sua religio, Marcelo participa da Santa  Ceia  novamente,  com  pessoas
muito importante para ele, que o aceitaram e o animaram a  ter  um  novo
relacionamento com Deus.

Na                sesso                de                     21.10.96,
 Marcelo traz prospectos de uma Jornada de reabilitao do  Cone  Sul  e
Frum das Pessoas Portadoras de Deficincia Clnicas  de  Porto  Alegre,
que ocorreria dali a  uma  semana,  estava  pensando  em  se  inscrever.
Inscreve-se, participa e na sesso de 4.11.96 traz os resultados:

Marcelo - Foram mais ou menos trinta pessoas, deu pra ver  que  no  tem
cincia que deixe algum aniquilado, existem muitos materiais de  apoio,
tecnologia. (..) Tinha l elevadores de  escada  adaptados  em  prdios,
cadeiras-de-rodas modernas... eu trouxe folhetos para  vocs...  Conheci
um dos organizadores do evento, ele mora no  hospital,  ele  contou  que
existe um projeto pela universidade de estimular o esporte para quem tem
uma deficincia. Peguei o telefone dele. (...)

Marcelo demonstrou uma evoluo desde o inicio do grupo at esta  poca,
saindo da depresso, assumindo a responsabilidade do seu transporte  nas
segundas-feiras, participando em eventos em sua rea  de  deficincia  e
fazendo relacionamentos mais interessantes com outras vidas nesta causa.
Aqui pode-se fazer uma ponte com o primeiro captulo  deste  trabalho  e
verificar na pirmide de Erika Schuchardt o  processo  desenvolvido  por
Marcelo,  da  sada  da  depresso,  aceitao  da  deficincia  e   seu
envolvimento na causa (solidariedade).

Num grupo de aconselhamento teraputico existe uma fora dinmica  capaz
de transformar a vida dos seus participantes, de tir-los da  depresso,
de integr-los num  novo relacionamento com Deus. Essa dfora que vem de
todos e do Esprito Santo, faz um grupo  assim  testumunhar  o  amor  de
Deus.


Da concientizao sobre o que  deficincia

O grupo em muitos momentos, conversou sobre  o  que  significa  ter  uma
deficincia ou como a deficincia  vista pelas pessoas que no tm uma.
Aqui  ser  apresentada  uma  coletnea  destas    compreenses    sobre
deficincia, afim de ilustrar a riqueza de entendimentos.

- No sei se est correto, mas para mim a palavra deficincia quer dizer
eficincia. E no  assim. Tudo bem, eu no posso correr, mas  eu  posso
fazer clculos, eu posso ter muito mais facilidade  em  aprender  outros
idiomas, ou posso ter a facilidade de decorar um texto.  Ento  eu  acho
que no  uma falta de eficincia, mas uma troca de valores. Isso no me
desfavorece, no me faz com que eu me sinta menos do que os  outros.  Eu
tenho uma aptido que muita gente no tem.39



- Mas se tu  dizes  que  tu  no  s  deficiente  e  sim  que  tens  uma
deficincia,  muito diferente. Te sobrou uma poro de coisas.  Tu  no
s s a tua deficincia, tu s muita outra coisa.  Ter  uma  deficincia
no  ser imprestvel, mas  ser impedido de fazer algumas coisas.40

-A questo do pedestal.  Quando  tu  consegue  fazer  alguma  coisa,  as
pessoas acham o mximo e te colocam num pedestal.41

- Eu tenho a impresso de que eles associam a deficincia fsica  com  a
mental. Ento, quando uma pessoa com deficincia  entra  num  assunto  e
prova que sabe o que est falando, que  bem informada  e  culta,  olham
com espanto... porque elas imaginariam que jamais voc leria. Pensam que
voc  uma pessoa desinformada e que no tem raciocnio.42

- Me elogiam porque levo uma vida normal. Um grande erro  achar que  as
pessoas com deficincia no tm coisas negativas, no erram, no  magoam
os outros... Isso no  assim.43

- Cada um de ns tem um medo de se mostrar pra  uma  sociedade  que  no
est preparada para o que foge dos padres ditos normais...44

- (...) No nosso caso, que temos uma conscincia maior, que veio  com  a
limitao, aprendemos logo cedo a criar mecanismos  de  defesa  e  auto-
suficincia e independncia. Mas  para  quem  tem  uma  vida  normal,  o
processo se torna mais demorado e doloroso.45

- E, de repente, t todo mundo te tratando como vtima. Daqui a pouco tu
fica te questionando: a gente quer algumas regalias, precisa  de  alguns
cuidados, porque tem uma deficincia, mas a gente no quer aquela  coisa
de pobre coitado, n?46

- Tu deves, muitas vezes, ter superado teus limites para  sentir  assim.
Eu tambm me supero sempre para no dar o brao a torcer.47

 possvel perceber que, para estas pessoas, a deficincia  no    mais
entendida como  uma  carga  que  impossibilite  sua  participao.  Pelo
contrrio, j existe a conscincia de que  podem  e  devem  ser  aceitas
pelos outros e se aceitar com a deficincia.

No existe aqui aquela concepo de  que  quem  tem  uma  deficincia  
vitima impotente ou ento herona e, por isso, colocada num  pedestal.48
Os mitos em torno das pessoas com deficincia  se  desfazem,  quando  se
conscientizam das suas verdadeiras possibilidades.


Da f dos participantes

Aqui o objetivo  aprofundar a questo da espiritualidade do grupo.49 Em
muitos momentos, vrios participantes citaram  Deus.  Cada  um  tem  sua
histria  de  diagnstico,  deficincia  e  superao  e  seu    prprio
relacionamento com Deus50:

(...)

Iara - Gostaria que falssemos hoje sobre um assunto que, de certa forma
j tocamos, mas de forma velada. Gostaria de perguntar qual  o lugar na
nossa vida? Ou no tem lugar?

Artur - Gostaria de responder esta pergunta, dizendo  uma  situao.  Na
minha ltima cirurgia, fiquei muito tempo no hospital... verao...  ninha
pele virou carne viva,  preso  numa  cama,  atrofiando  brao,  vero..,
frias... Natal... pedia para me colocarem na janela, me sentia sozinho,
como barco desgovernado, e nesses momentos de desespero imaginava eu  na
cruz de Cristo e uma voz que me dizia: "Eu venci a minha  cruz,  suporta
atua, um dia tu vais te libertar dela e vais  viver  livre  ".  Isso  me
marcou. Podem no gostar todos de mim, posso no ter o  apoio  total  de
minha familia, mas lembro do versculo: Se Deus   por  ns,  quem  ser
contra ns? Quanto mais me senti sozinho, perdido, nesses momentos tinha
a convico de que o mundo pode estar contra mim, mas eu tenho um  lugar
frente aos olhos de Deus e ele tem um lugar especial na minha vida.  Ele
sempre foi o meu apoio, me d foras para seguir. Minha razo de existir
 Deus.

Simone - Com  treze  anos,  quando  descobri  que  tinha  escoliose,  me
perguntei porque Deus fez isso para mim? Assim eu vivi por muito  tempo,
at quase 40 anos. Agora no penso mais sobre o problema, sempre  seguro
na mo de Deus, sei que ele est comigo.

Vilma - Eu nunca me questionei assim  quanto    doena.  Eu  tive  Deus
sempre como muito importante, embora eu no v muito  missa.  Eu  sinto
Deus no corao. Sempre que tenho necessidade  de  alguma  coisa,  algum
perigo, eu chamo por Deus e sinto que sou atendida.  No  me  lembro  de
t-lo questionado o porqu da minha doena. Eu  simplesmente  aprendi  a
aceitar e vou levando cada dia a dificuldade como ela vem. Minha  doena
vem aos pouquinhos, cada ano tem uma dificuldade a mais ou no e  recebi
muitas coisas boas, como o meu pequeno, que agradeo muito a Deus,  pois
foi uma nova chance. Eu procuro considerar cada  dia.  Claro  que  tenho
revolta, mas  contra mim mesma, pois sei que no posso  certas  coisas,
mas sou teimosa e tento e caio e me machuco, mas da no tem nada a  ver
com Deus.

Joana - Quando eu era adolescente, eu questionava muito porque eu  tinha
esse problema. Desde pequena estudei em escola batista, aceitei a doena
mais porque eu pensava que podia ter outras  piores.  Perguntava  porque
Jesus no fazia um daqueles milagres comigo. Mas tu vai  amadurecendo  e
aceitando. Ser que existiam mesmo aqueles milagres?

De alguma forma, a deficincia desafia a f em Deus. Para Artur, Deus  
agentar a solido, a falta de apoio, para vencer a cruz e paralelamente
o rumo da vida quando desgovernada. Tambm sustenta-o  nas  horas  muito
difceis, como as do hospital. Simone questionou por que  Deus  fez  com
que ela tivesse uma deficincia. Para ela, era um  desejo  de  Deus  tal
doena. Contudo, depois de questionar quarenta anos, no pensa  mais  no
problema e sente que Deus est com ela,  sua segurana.

Vilma no questionou Deus a respeito de sua  doena,  parece  no  estar
muito relacionado a isso, reconhece a sua importncia nas necessidades e
nas ddivas que recebeu, por exemplo, seu filho menor.

Na adolescncia, Joana questionou o Deus no qual ela  acreditava  quando
criana: Por que no a curava, como nos milagres que lia na  Bblia?  No
entanto, amadureceu e acabou aceitando a deficincia,  embora  at  hoje
permanea a dvida quanto aos milagres de Jesus.

Pode-se perceber que Deus, indiretamente,  considerado  o  causador  da
deficincia, e por isso tambm, o doador  de  amparo  para  a  superao
desta dor. Talvez isso seja  conseqncia  da  leitura  e  interpretao
tradicional que  feita dos textos  bblicos.  Para  muitas  pessoas,  a
deficincia   uma  vontade  de  Deus  e  s    considerado  milagre  a
erradicao total de sintomas e seqelas, visveis e invisveis.

A maioria das pessoas que tm uma deficincia cresceu ouvindo que  "Deus
quer assim" e quando lhe  contavam  uma  histria  bblica  de  cura,  o
atingido, aps encontrar-se com  Jesus,  tendo  feito  o  possvel  e  o
impossvel para este encontro, saa curado, ereto, enxergando,  falando,
enfim, sem nenhum sintoma do que antes lhe afligia.

Existem poucos espaos, como o  grupo  de  aconselhamento,  no  qual  as
pessoas tm a possibilidade de falar destas dvidas e ouvir que Deus no
quis a deficincia de ningum, que  no  so  provas,  que  sua  cura  e
libertao no depende de serem capazes de ouvir, falar ou andar, mas de
viverem plenamente integradas com sua doena ou deficincia.

Apossibilidade de ouvir que Deus  no  quer  a  deficincia  de  ningum
favorece a oportunidade de reiniciar um relacionamento com Deus, sem  as
dvidas que muitos  carregaram  durante  anos,  criadas  por  distores
teolgicas feitas por pessoas que certamente no portavam deficincia.

O  relacionamento  com  Deus    mais  autntico,  se  as  pessoas   com
deficincia sabem que a deficincia e a doena que as atinge no    uma
vontade de Deus e que o  milagre  hoje,  realizado  por  ele  com  nosso
empenho, igual ao empenho dos curados  na  Biblia,    estarem  felizes,
integradas nos seus contextos. Assim, Deus  a fora paravencer a cruz e
no para carrega- la.

Antes de discorrer sobre  os  efeitos  do  grupo  de  aconselhamento  na
comunidade ao seu redor,  importante  frisar  os  efeitos  teraputicos
ocorridos no prprio grupo.



O  sentimento  de  aceitao  mtua,  de  enfrentamento  dos  medos,  da
superao do isolamento, do investimento pessoal de  cada  participante,
enfim,  a  produtividade  do  grupo  possibilitou  a   experincia    de
sentirem-se integradas no grupo e com Deus,  manifestando-se  assim,  no
pequeno grupo, graa e o amor divinos.

Poder confrontar-se consigo mesmos, ouvir a critica e tambm a aceitao
que vem dos outros participantes,  conscientizar-se  sobre  os  nites  e
possibilidades da sua  deficincia, falar de suas dvidas de f no grupo
de aconselhamento, fez do grupo um espao teraputico, onde  as  pessoas
puderam se libertar, crescer integralmente, experimentar o  amor  de  us
atravs de relacionamentos, transformando suas vidas.


eitos do grupo de aconselhamento i  comunidade  eclesial  Provavelmente,
foram muitos os efeitos da existncia de um grupo assim  na  comunidade.
Nem todos estes efeitos puderam ser registrados, rido difcil depreender
todas as conseqncias desta convivncia.

O efeito da existncia de um grupo de pessoas que tm alguma deficincia
no seio da comunidade possibilitou a ela trabalhar com seus preconceitos
e concepes,


convivncia com outros membros da comunidade

Quando o grupo de aconselhamento terminava sua sesso, para  sair  rdio
tinha que, inevitavelmente, passar pelo  salo  da  comunidade  onde  wa
reunido o grupo de liturgia, como j foi dito  anteriormente.  Isso  ria
todas as semanas.

Nos primeiros meses de  funcionamento  do  grupo,  quando  adentrvaD  o
salo, algumas pessoas do grupo de liturgia se viravam, nos olhavam  com
estranheza, reconhecendo um ou outro participante, fazendo  um  silncio
~ie.

Com o passar do tempo, as pessoas do outro grupo foram tornando-se  ~as,
ajudavam o zelador com a cadeira-de-rodas de Marcelo, davam o  a  algum
que precisava. Tambm o grupo  de  aconselhamento  comeou  ~ar  os  que
estavam no salo, e algumas pessoas at  vinham  para  sar  rapidamente.
Tornou-se rotineira, portanto, essa sada no meio da de do outro  grupo,
pois no tnhamos como evit-la, e modificou o constrangedor inicial.

Em dias muitos frios, com chuva, no rigor  do  inverno,  as  pessoas  do
grupo chegaram a comentar: "Vocs so corajosos, sair nesse tempo!" Para
Marcelo, especialmente, era um grande desafio sair em dias  assim,  pois
passava a maior parte do tempo na cama, sobre  um  colcho  d'gua,  com
aquecedor ligado  porbaixo da cama.

No fim de uma das sesses, uma senhora da comunidade ficou observando  a
colocao de Marcelo no carro e o desmontar de  sua  cadeira.  Quando  o
carro se afastou, ela  voltou-se para a aconselhadora e perguntou: "Esse
a no  bem normal da mente, n? ... Coitado!"

Foi explicado, ento, que  ele  tinha  uma  leso  medular  e  que  suas
capacidades mentais estavam preservadas. Poucos meses  depois,  a  mesma
pessoa disse: "Que bacana, eu soube que aquele rapaz pinta com a  boca!"
Assim a comunidade foi fazendo a experincia de perceber que as  pessoas
com deficincia so mais do que  a  sua  deficincia,  e  que  conseguem
realizar tarefas como todo mundo, s que adaptadas.

Outro exemplo de que perpassam na comunidade certas concepes que podem
sertransformadas  a de uma  senhora  que  contou    aconselhadora  que
gostaria muito de convidar um amigo  seu,  portador  de  deficincia,  a
participar deste grupo, mas tinha a impresso  de  que  seu  amigo  "no
gosta de grupos complicados, prefere  ir  no  sindicato".  Conforme  sua
concepo, o grupo de aconselhamento seria um grupo problemtico.

Ao tomar conhecimento dos objetivos do grupo e entrar em contato  com  o
grupo semanalmente, ela pareceu mudar de  opinio  e  entender  o  grupo
complicado  de  outra  forma.  Convidou  seu  amigo,  que  no  aceitou,
conseguiu uma colaboradora para o sistema de transporte, pois ela  mesma
no podia fazer o transporte, j que participava do grupo  de  liturgia,
que iniciava e terminava mais tarde. Seu  marido  tornou-se  o  auxiliar
mais freqente do zelador para colocar Marcelo no carro e desmontar  sua
cadeira.


Convivncia com membros voluntrios do sistema de transporte

A seguir, sero apresentadas algumas partes das entrevistas  feitas  com
as voluntrias e os voluntrios do sistema de transporte.


Da impresso sobre o grupo

Aconselhadora: - Qual foi a impresso que o  sr./sra.  teve  sobre  este
trabalho? - Nos momentos que tive contato  com  as  pessoas  que  fiz  o
transporte,  pude  constatar  que  este  trabalho  para  eles     muito
importante, porque no havia frio nem dias chuvosos que fizessem com que
eles desanimassem. Para eles, o dia do  encontro  na  segunda-feira  era
muito importante. Eu senti que esse encontro para eles  uma realizao.
Eles no atrasaram, pelo contrrio, sempre estavam  prontos  na  hora  e
sempre dispostos, enquanto que outros comeam a alegar motivos: no,  t
cansado,  t  doente,  t  isso...  Essas  duas  pessoas  que   fiz    o
transporte... o Artur  ainda jovem, sem compromisso  nenhum,  de  muito
dinamismo, ele  fora de srie, no se nota que ele tem uma deficincia.
E a Vilma, apesar  de ter filho pequeno, saia.

- Eu prezo este trabalho com pessoas portadoras de deficincia como  uma
das atividades mais significativas ao lado de outras que a Igreja pode e
deve, em resposta  sua fidelidade a Jesus Cri sto, realizar.  Acho  que
existem certas  reas  na  Igreja  que  se  pode  realizar  um  trabalho
tradicional, enquanto que, na rea das pessoas  com deficincia,  h  um
certo temor de encarar este trabalho. Na minha experincia de comunidade
(...) Ento considero muito importante este trabalho e  acho  que  outra
coisa positiva, alm de ns criarmos espao  para  que  as  pessoas  com
deficincia consigam sentir-se dignas, como pessoas com  dignidade  como
filhos e filhas de Deus,   que ns, como Igreja, resgatamos um pouco da
credibilidade  que  ns  perdemos  ao  ficar  fazendo  s  o    trabalho
tradicional e no de se envolver com pessoas assim.

- Acho que  uma mnima coisa que uma pessoa que tem condies de  fazer
este trabalho pode fazer. Acho que tem muitos problemas  relacionados  a
pessoas com deficincia e  difcil, s vezes, ajudar e isso  uma coisa
mnima que a gente pode fazer. Fao com gosto. Acho que  seria  possvel
encontrar mais pessoas que se dispusessem  a ajudar nisso.

- Fiz este trabalho com alegria e quanto mais eu fazia, melhor me sentia
e com mais vontade de colaborar e me integrar nessa atividade.  Tenho  a
impresso que as pessoas que eu atendia com o meu transporte se  sentiam
felizes em terem algum na hora certa  que  os  buscasse  e  levasse  de
volta. Acho que, neste ponto de vista,  o atendimento a essas pessoas  
um desafio, no s de diaconia, mas tambm um servio de carinho para ei
as.

-A minha impresso  que este  trabalho    muito  importante,  uma  vez
porque integra o grupo de deficientes entre si, outra vez porque integra
estas pessoas na comunidade e tambm  possibilita  que  as  pessoas  que
querem, de uma ou outra forma, colaborar para que o  trabalho  do  grupo
evolua, podem faz-lo.


e como se sentiram ao fazer o transporte

Aconselhadora: Como o sr./sra. se sentiu ao fazer o transporte?

- Foi uma experincia muito interessante. O que passava na minha  cabea
no momento de carreg-lo era: O que significa para a famlia que tem uma
pessoa assim  para    conviver?  Quer  dizer,    muito  trabalho,  deve
exigirmuita dedicao, como eu s posso imaginar. Tambm me  confrontou,
porque eu me senti um pouco desajeitado pra  pegar ele, desde  montar  a
cadeira dele at aquela ltima coragem de botar a mo nele, erguer  ele,
levar para c, levar para l. Um pouco de temor. Como  que fao,   como
 que no fao? Facilmente cheguei a concluso que no   to  diferente
de uma criana que no sabe ainda caminhar.



- Eu me sinto bem. Sei que  um mecanismo meio compensatrio, voc  est
fazendo alguma coisa por algum, dando uma mozinha. Durante toda  minha
vida fiz muito pouco  este  tipo  de  auxlio  concreto.  Achava  melhor
privilegiar a ajuda de discusso,  de  contribuir  para  a  discusso  e
tentar mudara estrutura. Agora, no estou mais nisso e vejo  que  agente
deve  tentar  fazer  uma  outra  coisa,  considero  isso    uma    coisa
assistencial. No precisa ficar na assistncia, porque  agente  conversa
com as  pessoas que transporta, faz perguntas... Ento no  s pegar  e
largar, mas mostrar que a gente se interessa  pela  pessoa  e  pelo  seu
desenvolvimento.

- No comeo, me senti muito nervosa, porque o Marcelo  tem  uma  cadeira
enorme e descobri que em carro pequeno era mais difcil coloc-lo. Kombi
seria melhor. S que na kombi ele sentou no banco da frente,  e,  apesar
do cinto, ficou balanando pra l e pra c. Ento eu tinha  que  dirigir
com uma mo no volante e outra tentando  equilibr-lo. A primeira vez eu
me senti nervosa e angustiada, mas depois tentei encarar isso a  com  a
maior naturalidade e tentei passar isso para ele, pois descobri  que, se
eu ficasse nervosa e angustiada, ele tambm ia se sentir  assim  tambm.
Eu confesso que tive muita vontade de fazer com que ele se sentisse bem.
Tenho um carinho grande por ele.

- Eu me senti bem. Me senti bem, porque tive uma boa  receptividade  das
pessoas que transportei e boa receptividade por parte dos  familiares  e
tambm uma boa receptividade por parte do grupo que nos esperava. Eu fiz
amigos, assim, de dizer "oi, como vai" e marquei as pessoas que  estavam
ali reunidas. Conheci mais pessoas atravs deste trabalho.


Da contribuio do grupo para a comunidade

Aconselhadora: - O que este grupo pode contribuir para a comunidade? - A
existncia de um grupo assim  uma informao  boa  para  a  comunidade,
porque mostra que essas pessoas existem  e  querem  se  relacionar,  no
querem ficar retiradas. E desafia um pouco a comunidade a abrir espao e
ajudar. As pessoas com deficincia  e  com  alguma  dificuldade  so  os
prediletos de  Deus,  ento  acho  que  tem  a  tambm  um  ingrediente
teolgico. As pessoas com deficincia ajudam a lembrar que a  comunidade
deveria ser composta de todas as pessoas.

- Exatamente neste sentido que j tentei destacar: uma pessoa como eles,
que assumem a sua deficincia,  uma ajuda, transmite foras  s  outras
pessoas. Talvez at possam ajudar outras pessoas  a  assumirem  as  suas
deficincias, no visveis, ou  at,  talvez,  que  elas  escondam.  Mas
encontrando uma pessoa dessas, tambm no tem mais medo de se assumir os
seus pontos fracos. Eu vejo como uma das maiores importncias a presena
de pessoas com deficincia numa comunidade exatamente nisso.62

- Eles tm muito com o que contribuir. Atravs do  confronto  com  estas
pessoas, eu descu bro sempre de  novo  que  eles  so  pessoas  que  tm
sentimentos, tm frustraes, mas  ns  tambm  temos  e  que  eles  tm
qualidades, virtudes e dons e cada um pode  contribuir  com  aquilo  que
tem, assim como ns fazemos a nossa parte, tambm acho  que  eles  podem
fazer a parte deles. Acho uma lstima quando as pessoas os desconsideram
ou quando privilegiam demais, em  exagero,  em  excesso.  Porque  no  
verdade, eles tm suas caractersticas peculiares e podem contribuir com
isso. Acho que  esse  trabalho    superimportante  porque  vocs  esto
tentando resgatar isso,  no  s  dentro  do  grupo,  mas  tambm  fora,
nocontextomaiordasociedade.

Atravs do que foi relatado e dito nas  entrevistas  pelas  pessoas  que
conviveram um pouco com o grupo de aconselhamento, percebe-se  que  esta
experincia possibilitou um confronto das pessoas da comunidade com  uma
realidade diferente.

As pessoas da comunidade que  tiveram  algum  contato  com  o  grupo  de
aconselhamento puderam, realmente, pensar a  situao  das  pessoas  que
vivem com uma deficincia, colocando-se  imaginariamente no  seu  lugar,
simpatizando,  conhecendo  suas  dificuldades,  como  por  exemplo,   de
transporte, de manejo com as diferentes deficincias, contribuindo  para
um relacionaiento interpessoal que  minimizou  preconceitos  e  diminuiu
distncias.

Foi  um  desafio  para  a  comunidade  perceber  que  ela  deveria   ser
constituda de mais pessoas que normalmente no tm acesso e  que  essas
pessoas contriburam para experincias  ricas, de onde a comunidade pode
epreender que todas as pessoas dependem umas das outras, que  todos  tm
dons para compartilhar e que  somente com a diversidade que se forma  o
corpo de Jesus Cristo.

As pessoas  com  deficincia,  por  sua  vez,  puderam  experimentar  um
ambiente que as acolhia, que as respeitava, que  considerava  importante
t-las que valorizava a sua atividade dentro da  comunidade.  O  contato
com outros membros da comunidade e com as pessoas voluntrias do sistema
de transporte foi fortalecendo a  sensao  de  integrao  e  aceitao
dentro daquele grupo maior que, de certa  forma,  espelhou  a  aceitao
integral de

Concluso

Pode-se comparar o aconselhamento em grupo a veredas cheias  de  esas  e
possibilidades de transformao na vida dos  seus  participantes  outras
pessoas que fazem parte dos seus contextos. Muitas  outras  deficincas
ainda gravitaram ao redor do grupo, fizeram parte de sua a,  construindo
um contexto sempre mais integrador.

 aconselhamento  em  grupo  com  pessoas  portadoras   de    deficincia
comunidade  um fator teraputico, no s para o grupo, mas tambm la  a
comunidade, capaz de transbordar para fora de seus muros,  mando  outros
contextos.  teraputico  medida que possibilita  o  entrelaamento  de
diferentes experincias, minimizando preconceitos, possibilitando  cura,
crescimento e integrao.

Em dois aspectos o grupo de aconselhamento  se  diferenciou  dos  outros
grupos da comunidade eclesial: o grupo  de  aconselhamento  com  pessoas
portadoras de deficincia  teve que abrir um espao novo  na  comunidade
eclesial, onde  muitos  outros  grupos  j  existiam,  porm  nenhum  de
aconselhamento; e tambm necessitou  do  auxlio  de  algumas    pessoas
voluntrias da comunidade para  transport-lo,  pois  sem  o  transporte
garantido no poderia funcionar. Outros  grupos  eclesiais  difcilmente
dependem do  transporte de membros voluntrios para se reunir.

Em ltima anlise,  o  grupo  de  aconselhamento  provocou  confronto  e
desafio para a comunidade eclesial e a transformao de muitas vidas que
dela fazem parte, vidas  estas,  que  se  entrelaaram  e  aumentaram  a
eficcia da comunidade, como corpo de Cristo, cheio de dons  que  provm
do Esprito Santo.


Notas Aqui refere-se aos autores Dietrich Stollberg  e  Joseph  Knowles,
que sero abordados neste  capitulo.  2  Sophia  VINOGRADOV,  Irving  D.
YALOM, Manual de psicoterapia de grupo. p. 63-66.
        urea CASTILHO, A dinmica  do  trabalho  de  grupo,  p.  60-63;
Sophia VINOGRADOV, Irving D. YALOM, Manual de psicoterapia de grupo,  p.
79-82. urea CASTILHO, A dinmica do trabalho de  grupo,  p.  3  1-36  e
Sophia VINOGRADOV, Irving D. YALOM, Manual de psicoterapia de grupo,  p.
40-48. "(...)was in den Sitzungen  laut  wird,  'gehrt  der  Gruppe"'.:
Joseph W. KNOWLES, Gruppenberatung ais Seelsorge und Lebenshiife, p. 20.
6 urea CASTILHO, A  dinmica  do  trabalho  de  grupo,  p.  33;  Sophia
VINOGRADOV, Irving D. YALOM, Manual de psicoterapia  de  grupo,  p.  75.
Joseph W. KNOWLES, Gruppenberatung ais Seeisorge und Lebenshiife, p.

23, Dietrich STOLLBERG,  Seelsorge  durch  die  Gruppe,  p.  55;  Sophia
VINOGRADOV, Irving D. YALOM, Manual de psicoterapia de grupo, p.  46-48.
8 Joseph W. KNOWLES, Gruppenberatung ais Seelsorge und  Lebenshilfe,  p.
22; Dietrich STOLLBERG, Seelsorge durch die Gruppe, p. 51. 6  Joseph  W.
KNOWLES, Gruppenberatung ais Seelsorge und Lebenshilfe, p. 23;  Dietrich
STOLLBERG, f3eelsorge durch  die  Gruppe,  p.  56.  Joseph  W.  KNOWLES,
Gruppenberatung ais Seelsorge und Lebenshilfe, p.

23, Sophia VINOGRADOV, Irving D. YALOM, Manual de psicoterapia de grupo,
p. 48-49. "Sophia VINOGRADOV, Irving D. YALOM, Manual de psicoterapia de
grupo, p. 44-45. 12 Joseph W. KNOWLES, Gruppenberatung ais Seelsorge und
Lebenshulfe, p. 20.



..)  hier  maclien  Menschen  die  Entdeckung,  dal3  sie  gerade  dann
akzeptiert erden, wenn sie die Maske fallen lassen und ihre  Schwachheit
zuzugeben agen.": Dietrich  STOLLBERG,  TheologischerKommentar  p.  194.
Llrea CASTILHO, A Dinmina do Trabaldo de Grupo, p. 45; Howard  JNEBELL,
Mental Health Through Christian Community, p.  154;  Dietrich  rOLLBERG,
Seeisorge durch die Gruppe, p. 59. irea CASTILHO, A dinmica do trabalho
de grupo, p. 37-4 1; Dietrich 'OLLBERG, Seelsorge durch die  Gruppe,  p.
91-130; Sophia VINOGRADOV, ~ing D.  YALOM2  Manual  de  psicoterapia  de
grupo,  p.  126-130;  David  E.  MERMAN,    Fundamentos    bsicos    de
grupoterapias, p. 148-152. i'er Seelsorge treibt, sollte wissen, daI3 er
sich immer auch se intensiv mit ~li selbst beschftigt, wie er sich  mit
den anderen beschftigt.": Dietrich OLLBERG, Theologischer Kommentar, p.
189. irea CASTILHO, A Dinmica do trabalho de grupo, p. 51. anscrio n8
6 - 22/04/96. inscrio n0 34 - 25/11/96. ward CLINEBELL, Aconselhamento
pastoral, p. 81. inscrio n0 24 - 09/09/96. Inscrio n8 30 - 28/10/96.
rnscrio n8 33 - 18/11/96. rnscrio n8 02 - 25/03/96. Inscrio n8  06
- 22/04/96. Inscrio n8 27 - 30/09/96.  Inscrio  n9  34  -  25/11/96.
Inscrio n8 12 - 03/06/96. Inscrio n8 15 - 24/06/96. bnscrio n8  19
- 05/08/96. trich STOLLBERG, Seelsorge durch  die  Gruppe,  p.  131-134,
David E. 4ERMAN, Fundamentos bsicos das grupot erapi  as,  p.  101-104.
nscrio n8 20 12/08/96. nscrio n8 02 - 24/03/96.  nscrio  n8  15  -
24/06/96. nscrio n8 21 - 19/08/96. nscrio n8 22 - 26/08/96. nscrio
n8 29 - 21/10/96. Inscrio n9 31 - 04/11/96. nscrio n9 02 - 25/03/96.
nscrio n8 02 - 25/03/96. nscrio n0 07 - 29/04/96. nscrio n8  07  -
29/04/96. nscrio n8  07  -  29/04/96.  Inscrio  n9  19  -  05/08/96.
nscrio n8 20 - 12/08/96. nscrio n8 24 - 09/09/96. ~1scrio n2 27  -
30/09/96. forme abordado  no  primeiro  captulo,  item  4.2.1:  Da  sua
auto-imagem e pta&o. inscrio  da  espiritualidade  j  foi  ilustrada
brevemente no item: De como o po  animou.  E  50  Transcrio  n0  34  -
25/11/96.

        Notou-se  que  os  familiares  dos  participantes  do  grupo  de
aconselhamento tambm se transformaram, a partir das modificaes de seu
familiar.  Isto  ,  h  um  fenmeno  interagente  que  vai  provocando
respostas e modificaes na famlia, a partir da nova muito interessante
constituir-se,  paralelo  ao  grupo  de  aconselhamento,  um  grupo   de
familiares de pessoas  com  deficincia  para  pesquisar  este  fenmeno
interagente. Este ponto, no entanto, no estava incluido nos  propsitos
desta                                                          pesquisa.
Militar aposentado - Transcrio n937 - 09/12/96.
        Pastor - Transcrio n9 38 - 09/12/96.
" Jornalista - Transcrio n9 40 - 11/12/96.
        Pastor aposentado-Transcrio n9 43-11/12/96.
Comercirio aposentado - Transcrio n6 49 - 19/12/96.
 Pastor - Transcrio n9 38 - 09/12/96.
Jornalista - Transcrio n0 40- 11/12/96.
        Enfermeira - Transcrio n9 48 - 18/12/96.
Comercirio aposentado - Transcrio n0 49 - 19/12/96.
Jornalista - Transcrio n9 40 - 11/12/96.
Professora - Transcrio n9 42 - 11/12/96.
Enfermeira - Transcrio n9 48 - 18/12/96.
CONCLUSO

Ao iniciar a pesquisa, havia dois  motivos  que  me  impulsionavam:  uma
suspeita e uma vontade. A suspeita era de ser possvel ajudar as pessoas
com deficincia num grupo de  aconselhamento,  na  comunidade  eclesial,
proporcionando-Lhes cura e crescimento.  Avontade  era  de  estimular  o
surgimento de grupos assim, para que as comunidades  eclesiais  pudessem
se confrontar com essa realidade e colher frutos dessa convivncia.

Avida  das  pessoas  com  deficincia,  que  somam  10%  da    populao
brasileira,  ainda permeada de preconceitos e estigmas que impedem  sua
participao integral, embora se deva dizer que o tratamento  dispensado
a elas modificou-se amplamente ao longo da  histria.  Se  hoje  existem
instituies que as abrigam, mas s vezes isolam tambm, existem pessoas
com deficincia se integrando no mercado de trabalho e na vida diria.

Apesquisa mostrou que o impacto de  uma  deficincia  na  vida  familiar
causa sentimentos e  reaes  em  todas  as  pessoas,  tanto  na  pessoa
atingida como nos seus familiares, O que acontece  um longo perodo  de
aprendizagem.

A  pessoa  com  deficincia  necessita  descobrir  seus  novos  limites,
considerar suas perdas, construir uma nova auto-imagem,  descobrir  suas
reais possibilidades quanto  sexualidade, mobilidade, acesso  ao  campo
de trabalho e relacionamentos internessoais

O ajustamento fsico, emocional, espiritual,  sexual  e  social  precisa
ocorrer, segundo a pesquisa, para que as pessoas com deficincia  possam
se integrar vida cotidiana, no como heronas, nem  como  vitimas,  mas
como cidads comuns, e participar dela, desfrutando de seus  direitos  e
deveres.

Ogrupo  de  aconselhamento  com  pessoas  portadoras   de    deficincia
ofereceu-lhes  a  oportunidade  de  elaborar  a  crise  de  possuir  uma
deficincia num mundo incapacitante.

A  comunidade  eclesial  foi  o  lugar  de  estmulo   ao    grupo    de
aconselhamento, no qual todas as  questes  acima  citadas  puderam  ser
elaboradas. Foi na  comunidade  eclesial,  atravs  dos  relacionamentos
humanos que ali ocorreram, que as verdades teolgicas de  aceitao  das
diversidades humanas e de integrao puderam encarnar-se.  Constituiu-se
ali a unidade de um corpo, em que muitos e variados  membros  conviveram
em  harmonia,  auxiliando-se,  interagindo,  cada  um  em  sua   funo,
complementandOse e amparando quando uma parte  no  conseguia  funcionar
como poderia.

O texto bblico de 1 Corntios 12.20-26 mostrou  que  nenhuma  parte  do
corpo pode dizer s outras que no  so  necessrias.  Mesmo  as  partes
aparentemente  mais  fracas  tm  a  sua  contribuio  para    o    bom
funcionamento do corpo e, por isso, no pode haver diviso. Todos  podem
cooperar em favor uns dos outros. Numa comunidade eclesial assim, em que
se respeitam limites e se descobrem potencialidades antes escondidas,  
possvel dividir a dor, a honra e o regozijo.

Nesta comunidade de diversidades, tornou-se concreta  a  experincia  de
sentir-se curada, mesmo permanecendo a deficincia fsica ou visual.  As
pessoas  portadoras  de  deficincia  que  participaram  do  grupo    de
aconselha#mento, considerando  seus  corpos  imperfeitos  integrais,  ou
seja,  corpos  com  deficincia,  que   conhecem    seus    limites    e
possibilidades, que no as  impedem  de  viverem  integradas,  de  serem
respeitadas, fizeram aqui a experincia  de  integralidade:  sentiram-se
aceitas por si mesmas, pelas outras pessoas da comunidade  e  por  Deus.
Essa foi a  experincia  de  libertao  das  pessoas  com  deficincia:
viverem bem, serem aceitas  e  integradas  com  o  corpo  que  tm,  com
seqelas e limites.

Otexto de Lucas 13.10-17 tira as pessoas com deficincia  da  margem  da
sociedade e as coloca no centro da preocupao e da responsabilidade  de
todos. Jesus escolheu uma  mulher  com  deficincia  para  demonstrar  a
grandeza do  reino  de  Deus,  onde  aquilo  que    valorizado  (homens
saudveis) perde importncia e o que  desvalorizado  ganha  importncia
maior. A mulher encurvada reuniu dois estigmas, o de  ser  mulher  e  de
portar deficincia. Jesus proclamou-a como filha de Abrao, herdeira  de
todas as bnos prometidas, parte integrante davontade de Deus.

Descobrir essas verdades bblicas foi uma amostra do  que  pode  ocorrer
num grupo de aconselhamento de pessoas portadoras  de  deficincia  numa
comunidade eclesial. Atravs dos relacionamentos interpessoais,  atravs
da troca  e  partilha  de  experincias  e  da  catarse  de  sentimentos
dolorosos,  o  grupo  permitiu  uma  crescente  reduo  do  medo  e  do
isolamento, a instilao de esperana, a aprendizagem de novas  maneiras
de  enfrentamento  de  dificuldades  e  preconceitos,   resultando    na
mobilizao de seus prprios recursos na  estruturao  de  suas  vidas,
experimentando a reconciliao consigo mesmo, com os outros e com Deus.

Ficou evidente ao Longo  da  pesquisa  que  o  aconselhamento  em  grupo
precisou ir alm da busca de  cura  do  sofrimento  individual  de  cada
participante. Precisou conhecer as causas  desse  sofrimento  dentro  do
contexto em que se situam e denunci-las,  tentando  assim,  lentamente,
transformar certas circunstncias que se tornam incapacitantes  para  as
pessoas com deficincia.

Acomunidade eclesial, pretendendo  ser  teraputica,  precisou  ter  uma
viso ampla  das  necessidades  mais  profundas  dos  seus  integrantes.
Necessitou envolver-se num relacionamento autntico com elas para  ento
possibilitar cura, libertao, crescimento e potencializ-las a terem um
relacionamento vivo com Deus.

As questes colocadas no inicio e que serviram de bssola para nortear a
pesquisa foram,  aos  poucos,  solucionadas  pelo  grupo  e  pelos  seus
reflexos nas outras pessoas que com ele conviveram. para outros membros,
possibilitando a mudana de concepes quanto a pessoas com deficincia.

A convivncia do grupo de pessoas com deficincia dentro  da  comunidade
propiciou a quebra de preconceitos e tabus que foram  estabelecidos  por
falta de um relacionamento mais prximo  e  de  informaes  corretas  a
respeito do assunto, desde informaes  pessoais  at  informaes  mais
amplas de barreiras sociais, dificuldades de insero e  marginalizao.
O  grupo  de  pessoas  com  deficincia  no  s  confrontou  a  prpria
comunidade com seus  valores,  mas  tambm  confrontou  as  pessoas  com
deficiencia com seus prprios medos, com a direo que  vinham  dando  
suavida, com sua f, com a forma de se relacionar com as pessoas ao  seu
redor, com seu  isolamento,  enfim,  com  sua  maneira  de  encarar  sua
deficincia e seu papel no contexto social.

As pessoas com deficincia tiveram  a  oportunidade  de  ouvir  e  fazer
criticas e, ao mesmo  tempo,  de  experimentar  a  aceitao  mtua,  de
conscientizar-se sobre seus limites e  possibilidades,  de  falar  sobre
suas dvidas de f num Deus que, em muitos momentos, foi colocado como o
causador da sua deficincia.

Um grupo assim, de  aconselhamentO,  teraputico,  em  que  cada  pessoa
investiu pessoalmente  sua  confiana,  sua  capacidade  de  ouvir,  sua
transparncia, sua histria, foi o espao em que a cura, o crescimento e
a libertao aconteceram, intermediados pelos relacionamentos humanos. O
relacionamento com Deus tornou-se mais autntico e  impulsionou  para  a
transformao de suas vidas. As pessoas que participaram  do  grupo  no
precisam  mais  viver  na  escurido  de  seus  prprios  temores,   mas
aprenderam a mobilizar suas foras, aumentando sua capacidade de amar  e
de ser feliz.

Ficou evidente o grande desafio para a Igreja, na atualidade, de ser  um
ambiente propicio para recuperao e libertao da vida das pessoas  com
deficincia. Ela pode incentivar a formao de grupos de  aconselhamentO
que lhes possibilitem viver conscientemente em busca de mais espao, com
poder de deciso, de forma integrada, lidando construtivamente com  suas
dificuldades,  saindo  da  posio  de  espectadoras,  para  tornarem-se
autoras de suas vidas. Dessa forma, a Igreja realiza  a  sua  misso  de
concretizar a verdade bblica de amor ao prximo (Mateus  22.34-40)  que
Cristo ensinou e que confere a ela a tarefa de lanar-se contra a lgica
do  mundo,  recebendo,  em  seu  seio,  aqueles  que  o  mundo   exclui,
capacitando-os  para  interagir  Com  esse  mesmo   mundo    de    forma
transformadora.


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50 Consideraes sobre o sistema de assistncia aos doentes e portadores
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